9 de setembro de 2016

Teresa Fênix (12b parte)



Os dias modorrentos  iam se  passando. E a perturbação cotidiana  da Maga Psicológica, discutindo sempre  em voz alta nos corredores do modestíssimo prédio onde moravam Ulisses, Teresa Fênix e o grego. Esse pequeno conglomerado, tinha similaridade com as hospedarias cariocas,  nominadas como cabeça de porco. Por último Maga Psicológica denunciou Teresa Fênix ao Conselho Tutelar, por negligenciar no estudo de Ulisses, o qual estava apresentando notas baixas em português, história e geografia. Na compensação,  em matemática era nota máxima. Os mecanismos superiores mentais,  diante das disjuntivas existenciais não impedia o raciocínio cartesiano.  A alcaguete foi à  fundo no expediente do denuncismo, tendo sido necessário se constituir um advogado. Zeca tão logo soube do caso, solidário, acompanhou a filha dele ao Conselho Tutelar, nos primeiros dias primaveris.  A atendente era graduada pelo Serviço Social, solícita deu  início a anamnese social e psico-antropológica dirigida a mãe e ao filho. E no final, a conclusão da técnica não viu nada que acolhesse a delação. Recomendou a genitora de Ulisses, que a aula particular nem sempre  é suficiente. Se faz necessário a mãe ser coadjuvante do filho na tarefa da  pesquisa e dos trabalhos escolares.  Mais uma vez a Maga Psicológica deu com os burros n'água.

Teresa Fênix (13a.parte)

Teresa Fênix mantinha o relacionamento com Pitacus Theodorakys, todavia as contendas verbais aumentavam a cada dia. O grego era ateu, e ela participava numa dessas igrejas de inspiração neo-pentencostal, cuja prática do dízimo é compulsório. E semanalmente havia o exorcismo. Nesses dias  uma infernal gritaria,  saindo pelas pequenas e poderosas caixas de sonoras, talvez, com mais cem decibéis, ecoando  na vizinhança. Um flagrante desrespeito. O diabo infalivelmente retornava de 7 em 7 dias. (O companheiro dela achava que essa religião, remetia ao tempo das Inquisições comandadas pelo Santo Ofício).  Tereza Fênix tentou mudar-se para o apto do capitão de longo curso, mas foi rechaçada. O desnível cultural era tão nítido quanto a claridade solar. Eis o mistério do amor.O grego  gostava por demais de Ulisses, pois o via promissor pela inteligência demonstrada nos mínimos detalhes (sem deixar de ser criança). Teresa passou a contrair pequenas despesas,  no somatório pesava no bolso, da vida modesta do Pitacus Theodorakys. A casa dela estava sempre visitada pelos ditos evangélicos, quer nas orações (acompanhada de fartos lanches), quer em conversas inócuas, segundo pensava o namorado dela. Teresa Fênix ganhou alguns quilos, diante da vida sem atividade física. Sedentária se negava a caminhar ou entrar para uma fitness. Aguardava a benevolência  financeira do namorado, para se submeter a uma intervenção cirúrgica.

Teresa Fênix (12a. parte)

O Chefe em plena atividade,  cavava o túnel  com 17 colaboradores, em diversos horários estratégicos, para não levantar quaisquer suspeitas. Os pepinos eram frequentes, desde uma tubulação abandonada, até os terrenos pantanosos. Haviam discussões de cobrança, tipo, de quem ralava mais, e os morcegadores. Essas práticas nas disputas individuais,  irritava bastante  o Chefe. A tarefa avançava, apesar das barreiras. O Chefe em dado momento animou o grupo de detentos, afirmando estarem próximos do objetivo. Aconteceu o inusitado, numa das costumeiras visitas aos internos: o agente penitenciário encontrou um martelete, na bolsa de uma mulher.   Ela era esposa de um dos membros da construção do túnel da fuga. Ameaçado de morte, o servidor público arregou, e entubou  o fato. O grupo de condenados ficou  grilado, e aumentaram as  medidas de segurança. O Chefe discorria um decálogo diariamente, contendo atitudes proibidas de serem tomadas. A tarefa continuou, dessa vez intensificada, por contas das chuvas do verão que se avizinhavam.

