15 de julho de 2018

Teresa Fênix - 50a. Parte

Pressentir o encerramento de um ciclo de vida, é defrontar com  o popular   aforismo, ou seja: "se ficar bicho pega, se correr o bicho come".  Num paradigma mais ousado,   retornar ao torrão natal ou para Grécia de Diógenes,  é como    estivesse  repetindo a travessia comandando um navio, no  perigosíssimo   Estreito de Magalhães (ele havia experimentado a tensa e exitosa aventura marítima) tendo a probabilidade de um naufrágio. Raciocinava dentro e fora da filosofia dita clássica, se  lembrando  do arquiteto  Paulo Pena Firme, ao lhe dizer entre um trago e outro da uca(*) honesta, vinda de Salinas,  que o "homem volta às origens".  Não se dizia comungar dessa assertiva. Tocava em frente. A vida dele era mergulhar nas coisas prazerosas e conhecidas, como visitar a casa rural do amigo e pintor,  restaurateur de painéis, naves de igrejas e outros. Um artista de alta relevância. Seu nome  é Deuseli Utrecht, contudo nasceu por essas terras Puris. Depois de amargar a cadeia injustamente, pois foi vítima de um ardil  entre um graduado funcionário da justiça e a então ex-mulher. Por todas as razões, resolveu viver na clausura bucólica. Estava a esculpir há anos uma réplica em tamanho adulto,  de São Francisco de Assis. O Comandante via a belíssima  obra do amigo, contudo com um  olhar horizontal, parecia estar a ver  uma distante  paisagem.  Ir embora em definitivo, custava-lhe uma posição única(talvez irreversível) e cujo gradiente estava difícil de ser estabelecido. É provável que nas  andanças empreendidas  pelo Capitão,  ganhava (ou perdia) tempo, procrastinando (ou não)  o dia D.

(*) cachaça                                                             

3 de junho de 2018

Teresa Fênix - Parte 49a.


O que fazer, diante de tantas disjuntivas inesperadas? E reverberadas altissonantes sobre o afeto mais nobre? Jungir ou juntar,  é mais confortável,  como ouvir o solo de clarineta numa tarde,  quando o sol cheio de preguiça vai ao ocaso. Chega lembrança do poeta carioca Vinicius de Moraes, no Soneto da Fidelidade, livro de poesia quase esquecido - numa estante improvisada de tábuas de eucalipto - presente de um amigo da marinha mercante brasileira, para o auxiliar no aprendizado do idioma do Lácio, e  na penúltima estrofe assim versejou o vate: Quem sabe a solidão, fim de quem ama. Aparentemente um paradoxo. Pois quem ama deveria ter a compensação da companhia. É o pedágio emocional por ter amado? Ou nada amou? Conjecturas gregas, com vernizes dos trópicos. E os dias modorrentos iam se passando. No modesto inverno, se juntava a alguns poucos amigos a beberem vinho de uvas tintas oriundos possivelmente  do Chile ou Argentina. Comiam queijo banhado com azeite grego (ele tinha algumas garrafas  compradas pela internet) e apreciava quibe cru com pão árabe.  Tinha conflitos com a rotina. E para suavizar a atitude dele, gentilmente rejeitava convites para ingressar em sociedades secretas ou não. Além de todas as ilações, se preocupava com as parcas economias, segundo as contas dele,  poderiam sustentá-lo por mais  dois anos. Ele começou timidamente a desenhar a Carta Náutica para retornar para as ilhas gregas. Estava literalmente meditabundo.

31 de maio de 2018

Teresa Fênix 48a. Parte

Teresa Fênix engordou muito mais do que esperava, e dizia para algumas amizades, atribuindo a  ansiedade,  que lhe tomou conta. E se alimentava mais do que  necessário. Parecia   estar  grávida. E passou a caminhar, como parte  dos indivíduos ávidos a perderem peso, e melhorar  a condição física,  pelas ruas quase desertas da cidade. No inverno essa prática diminuía, principalmente quando a "chuva de horta" como falam os habitantes da região, molhava o uniforme, e o tênis encharcavam-se  nas pequenas poças d'água. Assim era parte da rotina de Teresa Fênix. Sem contudo esquecer o  seu comandante Nemo.Numa dessas caminhadas encontrou-se com Elza,  ex-auxiliar doméstica do marinheiro. E travou-se um diálogo assim: Olá Teresa ! Oi (um oi seco) respondendo-lhe  meio a contragosto, pois sempre desconfiou ser a Elza  uma fofoqueira contra ela. Mas enganou-se. Afirmou-lhe que o comandante gostava muito dela. E desistiu, pela inconstância  de Teresa de Fênix. O comandante dizia para Elza, que Teresa Fênix era apaixonada por um policial. Ela respondeu-lhe, que era verdade, todavia, há muito descurtiu  o gendarme. E convocou a Elza para colaborar no canjerê para retornar aos braços do comandante. Elza era uma veterana mãe-de-santo do candomblé. Aliás toda família da Elza  foi iniciada na religião de matriz africana, cuja a saudação é  saravá !

5 de maio de 2018

Teresa Fênix - Parte 47a.

