30 de novembro de 2016

Teresa Fênix (22a.parte)

Ulisses usinava pensamentos em progressões geométricas, até que viu uma revista na banca de jornal, cuja página aberta e no canto direito abaixo, o pequeno  anúncio:  teste vocacional gratuitamente. Falou consigo mesmo: vou me submeter. As mensagens do grego vieram na memória dele,  que sempre lhe dizia, ser importante ter  conhecimento da filosofia, para melhor indicar conceitos sobre a vida, e do mundo, que parece estar atravessando o Rubicão. Mesmo seguindo carreira profissional no campo das ciências exatas, reconhecer as crenças, lendas e os códices ontológicos que norteiam a humanidade. Absorver práticas holísticas, na interação  com as  diversas fases da estratificação social. Foi ao local indicado pelo anúncio e se inscreveu para se submeter  ao teste. Permaneceu durante um bom tempo, respondendo as perguntas. Após uma semana, foi lhe informado o resultado. Ele recebeu por escrito, e com ajuda de Maria Guadalupe, na leitura interpretativa na linguagem hispânica, indicou-lhe a   vocação recaindo para física, química e engenharia em geral. Ficou decepcionado, pois Ulisses torcia que o exame inclinasse parcialmente para o viés da área humana, pois estava gostando de ler "A República" de Platão, e planejava conhecer outros ícones da filosofia, estava embutida uma simplória   homenagem ao Comandante Pitacus Theodorakys.

22 de novembro de 2016

Teresa Fênix ( 21a.parte)

Ulisses a cada dia vivido no Panamá, aumentava o afeto por Maria Gualupe em proporções geométricas. E de quebra passou a se interessar bastante pela cultura panamenha. Adotou o traje  das elegantes e confortáveis guayaberas. Às vezes ficava em  alfa para refletir o futuro. A mãe instável, pela convivência com Chefe, que sob  efeito da droga a espancava e privava-lhe a liberdade. Ainda menor, muitas dessas cenas foram presenciadas por Ulisses. O grego por quem nutria carinho paterno, não avançou no relacionamento com  Teresa Fênix. Mesmo abstraindo a gama de informações e conceitos consolidados, a egolatria dela não permitia que os corações se encontrassem. Ulisses se sentia fragilizado. Buscava uma vida alternativa, com traços qualitativos. Intuía na possibilidade de modificar o seu modus vivendi. Não imaginava as barreiras a serem enfrentadas num país estrangeiros. Uma delas é a pronúncia da  língua hispânica  na América Latina, por ser  falada muito rapidamente parece terem um ovo na boca, atrapalhando a inflexão dos fonemas(como comentou certa vez o escritor Artur da Távola, todavia reconheceu ser na Bolívia, o castelhano mejor hablado). Com tempo dominaria a linguagem do poeta chileno Pablo Neruda(1904/1973). A saída de se casar, talvez fosse a mais factível forma de permanecer naquele país, legalmente. Ulisses de então, era muito jovem. E sua mãe ao saber, talvez  viajasse até Ulisses para impedir a possível união.   Como bom enxadrista, se pôs a pensar.

21 de novembro de 2016

Teresa Fênix 20a.parte)

O Comandante Pitacus Theodorakys, tomou conhecimento que ela passava por necessidade famélica,  pois foi apresentado ao cunhado, apelidado de Carlinhos da Nicinha que contou-lhe das dificuldades dela, e   timidamente disse  saber, do affair havido com a Teresa Fênix. No diálogo, lamentou que o namoro do Comandante não foi à frente, pois de longe o admirava, por possuir amigos em comum, que o avaliam ter o Comandante, um conceito razoável  da vida e do mundo. O cunhado falou ao grego, que Teresa Fênix tinha retornado ao antigo namorado. Carlinhos da Nicinha, adiantou que ela está a precisar do apoio familiar, e talvez de terapia psicanalítica(rejeitava médicos psiquiatras, segundo Teresa Fênix, eles a entupiam de remédios, causando-lhe sonolência  e raciocínio lento).  O grego era sabedor que em outras circunstâncias, o pai dela, foi inteiramente  relapso, deixava-lhe faltar alimentação. Existiu uma sinergia na  conversa com Carlinhos da Nicinha. O  cidadão de origem helênica sempre solidário,  a chamou pelo celular. E num breve diálogo, prometeu-lhe mandar uma cesta básica alimentar.  Ela o agradeceu. Não se importou quando ela disse ter passado uma noite, com o ex-namorado numa pousada na aprazível Iriri (balneário preferido do Comandante). Assim inquiriu o grego no silêncio da memória:  "a intenção dela foi provocar ciúme, ou a sensação de me sentir cornuto? Teria sido uma retaliação, pelo fato  não ter  pago o frete da mudança? E complementou: o  intento caiu na escuridão do espaço sideral. Nesse caso, me sinto Zorba, O grego"