7 de setembro de 2016

Teresa Fênix ( 11a.parte)

 Teresa Fênix viu através das redes sociais, a foto de uma  tica caribenha com o filho dela. Ficou atônita. O jovem filho nas garras de uma gringa, assim pensou a mãe, meio que desesperada. Um amor eruptivo e abrasador nascido daquele encontro. A tica se chamava Maria de Guadalupe, de origem mexicana. O tempo passava rapidamente. É sempre assim...quando desejamos que o relógio do  tempo pare ou atrase. Apaixonado, Ulisses levou Maria de Guadalupe para o hotel. E deram  início ao romance num curto espaço do  tempo.  Maria Guadalupe era formada em letras no idioma espanhol. Ficou sabendo serem   os passatempos preferidos, o teatro, literatura e o vôlei. E se preparava para concorrer aos testes  do mestrado em Cognição e Linguagem na  UENF(Universidade Estadual do Norte Fluminense). Ulisses exultante, desejou-lhe boa sorte diante do desafio universitário. E o romance continuou entre  flores e  sonhos. Maria de Guadalupe o levou na residência e  apresentou-lhe os pais dela. Professores do terceiro grau, ele ministrava aula de matemática e a mãe de arte contemporânea. A mãe nascida na cidade do México  discorreu sobre a pintura de Portinari(1903/1962), em especial o mural - Guerra e Paz - de autoria do mestre nas dependências da ONU. O pai da pequena Maria de Guadalupe quis saber de Ulisses sobre o xadrez e as estratégias. Enveredaram num diálogo sobre o esse antigo jogo. Em seguida Ulisses foi convidado a disputar uma partida com o panamenho, de nome  Juan Carlos Ortega. Maria Guadalupe ficou preocupada. Parecia-lhe um confronto de inteligências (des)necessário. A partida durou três longas horas.  Ulisses deu-lhe um cheque mate. Foi saudado pelo professor Ortega e esposa, de nome Maria Echeverria. A filha do casal respirou aliviada. 

Teresa Fênix ( décima parte)

No terceiro ou quarto dia, Ulisses começou a treinar o idioma hispânico. Nas tratativas que manteve no comércio em geral, quer na busca de livros sobre xadrez, ou na compra de uma guayabera, traje típico da América Central, começou a gostar do castelhano.   Gradualmente ia arranhando a língua do escritor Miguel de Cervantes (1547/1616). E se animou tanto, ao adquirir um livreto sobre as expressões de cortesia em espanhol. Ao chegar exaurido de um passeio, encontrou no hotel uma correspondência, por parte do diretor cultural do governo panamenho,  convidando o jovem brasileiro, para um evento de música e dança do folclore daquele país amigo. Estreando a elegante guayabera de cor branca, foi a festa. Cumprimentou timidamente as autoridades locais, ouviu discursos entediados, e depois das apresentações dos corais, em seguida as danças típicas regionais. Após um brevíssimo intervalo, uma afinadíssima orquestra caribenha tocou os rítmos merengues, rumbas e mambos. Ulisses foi convidado pra dançar com uma tica panamenha. E muito se divertiu.


Teresa Fênix ( décima parte a)


 E aqui na terra de Ari Barroso ( 1903/1964), o Chefe iniciou o plano de fuga, conseguindo os mapas subterrâneos para localizar as galerias pluviais e do esgotamento sanitário. Tal proeza em ter esse mapeamento, foi via a mãe do braço direito do Chefe, cuja a comadre trabalha no órgão público. Estudou detidamente todas a geografia do subsolo, para escolher onde seria o ponto zero, para a construção da rota de fuga.  Inteligência cartesiana não lhe faltava. Elegeu os comparsas que estariam nessa ousada empreitada. Sob o código islâmico (quem delatar, morrerá) deu início a obra. Nas visitas dos familiares, recebiam as encomendas, tais como ferramentas (de pequeno porte) pilhas para lanternas, ventiladores e outros apetrechos. 