Já se sabia na boca miúda que o comandante era ateu. Com certeza um curioso das atividades esotéricas, tal qual um amigo dele, cuja  origem  judaica, sendo  russo da vertente  esquenazi, que  após longos anos em  praticar a cabala( lado místico do judaísmo) resolveu frequentar os terreiros de religiões de matrizes africanas. O grego ficou intrigado, sobre o recado de Teresa Fênix, ao ameaçar em colocar o nome dele na boca do sapo, para fazer-lhe reatar com ela. Ele quis conhecer como se operava tal manobra para se produzir  mal a alguém. Pesquisou exaustivamente pelas redes sociais, e depois foi ao encontro das poucas pessoas conhecidas, e  ligadas a Umbanda ou ao Candomblé. Ouviu e anotou  a história e a  ritualística de ambas religiões. Todos àqueles  depoentes o convidaram para participar de uma gira da Umbanda, onde se prevalece os pretos velhos, Maria Padilha e outras entidades. O  experimentado marinheiro ouviu atentamente as orientações daqueles obás de plantão. Um deles afirmou ser ele médium de alta sensibilidade. Devendo desenvolver essa mediunidade, ou seja, lhe foi recomendado a frequentar terreiros. Ele nada dizia, era uma boa escuta, como devem ser os psicólogos mais eficazes. O comandante  agradeceu gentilmente, o aprendizado transmitido de gerações em gerações, pela oralidade por  homens que preservavam uma importante cultura  oriunda da África. Nos momentos de reflexão, o homem do mar,  preferia ouvir como sempre, a música  Zorba o grego, e dançava.

1 de maio de 2018

Dia do trabalhador


O Muro de Berlin construido em 1961,  dividia a Alemanha de Wolfgang Von Goethe, e foi derrubado em 1989, e trás o   estereótipo da vergonhosa  atitude dos principais vencedores da Segunda Guerra Mundial(1939/1945) a saber Estados Unidos, Rússia e Inglaterra, que “leiloaram” a Europa. A queda do Muro de Berlin se creditam   a Glasnost (transparência) e Perestroika(reestruturação) que são políticas públicas oficiais de Mikail Gorbachov(1985/1991) para a então União Soviética, e  acrescenta-se a globalização da economia, que enfraqueceram  sobremaneira o movimento sindical mundial que tinha  seus pés plantados no mundo dito  “socialista”, através da ex-União Soviética,  que se dissolveu num mar de corrupção e  denúncias confirmadas de assassinatos em massa. O dia do trabalhador há muito tem o seu brilho ofuscado, ou os sindicatos estão a perder a sua importância.  O sistema capitalista não é  nenhuma  oitava maravilha, pois pune severamente os mais despossuídos, ou àqueles sem eira e nem beira. As Universidades Federais são para os riquinhos, e o preconceito racial e econômico(esse é o mais perverso)  continuam. As prisões na sua maioria recebem os  pobres, negros e prostitutas. A justiça serve um bom cardápio a classe dominante.  Ao trabalhador é preciso dar-lhe a oportunidade de  escolas profissionalizantes para o Brasil enfrentar as constantes demandas do rotulado  primeiro mundo. Se assim procedermos, a organização da classe trabalhadora será uma consequência(desde que seja desatrelada do Estado),   e   possivelmente  tenhamos menos presídios. O Doutor Anísio Teixeira ícone nacional da educação, vaticinou: “Sem educação não há solução”.

29 de abril de 2018

O Futebol

O futebol como motivador de atitudes variadas no campo sócio/antropológico, na terra brasilis, é algo  muito instigante.Está a merecer pesquisa pura aplicada ao segmento que absorve esse esporte de forma quase mística.  George, líder dos  Vigneron de origem franco-huguenote, não titubeou e organizou-se para  esposa dele desse a luz ao filho caçula (Jorginho) no estado do Rio de Janeiro, em função do topônimo fluminense, àqueles nascidos nesse estado. Eles eram torcedores do Fluminense Football Club (grafia inglesa). Numa vitória do Vasco da Gama,  campeão de terra e mar(remo), poderia ter sido batizado de Ipojucan, tendo sido salvo pela minha mãe, que não aceitou a imposição paterna. Muitos se chamam de Pelé ou Pelezinho. Talvez de Edson Arantes, Arthur Antunes(Zico), o grande craque Mané Garrinha, Nilton Santos, Bebeto, Castilho, Píndaro e Pinheiro. Mesmo o futebol tendo sido inventado pelos ingleses, o swing desse esporte está aqui abaixo da Linha do Equador, com os brasileiros e otros hermanos latino-americanos, tenham essa certeza. A derrota do Brasil contra a Alemanha, ainda engasga feito a temida espinha de traíra. Nesse andamento allegro ma non troppo, a memória viaja até ao calçadão de  pedras portuguesas entre Copacabana e o Leme. Naquele momento mágico,  o  tricolor Artur da Távola(in memoriam) e amigos,   acompanhados por músicos de  uma animada bandinha, ou charanga, dentre tantas, era mais uma dessas campanhas políticas. Nesse simplório evento,  a música da charanga era o mote. Eis que o encontro surpreendente e agradável ao avistar   Paulo Roberto Ramos,  tricolor de carteirinha e amigo de infância, from Mimoso do Sul(ES).  Ele  estava acompanhado do amigo Pedro Carlos N. Carneiro. Diante do inesperado,   disse ao maestro: por favor o Hino do Fluminense! Os dois  Paulo se confraternizaram pelo mesmo time,   e em seguida  tocamos em frente a caminhada.

24 de abril de 2018

Numa quinta-feira outonal.

