O que fazer, diante de tantas disjuntivas inesperadas? E reverberadas altissonantes sobre o afeto mais nobre? Jungir é mais confortável, como ouvir o solo de clarineta numa tarde, quando o sol cheio de cansaço se dirige lentamente ao ocaso. Chega
lembrança do poeta carioca Vinicius de Moraes, no Soneto da Fidelidade, livro
de poesia quase esquecido - numa estante improvisada de tábuas de eucalipto - presente
de um amigo da marinha mercante brasileira, para o auxiliar no aprendizado do
idioma do Lácio, e na penúltima estrofe
assim versejou o vate: Quem sabe a
solidão, fim de quem ama. Aparentemente um paradoxo. Pois quem ama deveria
ter a compensação da companhia. É o pedágio
emocional por ter amado? Ou nada
amou? Conjecturas gregas, com vernizes dos trópicos. E os dias modorrentos iam
se passando. No modesto inverno, se juntava a alguns poucos amigos a beberem
vinho de uvas tintas oriundos possivelmente do Chile ou Argentina. Comiam queijo banhado
com azeite grego (ele tinha algumas garrafas compradas pela internet) e apreciava quibe cru
com pão árabe. Tinha conflitos com a
rotina. E para suavizar a atitude dele, gentilmente rejeitava convites para
ingressar em sociedades secretas ou não. Além de todas as ilações, se
preocupava com as parcas economias, segundo as contas dele, poderiam sustentá-lo por mais dois anos. Ele começou timidamente a desenhar
a Carta Náutica para retornar para as ilhas gregas. Estava literalmente meditabundo.
3 de junho de 2018
31 de maio de 2018
Teresa Fênix 48a. Parte
Teresa Fênix engordou muito, mais do que esperava, e dizia para algumas amizades, atribuindo a ansiedade, que havia tomado-lhe conta. E se alimentava mais do que necessário. Parecia estar grávida. E passou a caminhar, como parte dos indivíduos ávidos a perderem peso, e melhorar a condição física, pelas ruas quase desertas da cidade. No inverno essa prática diminuía, principalmente quando a "chuva de horta" como falam os habitantes da região, molhava o uniforme, e o tênis encharcavam-se nas pequenas poças d'água. Assim era parte da rotina de Teresa Fênix. Sem contudo esquecer o seu comandante Nemo.Numa dessas caminhadas encontrou-se com Elza, ex-auxiliar doméstica do marinheiro. E travou-se um diálogo assim: Olá Teresa ! Oi (um oi seco) respondendo-lhe meio a contragosto, pois sempre desconfiou ser a Elza uma fofoqueira contra ela. Mas enganou-se. Afirmou-lhe que o comandante gostava muito dela. E desistiu, pela inconstância de Teresa de Fênix. O comandante dizia para Elza, que Teresa Fênix era apaixonada por um policial. Ela respondeu-lhe, que era verdade, todavia, há muito descurtiu o gendarme. E convocou a Elza para colaborar no canjerê para retornar aos braços do comandante. Elza era uma veterana mãe-de-santo do candomblé. Aliás toda família da Elza foi iniciada na religião de matriz africana, cuja a saudação é saravá !
5 de maio de 2018
Teresa Fênix - Parte 47a.
Já se sabia na boca miúda que o comandante era ateu. Com certeza um curioso das atividades esotéricas, tal qual um amigo dele, cuja origem judaica, sendo russo da vertente esquenazi, que após longos anos em praticar a cabala( lado místico do judaísmo) resolveu frequentar os terreiros de religiões de matrizes africanas. O grego ficou intrigado, sobre o recado de Teresa Fênix, ao ameaçar em colocar o nome dele na boca do sapo, para fazer-lhe reatar com ela. Ele quis conhecer como se operava tal manobra para se produzir mal a alguém. Pesquisou exaustivamente pelas redes sociais, e depois foi ao encontro das poucas pessoas conhecidas, e ligadas a Umbanda ou ao Candomblé. Ouviu e anotou a história e a ritualística de ambas religiões. Todos àqueles depoentes o convidaram para participar de uma gira da Umbanda, onde se prevalece os pretos velhos, Maria Padilha e outras entidades. O experimentado marinheiro ouviu atentamente as orientações daqueles obás de plantão. Um deles afirmou ser ele médium de alta sensibilidade. Devendo desenvolver essa mediunidade, ou seja, lhe foi recomendado a frequentar terreiros. Ele nada dizia, era uma boa escuta, como devem ser os psicólogos mais eficazes. O comandante agradeceu gentilmente, o aprendizado transmitido de gerações em gerações, pela oralidade por homens que preservavam uma importante cultura oriunda da África. Nos momentos de reflexão, o homem do mar, preferia ouvir como sempre, a música Zorba o grego, e dançava.
