4 de novembro de 2016

O passageiro que não bateu palmas.

Na estação do metrô no Largo da Carioca, conhecido como Tabuleiro da Baiana há várias décadas,  no confortável vagão desse trem subterrâneo, ar condicionado em pleno funcionamento, eis que surge um clarinetista e um  guitarrista, carregando um amplificador portátil, para dar suporte sonoro a suave guitarra de base. Um breve anúncio com sotaque hispânico, indicava que  tocariam. E quase todos os passageiros atentos, aguardando a apresentação dos artistas mambembes.   Logo o instrumento de sopro deu início ao mavioso solo, me fazendo lembrar do livro "Solo de clarineta" de Érico Veríssimo(1905/1975). Próximo de mim, um sério  passageiro não se movia. Não acompanhava o ritmo, quer com pé, quer com a mão desocupada. Sério permaneceu, e assim continuou.  Durante a execução do Take five - um jazz melífluo:o sax alto é do autor, piano com o maestro Brubeck, J.Morelo na bateria e Eugene Wright no contra-baixo, tal gravação é encontrada no  you tube,  com mais de vinte milhões de acessos.  O desconhecido não mexeu sequer nenhum músculo da face. E no final  não bateu palmas. Essa obra musical jazzística, foi gravada em 1959, é de autoria Paul Desmond, doador dos direitos autorais de todas as composições dele para a Cruz Vermelha. No término da apresentação, os simpáticos  músicos passaram o chapéu. E a grande maioria colaborou. O passageiro sisudo, deu-lhes a maior contribuição aos artistas itinerantes(o mecenas de plantão contribuiu com  cem reais). Há pessoas surpreendentes. A recomendação é não (pré e nem pós) julgá-las. Desci do metrô na Estação Botafogo, e no Bar do Hotel Argentina (sem o Nonato, garçom que servia ao Olimpio José de Abreu e outros amigos) depois de muitos anos abstêmio, pedi ao barman um cowboy do J.W. Black. O pensamento viajou pelos sete mares. De todos esses  mares, um deles foi o bar onde me encontrava. E cantarolei baixinho Take five,  lembrando-me do passageiro que não bateu palmas.