6 de setembro de 2016

Teresa Fênix ( nona parte)

Na época era  presidente do Panamá, Manuel Noriega, (hoje se encontra preso na França), simpático, afrodescendente, de sorriso tímido, e rosto bichiquento. O  alter ego do presidente Manuel Noriega, atendia pelo nome de Lemgruber, cachoeirense, íntimo das magias, alquimias e se dizia  babalorixá, talvez nas horas de folga. Ulisses tomou conhecimento que o acima referido Presidente entregaria um prêmio extra ao mesmo. O Comitê da OEA, não se opôs e tal ocorreu num amplo espaço publico e  cultural na área central da capital panamenha.  Também o enxadrista foi convidado pelas autoridades oficiais para visitar as eclusas do Canal do Panamá (1914) onde se realiza a travessia dos navios do oceano Atlântico para o Pacífico. (O pintor impressionista Paul Gauguin (1848/1903) de avó materna peruana, curiosamente trabalhou na construção dessa monumental obra de engenharia). Ulisses ficou impressionado com o enchimento de água nas eclusas (pelo desnível dos oceanos), cuja extensão são  setenta e sete quilômetros. O que marcou  Ulisses foi a alegria contagiante do povo panamenho, e como eles sabiam sobre o Brasil, e ele  nada sabia sobre o país que lhe acolhia. Ele chegou a conclusão ser o panamenho,  admirador dos brasileiros. Aliás toda a América que fala espanhol, trata-nos como pueblo hermano.  No hotel, pela manhã o café da manhã, um verdadeiro almoço. Carne de porco, guloseimas de milho, cachorro quente, café, leite e variados acepipes. Esse costume alimentar, creio ser alguma influência norte-americana. As lojas eram imensas, com produtos diversificados e estrangeiros. Como se fosse  a cidade  um mega free shopping. Ulisses ligava para Teresa Fênix no Brasil, afim de  saber das novidades. E uma notícia o entristeceu-lhe bastante foi saber sobre a morte de Maisbela (cadela de estimação). Ulisses chorou baixinho no quarto do hotel. Maisbela fazia-lhe companhia quando insone, pensando na vida torta do pai dele. E na (im)possível oportunidade de revê-lo. Maisbela foi importante  na vida dele, que não mais necessitou de tomar ansiolíticos para dormir. Os animais tem uma linguagem própria, além do instinto. As pesquisas são incessantes na busca de desvendarem esse códices dos animais. Creio haver uma simbiose entre o homem e o animal.

5 de setembro de 2016

Teresa Fênix (oitava parte)

O estado de saúde do Chefe agravou sobremaneira. Os médicos intensivistas(se há alguém que realmente lutam para ressuscitarem,  os pacientes na curva da morte, são esses bravíssimos profissionais) conseguiram retirar o Chefe do estado crítico e gradualmente se recuperou. Ulisses no rápido percurso entre Caracas e o Panamá, desceu do avião, passou pela aduana incólume  e  estava no saguão do aeroporto internacional de Tocumen, à procura  de um táxi. Percebeu logo que o Panamá é um país colorido, verdadeiro e bonito caleidoscópio . Homens e mulheres com roupas estampadas, cores berrantes,  até nos ônibus pintados por fora e por dentro. Dos coletivos se ouviam o merengue, ritmo  de origem caribenho. Povo alegre e sorridente numa mistura de etnias, quase igual ao Brasil. Ulisses se encantou. Eis que de repente apareceram três homens vestidos de camisetas nas cores preto e vermelho. Pensou assim: deve haver um time panamenho com as mesmas cores do Clube de Regatas Flamengo.  Encorajou-se e perguntou aos jovens: essas cores são de um time do Rio de Janeiro. Em uníssono responderam: nosotros somos todos flamenguistas. Esse é o Brasil, exportador de cultura também  nos desportos.  