1 de maio de 2018
Dia do trabalhador
O Muro de Berlin construido em 1961, dividia a Alemanha de Wolfgang Von Goethe, e foi derrubado em 1989, e trás o estereótipo da vergonhosa atitude dos principais vencedores da Segunda Guerra Mundial(1939/1945) a saber
Estados Unidos, Rússia e Inglaterra, que “leiloaram” a Europa. A queda do Muro
de Berlin se creditam a Glasnost (transparência) e Perestroika(reestruturação) que são políticas públicas oficiais de Mikail Gorbachov(1985/1991) para a então União Soviética, e acrescenta-se a globalização
da economia, que enfraqueceram sobremaneira o
movimento sindical mundial que tinha seus pés plantados no mundo dito “socialista”, através da ex-União
Soviética, que se dissolveu num mar de corrupção e denúncias confirmadas de assassinatos em massa. O dia
do trabalhador há muito tem o seu brilho ofuscado, ou os sindicatos estão a perder a sua importância. O sistema capitalista não é nenhuma
oitava maravilha, pois pune severamente os mais despossuídos, ou àqueles sem
eira e nem beira. As Universidades Federais são para os riquinhos, e o
preconceito racial e econômico(esse é o mais perverso) continuam. As prisões
na sua maioria recebem os pobres, negros
e prostitutas. A justiça serve um bom cardápio a classe dominante. Ao trabalhador é preciso dar-lhe a oportunidade de escolas profissionalizantes para o Brasil
enfrentar as constantes demandas do rotulado primeiro mundo. Se assim procedermos, a
organização da classe trabalhadora será uma consequência(desde que seja desatrelada do Estado), e possivelmente tenhamos menos presídios. O Doutor
Anísio Teixeira ícone nacional da educação, vaticinou: “Sem educação não há solução”.
29 de abril de 2018
O Futebol
O futebol como motivador de atitudes variadas no campo sócio/antropológico, na terra brasilis, é algo muito instigante.Está a merecer pesquisa pura aplicada ao segmento que absorve esse esporte de forma quase mística. George, líder dos Vigneron de origem franco-huguenote, não titubeou e organizou-se para esposa dele desse a luz ao filho caçula (Jorginho) no estado do Rio de Janeiro, em função do topônimo fluminense, àqueles nascidos nesse estado. Eles eram torcedores do Fluminense Football Club (grafia inglesa). Numa vitória do Vasco da Gama, campeão de terra e mar(remo), poderia ter sido batizado de Ipojucan, tendo sido salvo pela minha mãe, que não aceitou a imposição paterna. Muitos se chamam de Pelé ou Pelezinho. Talvez de Edson Arantes, Arthur Antunes(Zico), o grande craque Mané Garrinha, Nilton Santos, Bebeto, Castilho, Píndaro e Pinheiro. Mesmo o futebol tendo sido inventado pelos ingleses, o swing desse esporte está aqui abaixo da Linha do Equador, com os brasileiros e otros hermanos latino-americanos, tenham essa certeza. A derrota do Brasil contra a Alemanha, ainda engasga feito a temida espinha de traíra. Nesse andamento allegro ma non troppo, a memória viaja até ao calçadão de pedras portuguesas entre Copacabana e o Leme. Naquele momento mágico, o tricolor Artur da Távola(in memoriam) e amigos, acompanhados por músicos de uma animada bandinha, ou charanga, dentre tantas, era mais uma dessas campanhas políticas. Nesse simplório evento, a música da charanga era o mote. Eis que o encontro surpreendente e agradável ao avistar Paulo Roberto Ramos, tricolor de carteirinha e amigo de infância, from Mimoso do Sul(ES). Ele estava acompanhado do amigo Pedro Carlos N. Carneiro. Diante do inesperado, disse ao maestro: por favor o Hino do Fluminense! Os dois Paulo se confraternizaram pelo mesmo time, e em seguida tocamos em frente a caminhada.