Manhã de outono, numa caminhada, vem o cheiro das flores silvestres,  se despertando, quase frio e quase memória a registrar a flora pujante. Eis o legado  dos mais importantes, repassado ao homem (que faz a guerra e suja a floresta). Mas elevo o pensamento ao deparar-me com a flor do sugestivo fruta/pão, a baleeira copada é indicativa de boa terra, oitis semeados pelos pássaros,  jaqueira-cravo, bambu gigante e chinês, hibisco, candiúva, jenipapo, mangueira, frondosa sibipiruna, jambo vermelho, ingá, paineira,imbaúba,angico vermelho, pitangueira,pau-pereira, mamoeiro,cambotá,  jabuticabeira, cedrinho, amoreira,banana d'água, ipê amarelo,fedegoso, graviola, guanandi,chibatão, pingo de ouro,  jamelão,sapucaia,figo,laranja Bahia,mixirica,pinha,pau-brasil, coqueiro,abacate, lírio, mogno africano, guaraná(morrendo, não sabemos a motivação), pau d'alho, cabiúna, goiabeiras, araças, castanheira, ficus,  eucalipto citriodora, laranja lima, limão galego e branco, palmito amargo e iri, pupunha, açaí,  carrapeta e  taboa. Vi a natureza nua, e a  selva de pedra não fez falta. Bioma invejável  e apreciado por um olhar atencioso, com poderosas e imagéticas fóveas, e a conclusão do  entendimento  o quanto se deve proteger e preservar o  terral. Incluindo as águas escassas e finitas, como fonte e aprendizado da vida.Os valores da convivência no campo, onde a florescência do bucólico, dá a sensação da alegria de viver, tão nítida como a claridade solar.

17 de abril de 2018

Dona Ivone Lara


Maria Callas está para ópera, assim como    Dona Ivone Lara está para o samba. Sem receio de errar, o samba é a arte musical de maior expressão da cultura brasileira. Dona significa no simbolismo cultural, como se fosse Dama ou Majestade, a sabedoria do sambista, não lhe permite ser narcisista, melhor dizendo “metido a besta”, em nominar Ivone Lara de majestade ou dama do samba, em vida. No Império Serrano, que é uma das   academias do Samba, onde Dona Ivone Lara é considerada uma  compositora de altíssimo prestígio, e um invejável acervo musical de sambas de raiz  que já está no inconsciente coletivo  do povo brasileiro. Gravou o primeiro disco em 1970, através de Sargenteli e Adelzon Alves. Dona Ivone Lara nasceu em Botafogo, no Rio de Janeiro há 97 anos. Teve aulas de canto com Lucília Villa-Lobos, esposa do compositor Heitor Villa-Lobos, que  elogiava a voz dessa sambista. Foi atriz no Sitio do Pica Pau Amarelo, no papel de Tia Anastácia. Freqüentou a  Serrinha em Madureira, berço do jongo, que é a semente do samba.  Naquela ocasião conheceu os compositores Mano Décio da Viola e Silas de Oliveira,  ambos ícones do samba. Dona Ivone Lara viajou ao espaço sideral para ser  a sexagésima estrela da Constelação de  Andrômeda,  a partir de  16 de abril de 2018, por decisão de todos os orixás.

15 de abril de 2018

Teresa Fênix 46a. parte ( Omi nibu,Omi jéjé)

"Promessa é dívida" assim reza a crendice  por essas terras dos irmãos tupis, tamoios, avá-canoeiros, crenaques, tuxás, tremembés  e tantos outros irmãos(negado pelas elites; onde são mais de 150 línguas faladas dos troncos das famílias tupi-guarani, macro-jê, caribe,aruaque e arauá, tucano, ianomâni, macu e outros *);   que Teresa Fênix numa certa  sexta-feira, lua cheia e 7 de agosto, se preparou para ir ao Terreiro do Caboclo Rompe Mato. Toda de branco,  exceção para a  calcinha vermelha em homenagem a Pomba Gira, onde guardou rente a perseguida o papel escrito com o nome completo do Comandante grego, longos brincos de cigana, cabelos presos, cordão de ouro com a efígie de São Jorge de Capadócia e  bebeu bons goles de uca curtida na carqueja. Na hora de sair, inesperadamente surgiu a vizinha e perguntou onde ela iria toda emperequetada. A vizinha perguntou de sacanagem, pois sabia ser o conjunto da  indumentária pertencer ao ritual das religiões de matrizes africanas, pois era calejada filha de santo, vinda dos terreiros onde ecoavam os sonoros atabaques da Bahia de Todos os Santos. Teresa Fênix pediu-lhe para adiantar o assunto, por estar atrasada para a gira do Candomblé. A visita inesperada falou ter consultado os Orixás, sobre o Grego, e  mais de uma entidade garantiu, ter ele a proteção pela frente de Ogum e na retaguarda Obaluaiê; ele tem o corpo fechado(no Benin, e confirmado na terra do Obá Jorge Amado) e qualquer despacho para atingí-lo  poderá retornar em dobro para o autor(a). Teresa Fênix ficou "bolada". Sentou-se  numa cadeira e desancou a chorar.  Choro alto e convulsivo, parecendo ter incorporado algum espírito.E depois entoou os Orin(cânticos em Yorubá, do candomblé), assim: Omi nibu, Omi jéjé ( mãe das águas profundas, mãe das águas calmas **). 