Teresa Fênix (oitava parte a)


 Maga Psicológica sensível ao estado do filho, agora também homicida,  em breve irá a julgamento. Ela contratou um advogado da região com larga experiência na criminal, como os causídicos do ramo dizem. Passaram-se alguns anos,  e o julgamento aconteceu. No  tribunal do júri o placar foi de sete a zero. Ele foi condenado a dezenove anos de reclusão. Retornou ao casulo penitenciário, sem a patente de chefe. Na condição de tísico em  recuperação, mantinha-se fora das manifestações no interior da prisão. Parecia estar em fim de carreira. Mas raciocinava diariamente como fugir daquele inferno em que se meteu. Sempre  se colocando como  um injustiçado pela sociedade. A evasão dessa vez, segundo ele, deveria alcançar o exterior.

4 de setembro de 2016

Teresa Fênix ( sétima parte)

Na nova penitência(arrependimento, remorso por pecado cometido) ou penitenciária (lugar para se arrepender) ao contrário é uma escola de perversidades com os requintes das maldades. É dessa forma que a sociedade se organizou. É assim mesmo, sem conformismo. O que fazer? A   Bastilha (1789) foi pior do que Carandiru (2002)? Ou são iguais, respeitando o tempo e espaço? O Chefe estava no seu sweet,sweet home, pois foi eleito verdadeiramente o chefe desse pequeno grande aglomerado. Nessa nova patente poderia gozar de alguns privilégios, tais como: roupa lavada, preferência no uso do sanitário, receber donativos(biscoitos, iogurtes e tolhas trazidos pelos familiares dos liderados  do Chefe)  até os privilégios na promiscuidade sexual, a mesma da qual foi vítima. Além de usar furar a fila do parlatório. A vida transcorria normalmente na instituição penal. Até que o Chefe, segundo alegou  em legítima defesa,  mata o desafeto dele, durante o banho de sol. Vai parar na solitária, a antecâmara do inferno. Durante vários dias permaneceu  num cubículo minúsculo, e contraiu uma pneumonia galopante. O bacilo de Koch se instalou nos pulmões do Chefe, que baixou hospital. Creio serem as prisões um modelito da geena terrestre. Há quem não acredite, no contexto místico, anulando a realidade. O Chefe entrou em estado pré-comatoso. E a vida começou a sorrir para o  Ulisses. Conquistou o prêmio de viajar para o|Panamá ( 30 dias, com direito a  aulas de xadrez ministradas por mestres internacionais)  com todas as despesas pagas)  por ter sido campeão numa disputa sulamericana no programa patrocinado pela OEA - Organização dos Estados Americanos -  "O xadrez e a  juventude". Devidamente  autorizado por Teresa Fênix , embarcou no Aeroporto Internacional Tom Jobim, no Rio de Janeiro no voo  noturno, com escala em Caracas. Ulisses arranhava grego, apreendido  na convivência com Pitacus Teodorakys. De espanhol nada entendia. Praticaria  pela primeira vez o "portunhol" mais o jogo de cintura brasileiro. No Aeroporto Simon Bolivar(1783/1830) em Caracas, para fazer a conexão para a cidade do Panamá, quase a perdeu. O locutor que anunciava as saídas e partidas das aeronaves, falava o espanhol muito rapidamente, e também parecia estar com um ovo cozido boca, como dizia o escritor  Artur da Távola(1936/2008) do espanhol verbalizado na América Latina. O escritor acrescentava que a única exceção é o espanhol boliviano,  de pronúncia mais compreensível.  E nos intervalos tocava os rock-boleros em castelhano de Roberto Carlos. Ulisses impaciente, foi ao balcão da empresa aérea e falou em grego. Foi um milagre, pois havia um helênico que residia vários anos na Venezuela, e trabalhava no aeroporto. Assunto resolvido, e Ulisses conseguiu embarcar, para a terra do Comandante Omar Torrijos(1929/1981).