24 de abril de 2018
Numa quinta-feira outonal.
Manhã de outono, numa caminhada, chega o cheiro das flores silvestres, se despertando, quase frio e quase memória a registrar a flora pujante. Eis o legado dos mais importantes, repassado ao homem (que faz a guerra e suja a floresta). Mas elevo o pensamento ao deparar-me com a flor do sugestivo fruta/pão, a baleeira copada é indicativa de boa terra, oitis semeados pelos pássaros, sapucaia, o impenetrável palmito iri, jaqueira-cravo, bambu gigante e chinês, hibisco, candiúva, jenipapo, mangueira, frondosa sibipiruna, jambo vermelho, ingá, paineira, imbaúba, angico vermelho, pitangueira,pau-pereira, mamoeiro,cambotá, pupunha, jabuticabeira, cedrinho, amoreira,banana d'água, ipê amarelo,fedegoso, graviola, guanandi,chibatão, pingo de ouro, jamelão,sapucaia,figo, laranja Bahia, mixirica, pinha,pau-brasil, coqueiro,abacate, cedrinho, lírio, mogno africano, guaraná(morrendo, não sabemos a motivação), pau d'alho, cabiúna, goiabeira, araça, castanheira, ficus, eucalipto citriodora, laranja lima, limão galego e branco, palmito amargo, pupunha, açaí, carrapeta e taboa. Eis a natureza nua. E a selva de pedra não fez falta. Bioma invejável e apreciado por um olhar atencioso, com poderosas e imagéticas lentes. E a conclusão do entendimento, o quanto se deve proteger e preservar a mãe terra. Incluindo as águas escassas e finitas, como fonte e aprendizado da vida.Os valores da convivência no campo, onde a florescência do bucólico, dá a sensação da alegria de viver, tão nítida como a claridade solar.É sempre bom lembrar, que o dia de amanhã, possa ser mais promissor do que o de ontem.
17 de abril de 2018
Dona Ivone Lara
Maria Callas está para ópera, assim como Dona Ivone Lara está para o samba. Sem
receio de errar, o samba é a arte musical de maior expressão da cultura
brasileira. Dona significa no simbolismo cultural, como se fosse Dama ou
Majestade, a sabedoria do sambista, não lhe permite ser narcisista, melhor
dizendo “metido a besta”, em nominar Ivone Lara de majestade ou dama do samba, em vida.
No Império Serrano, que é uma das academias do Samba, onde Dona Ivone Lara é considerada uma compositora de altíssimo prestígio, e um invejável acervo musical de
sambas de raiz que já está no inconsciente coletivo do
povo brasileiro. Gravou o primeiro disco em 1970, através de Sargenteli
e Adelzon Alves. Dona Ivone Lara nasceu em Botafogo, no Rio de Janeiro há 97
anos. Teve aulas de canto com Lucília Villa-Lobos, esposa do compositor Heitor
Villa-Lobos, que elogiava a voz dessa
sambista. Foi atriz no Sitio do Pica Pau Amarelo, no papel de Tia Anastácia. Freqüentou
a Serrinha em Madureira, berço do jongo, que é a semente do samba. Naquela ocasião
conheceu os compositores Mano Décio da Viola e Silas de Oliveira, ambos ícones do samba. Dona Ivone Lara viajou ao espaço sideral para ser
a sexagésima estrela da Constelação de Andrômeda, a partir de 16 de abril de 2018, por decisão de todos os orixás.