20 de novembro de 2016

Teresa Fênix ( 19a.parte)

Por ser essa nação continental,  indígena e   afrodescendente, com hemácias lusitanas, e abaixo da linha equatorial, poder-se-á remeter a frase atribuída ao Maestro  Tom Jobim( 1927/1994): "O Brasil não é para principiantes". A burocracia existe pelos portugueses(que se sentem os melhores clones dos ingleses) quer para dar estabilidade ao manganos do serviço público, quer para evitarem o peculato. Quo simplicitor ordo, eo melior( quanto mais simples a ordem, tanto melhor). E praticando essas babaquices, surgem os despachantes, estelionatários et caterva. Nos presídios, os estelionatários, comumente de unhas feitas, cabelos bem cortados e trajados à moda esporte fino, são os mais simpáticos de todos os internos. Enquanto apenados, conseguem quase de imediato audiência com o diretor do presídio. Solícitos verbalizam os curricula vitae, e se disponibilizam para trabalharem nas instâncias, como a  biblioteca, escritório,gabinete dentário e outras  atividades laborais leves. Serviço braçal: neca de pitibiriba. Gentis, prestativos e falam suavemente. Professores que desenvolveram  didáticas para a freguesia da penitenciária. O Chefe localizou o mais sábio de todos os malandros. Foi ao Oráculo de Delfos da prisão. Era conhecido como Dotô Denis. Recebeu o Chefe no gabinete do dentista, onde era auxiliar, no dia da limpeza do consultório. Usou a cadeira e mesa  e despachou como profissional do crime como assim o era.  Acertaram que falsificaria o alvará de soltura, com papel timbrado e assinatura falseada do servidor maior do judiciário. Deveria entregar o documento durante as férias do  diretor. O preço do serviço foi caríssimo. Mas o Chefe pressionaria a mãe e o  pai (sempre) ausente.

6 de novembro de 2016

Teresa Fenix (18a.parte)

Naquele verão, os rios voadores (cursos de ares atmosféricos) vieram em grandes proporções, trazendo nuvens pesadas (cumulus nimbus) da região amazônica. Na época foram muitas centenas de  milímetros de chuva. A região onde se encontrava o Chefe, respingou muita água. As enchentes tornaram uma constante, e invadiram as galerias das águas pluviais e dos esgotamentos sanitários. Ambos subterrâneos. Todo o trabalho foi jogado por terra. A lama invadiu o túnel cavado pelos homens do Chefe. A depressão foi geral. O Chefe afirmou para os companheiros de cela,  que precisava de paz interior para maquinar nova estratégia de fuga. A prisão por si só, é uma antecâmara do inferno. Nada de  ressocializão. Há uma ausência de tudo. É a resposta que a sociedade encontrou para os criminosos.  Os dias são  lentos e entediados. Habitam-na mãos leves, e outras mãos manchadas de sangue. Nas prisões, a lei considera a fuga um direito do presidiário. Ou seja, a tentativa de fuga (não havendo intercorrência delituosa) no geral  não altera o tempo da reclusão. As motivações condenatórias são diversificadas. O estelionatário pode  ser possuidor(sem saber) da praxis metacognitiva, como método de pensar. Quase sempre é metido a ser autodidata e sedutor nas abordagens que se fizerem necessárias. Enfim, muitas das vezes os estelionatários  são por demais sagazes e velhacos. Sabedor das traquinagens desses embusteiros, o Chefe por ter uma cabeça multitarefa, vislumbrou mentalmente caminhos escusos para tentar evadir-se novamente do presídio. A cadeia não tem como não ser  um variado
 valhacouto.