* Indios do Brasil/Julio Cezar Mellati (edusp) 
** Órun Àiyé/ José Beniste ( Ed.Bertrand Brasil)

23 de março de 2018

Teresa Fênix 45a. Parte

Teresa Fênix rides again, em direção ao filho de Zeus. Impassível passou ao largo das investidas para retornar o romance, onde o amor inexistia. O Comandante, teve um breve diálogo assim: Porque tem me evitado, o meu Comandante? Porque orgulho e preconceito? Ele então respondeu: " Vaidade e orgulho são coisas diferentes, embora as palavras sejam usadas como sinônimos. O orgulho tem mais a ver com nossa opinião a respeito de nós mesmos, a vaidade com que desejamos que os outros pensem de nós." Lembrou o marinheiro grego de um trecho do livro "Orgulho e Preconceito" da inglesa  Jane Austen. Teresa Fênix  ainda insistia sobre o preconceito, pois ela se sentia pobre materialmente, e o julgava ser rico. O grego nada respondeu. Uma outra tentativa, de  cunho mais sério ou não, pois se  tratava de  uma conhecida  de ambos, indo  a casa dele, na função de pombo-correio, e naquele momento  repassava o filme:("Minha amada imortal" uma película  biográfica de Beethoven, que faz (des)acreditar que o compositor  teve ou não teve um grande amor na vida dele),  e a mensageira foi logo dizendo: "olha Seu Grego, ela mandou dizer o seguinte: se você não voltar pra ela, o seu nome  vai parar na boca do sapo-boi". E foi-se embora com passos céleres.O interlocutor ficou atônito. Todavia não acreditava em cangerê ou congênere.

18 de março de 2018

Teresa Fênix - 44a. parte

Dez anos se passaram e o  filho de Tereza Fênix, residindo no Panamá  estava levando uma vida equilibrada e promissora. Trabalhava numa dessas empresas, tipo laboratório de pesquisa da ciência cibernética. E tinha conquistado respeito da diretoria por ter resolvido algumas equações difíceis nesse setor de altíssima complexidade. Visitava o Canal do Panamá algumas vezes, pois se interessava sobre o histórico da construção dessa obra magnífica  da engenharia, iniciada pelos franceses, que interromperam a obra pela alta taxa de mortalidade por doenças tropicais. O famoso pintor francês Paul Gauguin, por volta dos  32 anos prestou serviços nessa obra enquanto gerenciada pelos franceses em 1880. Um dos braços de Paul Gauguin da sua ascendência era peruano. O Canal do Panamá foi finalizado pelos americanos do norte em 1914. São setenta e um quilômetros de extensão, os bloqueios iniciais eram de  33,5 metros de largura, e liga o oceano Atlântico ao Pacífico pelo mar do Caribe, e se levanta a 26 metros acima do nível do mar. As viagens marítimas internacionais tiveram suas distâncias encurtadas com o advento do Canal do Panamá. Caso contrário os navios mercantes teriam que passar pela perigosa rota do Cabo Horn através do Drake ou do Estreito de Magalhães.  Ulisses apreciava o merengue ritmo e dança, cultivada  pelo povo panamenho. Ele achava o povo panamenho colorido como é a Bahia, e a  cromática mãe África. Ele se sentia acolhido, estava se considerando um  panamenho. Exposto  num canto visível da sala da casa dele, dois simbólicos  icônicos: a bandeira do Brasil e o escudo do Botafogo Futebol e Regatas. Na estante um livro chamava atenção: Ulisses de Homero, na versão do irlandês James Joyce.

12 de março de 2018

Teresa Fênix 43a.parte

Repetir  o filme -  Zorba o grego - no caquético projetor,  soava-lhe como uma ecclesia dos valores helenos, e se sentia  transportado  num processo esotérico, imagético até a terra de Zeus, das deusas Atenas e  Afrodite, a primeira da guerra, a outra do amor. O Capitão de longo curso, inúmeras vezes era convidado para frequentar cultos protestantes neo-petencostais, e  por último passou a receber convites para cultos de matrizes africanas. Se sentia inclinado a conhecer  a mística oriunda da África. Contudo, não se sentia atraído na busca de um deus para  se ligar. A curiosidade era o som denso da  percussão musical, produzida pelos atabaques, a coreografia das danças, cânticos e a ritualística, que somente conhecia de documentários e livros. O Comandante era possuidor de uma sólida convicção agnóstica. No pensamento dele, nenhuma doutrina, religião, sociedade secreta ou crença popular, carregada de misticismo ou não, o levaria a professar quaisquer uma delas. Era um livre pensador. E nada mais.

27 de fevereiro de 2018

Teresa Fênix 42a. parte

O hábil timoneiro foi desafiado por mares violentos,imensos vagalhões, avariações nos mastros, velas rasgadas, toneis de água quebrados, ele superou os contratempos com sensibilidade e têmpera. Nos infortúnios ou lições de vida, a   convivência entre crianças com necessidades especiais, era a mais doída compaixão. Resolvia equações da difícil ciência  náutica, e ensinava a língua de Platão alegremente. Sabia das aventuras reveladas por Homero no livro  Odisseia. Além dos 10 anos que lutou na guerra de Tróia, coabitou 1 ano com deusa Circe, e mais sete anos com Calipso e as ninfetas. Ulisses era a representação do homem grego: inteligente e   arrojado.  E se  embaralhava no cipoal de pensamentos, quando se tratava do enigma do amor e  mistérios inerentes. O que fazer? ou para onde não ir? Todos os marinheiros foram mortos pela maldição dos deuses adversos. Com tudo isso, se embaralhava no cipoal de pensamentos, quando se tratava do sentimento mais profundo. Não tem como cotejar. Disjuntivas  frequentes, não lhe ofereciam espaços para a reflexão mais serena. Se sentia como o comandante holandês, que segundo a lenda,  somente poderia ancorar de sete em sete anos, na busca de um amor, caso não o encontrasse  retornava a singrar oceanos.  O amor lhe parecia algo (in)tangível, mesmo atuando numa larga e sincera compreensão. Se mantinha nas atividades cotidianas e as vezes era assaltado por um desejo de retornar a Grécia. Mas entre uma atividade e outra assoviava trechos do quarto e último  movimento da nona sinfonia de Beethoven. E o tempo ia adormecendo os pensamentos dele. Mas ele sabia que a qualquer momento essas reflexões retornariam. Era preciso tomar duras decisões. Assim Beethoven escreveu e musicou a parte do canto, da derradeira  Sinfonia desse valoroso ícone da música erudita:

9ª Sinfonia (Opus 125)

Ó, amigos, não nesse tom!
Em vez disso, cantemos algo mais delicioso
Cantar e sons alegres
Alegre! Alegre!

Alegria, formosa centelha divina,
Filha do Elíseo,
Ébrios de fogo entramos
Em teu santuário celeste!
Tua magia volta a unir
O que o costume rigorosamente dividiu.
Todos os homens se irmanam
Ali onde teu doce voo se detém.

Quem já conseguiu o maior tesouro
De ser o amigo de um amigo;
Quem já conquistou uma mulher amável
Rejubile-se conosco!
Sim, mesmo que ele chama de uma alma
Sua própria alma em todo o mundo!
Mas aquele que falhou nisso
Que fique chorando sozinho!

Alegria bebem todos os seres
No seio da Natureza;
Todos os bons, todos os maus,
Seguem seu rastro de rosas.
Ela nos deu beijos e vinho e
Um amigo leal até a morte;
Deu força para a vida aos mais humildes
E ao querubim que se ergue diante de Deus!

Alegremente, como seus sóis voem
Através do esplêndido espaço celeste
Se expressem, irmãos, em seus caminhos,
Alegremente como o herói diante da vitória.

Abracem-se milhões!
Enviem este beijo para todo o mundo!
Irmãos, além do céu estrelado
Mora um Pai Amado.
Milhões, vocês estão ajoelhados diante Dele?
Mundo, você percebe seu Criador?
Procure-o mais acima do Céu estrelado!
Sobre as estrelas onde Ele mora!


25 de fevereiro de 2018

Teresa Fênix 41a.parte

O destino do  Chefe não estava escrito nas estrelas. Foi decretado pelo  Exu Caveira, entidade mais carregada de  maldade, no campo  primitivo, chamado de vingança, sob o manto da barbárie. As religiões  de matrizes africanas, são iguais a quaisquer outras místicas. Os cultos   de todos os continentes defendem que na existência  do bem, há a contrapartida do mal. Acrescento somente para ilustrar pois, na famosa ópera Il Trovatore de Giuseppe Verdi(1813/1901) no libreto eis o  Ato 1: " O irmão mais moço do Conde de Luna desapareceu há muitos  anos. Conta-se que uma feiticeira fez-lhe um feitiço antes de ser queimada, e que a filha dela raptou e matou a criança."     Há a possibilidade que a morte do Chefe tenha sido encomendada pelo antigo empregado - José do Egito -  que presenciou o assassinato  do patrão dele. Se tal ocorreu, as mães e filhas de santo, babalorixá, cambono e o orixá mais graduado,   e demais membros tenham acedido  a proposta de trabalharem a morte do Chefe. Os alquidares foram lavados em água corrente de cachoeira,  e preparados para receberem o  bode preto sacrificado, para se processar o despacho na lua cheia no dia 17 de  agosto, como recomenda a liturgia transmitida pelos sábios  Obás. O Chefe foi vítima de um forte quebranto. Negava a se alimentar, e foi tomado de um profundo  desânimo e dizia ouvir vozes do pai dele.  Diante do quadro agravando-se em progressão geométrica,  foi internado no hospital local e morreu em poucos dias, vítima da falência dos órgãos vitais. "Yo no creo en las brujas, pero que las hay, las hay ". (*)

(*) "Eu não creio nas bruxas, mas que elas existem, existem"

21 de fevereiro de 2018

Teresa Fênix 40a. Parte

O comandante estava animado com as aulas de grego que oferecia graciosamente a um pequeno grupo de alunos. Contudo continuava a frequentar com assiduidade o Núcleo de Crianças portadoras da Síndrome de Down.  O interesse pela mitologia grega era flagrante. A viagem marítima de Ulisses por cerca de dez  anos petrificava os olhares dos pré-adolescentes, quando narrada por aquele professor. A  Odisseia de Homero encantava os pequenos. Como um livro escrito há mais de quatro séculos a.C. poderia despertar tanto interesse  na petizada? O herói  Ulisses é o herói, é a própria Grécia, como Tchaicovsky foi para a Rússia, através da arte musical. Expressava originalmente a característica grega. Enfrenta ciclopes, motins, maremotos e todos os tipos  de perigos mortais e os supera quando chega a Ítaca, onde é esperado por Penélope, astutamente fiel, que resistiu à corte dos brutais  pretendentes, os quais foram todos mortos por Ulisses.  Interpretar Ulisses na sua condição de humanizado por Homero, abre um leque interpretativo cujo o leitmotiv  indica molduras diferenciadas, por Dante, Platão, Joyce, Pound, Kazantzakis e.g. Enfim Ulisses é um marinheiro que carrega simbolismos  subjetivos e outros  nítidos, feitos a claridade solar.Ulisses foi em busca do absoluto.Talvez tivesse o famoso compositor Wagner  se inspirado em Ulisses para compor  a ópera "O navio fantasma" onde o binômio  coragem/virilidade é o leitmotiv.