Teresa Fênix (sexta parte)

Alguns anos se passaram,  cerca de seis ou sete anos, e durante esse intervalo, Tereza Fênix, reavaliou a opinião dela e passou a apreciar timidamente a leitura, talvez influenciada pelo namorado grego.  O filho, Ulisses enveredou-se pelos caminhos difíceis das ciências exatas, ao estudar as leis das probabilidades. Tornou-se um respeitado enxadrista, e aprendeu a cozinhar esporadicamente pratos da culinária mediterrânea. O Chefe foi encontrado e preso numa fazenda abandonada no interior das Minas Gerais, na região de Conceição do Mato Dentro Trocou tiros de revólver com os meganhas, mas foi dominado por João Máximo, baiano, umbandista e   capitão-do-mato. Curiosamente, pelo ineditismo e  honraria, era possuidor de ficha limpa na corporação. O Chefe abatido pela detenção, declarou que somente foi descoberto porque não cumpriu obrigação que lhe foi encomendada pelos orixás, na última "gira" acontecida no terreiro do Caboclo Boiadeiro, no  dia dezessete do mês de agosto. Dessa vez o Chefe foi para a Casa de Detenção próxima a BR 262, acusado de tráfico pesado de drogas, talvez um Pablo Escobar(1949/1993) do Cartel de Medelin? No contexto da narrativa, sempre se indaga porque os Estados Unidos é o maior consumidor de cocaína do mundo, junto com a velha Europa?  Como a droga penetra em territórios com  vigilantes insones: drones, satélites rastreadores, cães farejadores, e  lasers. Melhor ouvir Amy Winehouse(1983/2011) interpretando Garota de Ipanema dos  cariocas Tom Jobim(1927/1994) e Vinicius(1913/1980). Na nova cela prisional, ele chegou "cheio de moral", pois dessa vez,  não foi detido por ter desferido porradas numa  mulher. Na sua nova moradia, um catre,  um surrado colchonete, latrina e roupas estendidas. A realidade é mesma. Muitos internos num exíguo espaço físico. 

3 de setembro de 2016

Teresa Fênix (quinta parte)

Após sete meses o delegado intimou via oficial de justiça (sempre sisudos e nada gentis), Teresa Fênix recebeu a intimação para depor  no departamento da "puliça", como consequência do questionamento "moral" da Maga Psicológica. Diante do Chefe da  "Puliça", que após os cumprimentos de praxe, onde a autoridade somente murmura um bom dia emprenhado de má vontade. E deu início ao interrogatório: A senhora está sendo acusada de manter relacionamento, digo namoro, com o seu vizinho? Sim, respondeu Teresa Fênix. E continuou a autoridade: A senhora tem tido comportamento não recomendável,  quando está com o seu namorado diante do seu filho? A interrogada respondeu-lhe: não. Qual a profissão e nome do seu namorado? Retrucou-lhe dizendo ser o namorado um ex-capitão de longo curso da Marinha Mercante grega, e informou tratar-se do Comte. Pitacus Theodorakys, da Ilha de Delos (até hoje é proibido nascer ou ser enterrado na sagrada Delos, onde nasceram Apolo e Ártemis, ambos filhos de Zeus, segundo a mitologia grega) e naturalizado brasileiro. Adiantou que nas horas vagas ele ensina ao meu filho a jogar xadrez, o idioma helênico e traços da cultura da Grécia de Homero. A autoridade encerrou o depoimento com a seguinte narrativa: "Vou arquivar o processo, pois não há  como imputar-lhe culpabilidade face ao seu depoimento". A sogra ouviu todo o depoimento em silêncio. Entrou emudecida e saiu calada. Num outro momento, Teresa Fênix comentou para a professora particular de Ulisses, sobre a decisão do delegado. A mestra era tratada pelo carinhoso apelido de Professora Candinha, que  não acreditou de imediato nas informações da mãe de Ulisses, pela dificuldade do entendimento  dos agentes da lei, que por carência do conhecimento da  ontologia, antropologia e sociologia, não conseguem perceber os dramas do cotidiano da vida.  Maga Psicológica desapareceu do dia a dia na vida de Teresa Fênix e do neto. Até ouvir no noticiário que o Chefe estava na cúpula de uma imensa rebelião no Monte Líbano. Foram inevitáveis os  confrontos entre os militares e os rebelados.  O Chefe aproveitou a confusão e fugiu. Teresa Fênix enfrentou discussões intermináveis sobre religião, com o comandante Pitacus. Ele era agnóstico e dizia que o deus existia dentro de cada um ou não. Que no templo, os mercadores da fé, pregavam sem conhecerem teologia(pode ser possível). Teresa Fênix, não sustentava o diálogo, pela ausência de conhecimento. E perdia a compostura.