4 de novembro de 2016

O passageiro que não bateu palmas.

Na estação do metrô no Largo da Carioca, conhecido como Tabuleiro da Baiana há várias décadas,  no confortável vagão desse trem subterrâneo, ar condicionado em pleno funcionamento, eis que surge um clarinetista e um  guitarrista, carregando um amplificador portátil, para dar suporte sonoro a suave guitarra de base. Um breve anúncio com sotaque hispânico, indicava que  tocariam. E quase todos os passageiros atentos, aguardando a apresentação dos artistas mambembes.   Logo o instrumento de sopro deu início ao mavioso solo, me fazendo lembrar do livro "Solo de clarineta" de Érico Veríssimo(1905/1975). Próximo de mim, um sério  passageiro não se movia. Não acompanhava o ritmo, quer com pé, quer com a mão desocupada. Sério permaneceu, e assim continuou.  Durante a execução do Take five - um jazz melífluo:o sax alto é do autor, piano com o maestro Brubeck, J.Morelo na bateria e Eugene Wright no contra-baixo, tal gravação é encontrada no  you tube,  com mais de vinte milhões de acessos.  O desconhecido não mexeu sequer nenhum músculo da face. E no final  não bateu palmas. Essa obra musical jazzística, foi gravada em 1959, é de autoria Paul Desmond, doador dos direitos autorais de todas as composições dele para a Cruz Vermelha. No término da apresentação, os simpáticos  músicos passaram o chapéu. E a grande maioria colaborou. O passageiro sisudo, deu-lhes a maior contribuição aos artistas itinerantes(o mecenas de plantão contribuiu com  cem reais). Há pessoas surpreendentes. A recomendação é não (pré e nem pós) julgá-las. Desci do metrô na Estação Botafogo, e no Bar do Hotel Argentina (sem o Nonato, garçom que servia ao Olimpio José de Abreu e outros amigos) depois de muitos anos abstêmio, pedi ao barman um cowboy do J.W. Black. O pensamento viajou pelos sete mares. De todos esses  mares, um deles foi o bar onde me encontrava. E cantarolei baixinho Take five,  lembrando-me do passageiro que não bateu palmas. 

3 de novembro de 2016

Teresa Fênix ( 17a.parte)

Ulisses refletiu durante um bom tempo, se deveria pedir  socorro financeiro  ao Comandante grego. E decidiu arriscar a receber um não. Enviou pela mãe  o pedido. Ela lhe respondeu que não pediria  ao ex-namorado. Teresa Fênix demonstrou uma nítida má vontade, feito a claridade solar. Ulisses tomou coragem,  reuniu  parcas economias e ligou para o Comandante grego. Ao receber o pedido, adiantou a Ulisses, não ter no momento a verba  pedida. Mas correria  atrás para socorrer o jovem, estando ele num país amigo, mas distante do lar doce lar. Ulisses relatou a namorada dele, as dificuldades em conseguir permanecer no Panamá. Resolveu se divertir, visitando lugares turísticos, degustando comidinhas panamenhas (o que lhe fez ganhar alguns quilos) ouvindo e dançando merengue(ritmo animado- primo do mambo - tocado no Caribe). Se surpreendeu ao ouvir Roberto Carlos cantando em castelhano ( há quem afirme que  o rei do cancioneiro do ritmo rock/bolero, tenha nascido em Santo Antonio do Muqui, extremo sul do espiritossantense, a conferir - é o bordão usado pelo jornalista sergipano - Ancelmo Gois). Isso mitigava a saudade de casa.O calor panamenho é respeitável. E o relevo  geográfico  da capital, é plano, facilitando a mobilidade. Depois de dois longos dias, foi agraciado com a notícia positiva do Comandante. Exultante resolveu comemorar levando-a para um lanche noturno num local da moda.O professor de Ulisses o admirava sobremaneira. Ulisses matutava projetos arrojados, ao ponto de não mais voltar ao Brasil.