18 de fevereiro de 2018

Teresa Fênix 39a. parte

A protagonista principal desapareceu,  sem ao menos despedir dos  vizinhos. E  após um longo período de ausência, talvez mais de um ano, sendo que nesse lapso temporal, o grego em nenhum momento quis saber do destino  dela. Melhor dizendo, Teresa Fênix não lhe fez falta. Segundo lhe contou uma nova vizinha, recém chegada da Crimeia, pertencente ao  Condado de São Pedro do Itabapoana,  ela foi submetida a um  severo tratamento psiquiátrico, numa clínica no interior de São Paulo, que pertencia a Ordem dos Franciscanos. O comandante não desejava revê-la, mas isso era quase impossível, pois numa pequena cidade  certamente a  toparia inevitavelmente  num supermercado ou na praça central.  O Comandante continuou na rotina dele, sem apresentar nenhuma outra atividade, exceto em dar aula de grego para sete alunos, duas vezes por semana. E também se preparava para visitar as terras de  Homero, pois existia uma pequena herança que lhe cabia por lei e por direito. Nas idas e vindas  ao comércio local,  a viu de longe e acompanhada do filho. Pela distância,  notou-lhe que tinha ganho peso corporal. Esse olhar não caracterizava nenhum interesse. O fetiche derreteu-se. Foi um olhar pequeno, em todos os sentidos, (afinal de contas o Comandante era fruto do mimetismo cultural,ou era uma curiosidade tida como  universal?) Não nutria o mais remoto sentimento afetivo. Para o grego o amor, mesmo com o aprendizado da rica mitologia helênica, é um sentimento de altíssima complexidade com trânsfugas, disjuntivas e aceitação. E assim se faz a (des)construção do amor,  com suavidade, segundo o entendimento do experiente marinheiro dos sete mares.

20 de agosto de 2017

Teresa Fênix - 38a. Parte

A barra do Chefe começava a pesar por carregar a culpa de ter morto o pai, pelas mãos de um assassino frio e de aluguel, um ser desprezível que o Chefe contratou para a abjeta tarefa. As alucinações se intensificaram e os outros   hóspedes começam a se incomodar com os gritos dele durante a madrugada, os quais perturbavam o sono dos demais,  e as discussões desperadas se iniciaram. Os mais exigentes queriam que ele fosse para outra cela, e os mais serenos mitigavam o incômodo. O  núcleo duro da facção criminosa da prisão se reuniu e decidiu  transferir o Chefe para outro compartimento prisional. Foi lotado no gabinete dentário, um local para os peixes do Chefe dos carcereiros, pois o interno deveria manter o consultório limpo e na contrapartida,  poderia dormir no consultório. É possível que tal prerrogativa passava ao largo da diretoria do presídio.   Um oásis no deserto da criminalidade.Na época esse espaço era disputadíssimo e  custava um bom dinheiro. O Chefe se sentiu prestigiado, mas  os devaneios noturnos  não cessaram. Sem se alimentar, estava se  candidatando  a uma anorexia. Fumava diariamente três a quatro maços de cigarro e   estava  magérrimo. A limpeza do consultório estava sendo negligenciada. As reclamações eram frequentes por parte do dentista.

12 de maio de 2017

Teresa Fênix - 37a. parte

O filho da vítima, mais conhecido como Chefe, cumpria pena, e recebeu a notícia do encomendado assassinato  do pai dele, tal como arquitetou a morte do mesmo, ou seja com  frieza, como um monstro das águas abissais. Ele se filiou a uma dessas facções criminosas em funcionamento nos presídios desse Brasil continental. E na estratificação do conjunto da sociedade penitenciária, o Chefe depois da morte paterna,   passou a gozar de prestígio na hierarquia do crime, dito organizado. Há suspeita,  de que não é possível o funcionamento dessa máfia, sem a colaboração dos servidores públicos, cuja contrapartida deve ser  o vil metal. O Chefe ao cometer o parricídio, bem próximo a dramaticidade de  Édipo-rei de Sófocles (442 a.C),  passou a ter mais respeito entre a população carcerária, quer dos internos, quer dos funcionários. Algumas semanas se passaram, e  o Chefe começou a ter longos pesadelos. Acordava no meio na madrugada, aos gritos. Depois chorava convulsivamente.  Nos sonhos densos, o  protagonista principal era a imagem do pai sendo degolado,  e o sangue esvaindo pela varanda na casa da fazenda. Era nesse espaço onde o Chefe  brincava na infância,  chutando uma pequena bola, um dos raríssimos presentes recebidos pelo  pai. Em seguida entrou em deep depression(*), se negando a se alimentar. 