Teresa Fênix (quarta parte)

Maga Psicológica saiu encucada da última visita feita ao filho. E resolveu visitar um sobrinho dela, ex-agente dos cárceres mineiros, para saber a opinião dele a respeito das prisões. O sobrinho se chamava Ediel dos Anzóis, e relatou a tia serem as prisões barra pesada. Aconselhou-a  ter cuidados com as amizades que o Chefe poderia ter no Monte Líbano. O Chefe sempre está a mandar recado a mãe dele, pelos pombos-correio,  solicitando mais e mais dinheiro, para resgatar despesas assumidas. Ulisses visitou a avó paterna. Tal foi a surpresa, pois ela quer levar Ulisses para visitar o Chefe. Teresa Fênix argumentou não concordar em permitir o filho ir a uma penitenciária. E ponto final. O advogado do Chefe resolveu a pedido do cliente,  solicitar a justiça a autorização do menor visitar o pai. O juiz  em tempo hábil vetou a pretensão do Chefe. A sogra foi a casa da nora,  e verbalizou muitos impropérios impublicáveis. Tereza Fênix, não titubeou e registrou queixa na puliça. Depois retirou-a pedido do Ulisses. Mas a sogra, barraquera de plantão foi a chefatura de puliça e acusou a nora de não ter vida digna, pois está namorando o vizinho. Isso não é um bom paradigma familiar para o Ulisses, vaticinou a sogrinha. Esses expedientes usados para fazer valer essa ou aquela opinião, ou o direito de ser ou de ter, em todos habitam controvérsias. A prisão são espaços próprios reservados pelo Estado, para recolher  indivíduos  que esperam julgamento, condenados ou inocentes(a justiça é passiva de erros). O que ocorre nos seus interiores são um mistério ou não. O interno deveria trabalhar e descontar o tempo na penalização. 

Teresa Fênix (terceira parte)