(*) profunda depressão

1 de maio de 2017

Teresa Fênix 36a.parte

O deadline para se esquecer  os conflitos do afeto,  pode ser zero. O comandante helênico recebeu uma (in)esperada  ligação telefônica de Teresa Fênix. E nesse justo instante ao ouví-la pelo celular, o aborrecimento com Teresa Fênix estava cessado. O comandante não era um tipo prosaico. Possuía severas dúvidas. Baseado nos rudimentares conhecimentos da física, comungava da máxima: o tempo é uma ilusão.  Nas digressões dele, o binômio decisão e tempo não se integravam nas equações existenciais que abraçava com imenso fervor. Por isso acolheria Teresa Fênix. Imaginava haver um  denso fetiche nessa relação. Nesse telefonema disse-lhe que estava se caminhando a passos largos(literalmente) para a casa dele.  O grego a  esperava na porta do pequeno apartamento. Ela abriu os braços, e ato contínuo  entrelaçou-a longamente. Em sussurros,  segredou-lhe coisas da paixão do amor. O Comandante ficou lívido. E se sentiu um Humphrey Bogart no clássico filme - Casablanca - diante da sua  Grace Kelly,(há quem afirme que se apaixonaram durante as filmagens, foram beijos de um casal verdadeiramente enamorados). Teresa  Fênix e seu partner,  jantaram  durante duas noites seguidas. Com lampejos de dois pombinhos em lua de mel. Elaboraram projetos, e sonharam até uma viagem a Atenas e depois a ilha de Delos. O clima era de plena harmonia, até que Teresa Fênix foi a casa do pai, Zeca. Retornou depois de três dias. E voltou macambúzia. Não o chamou pelo celular,  conforme havia lhe prometido. O grego ficou bolado com o silêncio dela. Imaginou o pior. E resolveu chamá-la pelo telefone. E o prenúncio  dele se confirmou.

23 de abril de 2017

Teresa Fênix 35a. Parte

José do Egito, o antigo empregado do audacioso cabouqueiro, resolveu ministrar o funeral do patrão, seguindo a liturgia do candomblé(*). José do Egito mesmo tendo se afastado dos terreiros dos orixás, raciocinava que por ter sido mensageiro  da fatal premonição, estava a prestar homenagem as entidades da mística afrodescendente, pela confiança esotérica nele depositada. Entre os yorubá, quando morre uma pessoa, o corpo é banhado, igual na tradição judaica.  Se for mulher, o cabelo é devidamente penteado, e se for homem, o cabelo é inteiramente  raspado. A condição de estar devidamente higienizado, é para ser bem recebido na morada dos ancestrais. Em algumas regiões da África, chumaços dos cabelos e pedaços das unhas dos pés do morto, são cortados e guardados para o 2° enterro, em sete  ou mais dias. Em  seguida o defunto é   envolvido imediatamente numa mortalha branca. Acrescenta-se que  ritual fúnebre do candomblé detém o conhecimento da conservação do corpo. Os alimentos e oferendas são depositadas numa cabaça aos pés do morto, como forma  dele não sentir fome,  durante a permanência entre os antepassados.  Os ataques rufam,  e os amigos e parentes dançam  e também se alimentam, todavia até a barra da madrugada. A dança se encerra e o corpo é vestido em roupas pesadas e coloridas, e em  procissão solene se dirigiram  até a sepultura. Há o hábito de mandar recados para àqueles que partiram, que é a prova da crença no além, e no poder inconteste dos ancestrais. Vários dias decorridos após o  funeral, se pratica outro rito conhecido como Fífa éégún Òkùú wo lé - Trazer de volta o espírito para casa. Um santuário é construído  num canto residência, onde se realizam pedidos e oferendas, num diálogo da intimidade familiar. José do Egito cumpriu a obrigação que julgava correta dentro dos cânones orais repassados por várias gerações.     

*) O Negro no museu brasileiro - autor: Raul Lody - Ed.Bertrand Brasil;
 *) Òrun Àiyé - autor: José Beniste - Ed. Bertrand Brasil.                 

10 de abril de 2017

Teresa Fênix - 34a. Parte

A futura mãe estava  a sorrir,  principalmente quando ouvia alguma referência sobre  a  gravidez.  A avó incumbiu-se de costurar à mão uma peça de recém nascido. A mãe dentro da cultura  sul-americana,  mergulhou nas águas abissais do desejo da filha única. E iniciou-se a aquisição  do enxoval, com o  mais apurado gosto. Na casa de Maria Guadalupe o tempo girava em torno do nascimento do neném. O futuro avô materno vaticinava dissimuladamente, se fosse homem, sugeria o nome dele. A mãe e a filha,  desconversavam sobre essa possibilidade. A compra do berço, pintura do quarto, viagem ao México, enfim agenda assoberbada. Ulisses ficou marginalizado diante do importante evento. Mesmo tendo sido coadjuvante,  o prestígio caiu. O foco das atenções foi alterado. Lembrou-se da crônica do Artur da Távola( 1936/2008), cujo texto, em alguns casos, o homem  é simplesmente o colocador de  semente, e só.  Ulisses assim se sentia. Todavia,  bem cedo aprendeu com o preceptor dele, o grego,  que o silêncio é sábio. Ulisses mudou-se para a casa da namorada. E sentia feliz pelo neném. Não era expectativa dele, ser pai tão rapidamente. Outro remetente num contexto próximo,   também no  espaço  e no  tempo, e personagens díspares, eis o curto diálogo: Como isso aconteceu? Você uma mulher experiente,  se deixou engravidar? Vc sempre afirmou,  não queria mais filhos. Pois é mãe de três adolescentes. Pensou por alguns segundos,  e sorridente  retrucou: ele é que  não soube brincar. Um aforismo popular,  à propósito.