Tereza Fênix recebeu inesperadamente a  visita de Maga Psicológica, na função de relatora do preocupante  estado do filho, inspirador de cuidado médico, pois estava na unidade de tratamento dito intensivo. A sogra começou a proferir insultos dirigidos a nora, a qual não aguentando pediu-lhe que se retirasse. Tereza Fênix chorou. Chorou copiosamente, lamentando ter escolhido o Chefe como marido. Mas nesse momento egípcio, era melhor, levantar sacudir a poeira,  e dar a volta por cima. A luta é contínua.  Buscou   uma explicadora para o pequeno Ulisses,  era  bom aluno em matemática, no entanto  em português, geografia, biologia  e história, grafava expontâneo, o Nilo nasce na Amazônia, pistilo era um pássaro, e os vikings descobriram o Brasil(pode ser, mas não é oficial). Teresa Fênix foi  na casa da  professora aposentada, que ouvia o Bolero de Ravel, e na  parte musical  mais agudizada, onde a orquestra tocava na plenitude todos os instrumentos, e   a professora não ouvia o chamamento. Tereza Fênix acostumada com o som  caipira, dito universitário, com pitadas do  rock and roll, se encantou com Maurice Ravel(1875-1937) e ouviu toda a obra desse francês, imortalizado pela arte da música erudita. Ao término,  foi recebida pela mestra e combinaram, preço, dia e hora para ministrar as  aulas particulares. Tereza Fênix acreditava na mística da fé, e por isso se entregou as mantras, com a esperança de maior conforto interior. O Chefe saiu do estaleiro, e costurado retornou ao Monte Líbano. Foi para uma cela, cujo os internos eram menos agressivos. Maga Psicológica foi visitar o filho num domingo. As filas eram imensas, e mãe do recalcitrante bebeu todas no dia anterior, de ressaca,   acordou fora do horário. Ela foi ao início da fila indiana, e tentou subornar uma mulher. A desconhecida denunciou em voz alta, a intenção da Maga Psicológica, que foi chamada atenção  pela agente carcerária. E a mãe do Chefe foi a última e entrar no Monte Líbano. A genitora encontrou o filho corado e bem humorado. Assim pensou a mãe: tão efusivo ele está, será que tem entorpecente na prisão?  O Chefe apresentou alguns companheiros, como se fossem velhos amigos. Dois deles eram estelionatários, gentis, como se fossem alunos do Instituto Rio Branco. Eram autodidatas na interpretação do cipoal das leis do Código Penal. Na ocasião, disse a  mãe dele que o causídico do Chefe deveria ajuizar recurso assim e/ou assado. A mãe deu-lhe um bom dinheiro, todavia o Chefe disse ser insuficiente para quitar compromissos assumidos, senão poderia ser  maltratado como da primeira vez, ou o pior poderia acontecer.

 

2 de setembro de 2016

Teresa Fênix (segunda parte)

O Chefe levou  catilipapos da puliça, que como agente da lei, aprecia fazer justiça com as próprias mãos, repetindo as agressividades do meliante. Com esse procedimento, relembra a barbárie da Idade Média, em moda em pleno século 21. Em seguida o Chefe foi algemado, jogado no camburão e conduzido ao Monte Líbano, que não é o aprazível clube muito bem localizado no Leblon, o mais caro bairro do Rio de Janeiro. Ou não é  gentil  Líbano, onde as parreiras libanesas se curvam diante dos visitantes. Esse Monte Líbano, é o presídio em Cachoeiro do outrora caudaloso rio Itapemirim (pedra pequena em tupi) onde abriga, hospeda ou deposita os culpados e inocentes, diante da cegueira conveniente  da justiça que serve e protege a classe dominante e seus subservientes, desde a existência da humanidade. Após as providências inócuas da burocracia, teve a cabeça raspada ( evita a proliferação dos pilhos),  uniformizado e numerado, fazendo lembrar do filme o "Homem de Alcatraz", protagonizado pelo ator Burt Lancaster(1913/1994). E foi para a cela superlotada e promíscua. Os internos já sabiam quem era o mais recente morador da Seção prisional 1313. Há uma "camaradagem" entre os agentes carcerários e os apenados. Por ter agredido uma mulher, o Chefe foi estuprado pelos companheiros da unidade carcerária. O Chefe  deu entrada no hospital com hemorragia anal.Tereza Fênix não foi informada pelo que aconteceu. Se tivesse sido, diria maternalmente(esquecendo dos hematomas e das dores do  ombro esquerdo retorcido pelo Chefe): coitadinho.  Maga Psicológica foi ao hospital visitar o filho único, como consequência de um affair ocorrido com um conhecido e rico cabouqueiro na região.