26 de março de 2017

Teresa Fênix (33a. parte)

O marinheiro helênico  deu de ombros, diante da proposta estapafúrdia de Teresa Fênix. E seguiu em frente, dessa vez visitando uma instituição,  cuidadora de crianças e jovens  portadoras de necessidades especiais. Dentro do espaço da meninada,  ele se detinha mais no diálogo com aqueles acometidos pela Síndrome de Down(distúrbio genético causado pelo cromossomo 21 extra, conhecido como cromossomo do  amor. O resultado da pesquisa se deu em 1862, pelo cientista inglês John Langdon Down), era uma atitude isolada, era  da sua própria  lavra.  O comandante depois de algumas visitas se transformou em voluntário, prestando serviços de todos matizes. Conquistou a amizade dos  internos. Ensinava o que se supunha saber, ou seja, contando histórias  da navegação marítima. Trouxe de casa as fotografias das viagens transoceânicas, réplicas de diversas embarcações do passado e da atualidade, e inclusive do navio com o qual atravessou o acidentado e perigoso estreito de Magalhães. Eram tantos os questionamentos da petizada, alguns repetitivos. Mas ele não se importava com as perguntas reeditadas. E não percebia que  tempo passava celeremente. Intuiu que a solidariedade era um vetor importante de realização pessoal.  A memória do comandante viajava pelos mares navegados e a navegar. Os   flashes mentais iluminavam-lhes as recordações.  A propósito sobre lembranças e memórias, eis a narrativa:    Os vinhos generosos melhoram muito ao passarem pela linha, pela evaporação das partículas aquosas, assim também a recordação se purifica ao perder as partículas da memória, sem que por isso se desvaneça em fumo, como também não acontece aos vinhos generosos. Tal assertiva filosófica é do dinamarques   Soren  Kierkegaard (1813/1855) n'O banquete. 

12 de março de 2017

Teresa Fênix (32a. parte)

O  marinheiro grego vivia o teatro shakespiriano, onde a (in)certeza dominava o pensamento, quanto a resolver ou não uma dependência de Teresa Fênix, fruto inexorável de uma monumental carência. Quem diria esse grego-filósofo se render aos encantos de uma nativa dos trópicos? A distância das afinidades aumentava a cada encontro furtivo. Mas a atração física preponderava ( ou outro sentimento, compensação ou comiseração). Era do conhecimento dele, esse comportamento,  são  complexidades do enigma amoroso, autênticas  dúvidas traidoras,  aliadas metálicas do medo de se  arriscar. E para agravar o momento, Teresa Fênix estava tendo  suporte financeiro  do  ex-namorado. O grego mediterrâneo não se sentiu confortável ao tomar conhecimento dessa novidade. Entrou em alfa. Meditou durante sete dias e sete noites. E não vislumbrou no imaginário, um porto seguro para ancorar o navio cheio de sofrimento, a lhe aturdir. Teresa Fênix numa manhã nublada, lhe procurou e após os cumprimentos de praxe,  convidou o Capitán dos sete mares,  a viajarem a uma praia deserta próximo a Marroquin (perto da histórica igreja N.S. das Neves, no município de Presidente Kennedy/ES,  construída em 1581 pelo puris, botocudos e escravos africanos, sob o chicote do jesuíta espanhol Padre Almada).   Nos primeiros instantes o  grego entrou em parafuso, e ficou furioso. 

3 de março de 2017

Teresa Fênix (31a. parte)

Na ausência de uma pousada na região, Maga Psicológica  pernoitou por favor,  na venda de Secos e Molhados, dormindo sobre sacos vazios de cereais. E pela manhã tomou o ônibus de volta. Cabisbaixa e meditabunda,  após  a total negativa do pai do Chefe  em recebê-la,  se sentiu arrependida e  também impotente. O arrependimento foi não ter dito a ele, que seria morto se não atendesse a reivindicação dos criminosos. E a impotência por não tê-lo peitado. Ela ainda mantinha no recôndito da alma, uma anêmica  esperança em reconquistar  aquele que foi um grande amor na vida dela. Enfim chegou ao destino final, cansada e tensa. Tocou as tarefas diárias de acordo com a rotina que a vida  lhe impunha. Após três semanas, Maga Psicológica recebeu uma ligação, na qual o interlocutor não se identificou, informando que o rico cabouqueiro tinha sido morto.  Maga se descompensou e desmaiou. A vizinha   socorreu levando-a ao hospital local. Em pouco tempo a notícia se alastrou e na boca da noite, o noticiário midiático comentou o homicídio. O crime foi bárbaro, pois a vítima bravamente com o agressor.   A arma branca do crime foi uma  peixeira. Esfaqueado várias vezes, ele  sangrou  aos borbotões. Num ato terrorista o  homicida cortou-lhe a cabeça, à moda islâmica jihadista. Deixando no chão um pequeno amuleto de cor vermelha, podendo conter no interior do patuá uma oração, ou uma prática mística. Quando da ocorrência do assassinato,   José do Egito não estava ausente da propriedade. Um curioso fato ocorreu, semanas antes do crime:  convidado a participar de uma gira do Candomblé Kêtu(*), da tradição Iorubá -  José do Egito,  foi batizado como Sebastião Querino no Terreiro Ilê Axé Opô Afonja -  localizado na periferia soteropolitana. Para tomar novo rumo na vida e esquecer o passado, trocou  de nome quando se converteu a doutrina  kardecista. Nos grotões dos brasis, o expediente dos pseudônimos  é quase corriqueiro.     Contra a vontade, aceitou o convite. Durante a  sessão aconteceu a incorporação do Exú caveira,  entidade de má reputação entre os orixás. O espírito materializado avisou-lhe que o patrão dele iria morrer. Adiantou que foi um pedido forte  num terreiro baiano. José do Egito contou tudo  a  ele, contudo  em nada acreditou. 

(*) Pesquisa, O Negro no museu brasileiro - Ed. Bertrand Brasil, 2005 - Autor: Raul Lody