15 de abril de 2018
Teresa Fênix 46a. parte ( Omi nibu,Omi jéjé)
"Promessa é dívida" assim reza a crendice por essas terras dos irmãos tupis, tamoios, avá-canoeiros, crenaques, tuxás, tremembés e tantos outros irmãos(negado pelas elites; onde são mais de 150 línguas faladas dos troncos das famílias tupi-guarani, macro-jê, caribe,aruaque e arauá, tucano, ianomâni, macu e outros *); que Teresa Fênix numa certa sexta-feira, lua cheia e 7 de agosto, se preparou para ir ao Terreiro do Caboclo Rompe Mato. Toda de branco, exceção para a calcinha vermelha em homenagem a Pomba Gira, onde guardou rente a perseguida o papel escrito com o nome completo do Comandante grego, longos brincos de cigana, cabelos presos, cordão de ouro com a efígie de São Jorge de Capadócia e bebeu bons goles de uca curtida na carqueja. Na hora de sair, inesperadamente surgiu a vizinha e perguntou onde ela iria toda emperequetada. A pergunta foi de sacanagem, pois sabia ser o conjunto da indumentária pertencer ao ritual das religiões de matrizes africanas, pois era calejada filha de santo, vinda dos terreiros onde ecoavam os sonoros atabaques da Bahia de Todos os Santos. Teresa Fênix pediu-lhe para adiantar o assunto, por estar atrasada para a gira do Candomblé. A visita inesperada falou ter consultado os Orixás, sobre o Grego, e mais de uma entidade garantiu, ter ele a proteção pela frente de Ogum e na retaguarda Obaluaiê; ele tem o corpo fechado(no Benin, e confirmado na terra do Obá Jorge Amado) e qualquer despacho para atingí-lo poderá retornar em dobro para o autor(a). Teresa Fênix ficou "bolada". Sentou-se numa cadeira e desancou a chorar. Choro alto e convulsivo, parecendo ter incorporado algum espírito.E depois entoou os Orin(cânticos em Yorubá, do candomblé), assim: Omi nibu, Omi jéjé ( mãe das águas profundas, mãe das águas calmas **).
* Indios do Brasil/Julio Cezar Mellati (edusp)
** Órun Àiyé/ José Beniste ( Ed.Bertrand Brasil)
* Indios do Brasil/Julio Cezar Mellati (edusp)
** Órun Àiyé/ José Beniste ( Ed.Bertrand Brasil)
23 de março de 2018
Teresa Fênix 45a. Parte
Teresa Fênix rides again, em direção ao filho de Zeus. Impassível passou ao largo das investidas para retornar o romance, onde o amor inexistia. O Comandante, teve um breve diálogo assim: Porque tem me evitado, o meu Comandante? Porque orgulho e preconceito? Ele então respondeu: " Vaidade e orgulho são coisas diferentes, embora as palavras sejam usadas como sinônimos. O orgulho tem mais a ver com nossa opinião a respeito de nós mesmos, a vaidade com que desejamos que os outros pensem de nós." Lembrou o marinheiro grego de um trecho do clássico "Orgulho e Preconceito" da britânica Jane Austen. Teresa Fênix ainda insistia sobre o preconceito, pois ela se sentia pobre materialmente, e o julgava ser rico. O grego nada respondeu. Uma outra tentativa, de cunho mais sério ou não, pois se tratava de uma conhecida de ambos, indo a casa dele, na função de pombo-correio, e naquele momento repassava o filme:("Minha amada imortal" uma película biográfica de Beethoven, que faz (des)acreditar que o compositor teve ou não teve um grande amor), e a mensageira foi logo dizendo: " ela mandou dizer o seguinte: se você não voltar pra ela, o seu nome vai parar na boca do sapo-boi". E foi-se embora com passos céleres.O interlocutor ficou atônito. Todavia não acreditava em cangerê ou congênere.
18 de março de 2018
Teresa Fênix - 44a. parte
Maga Psicológica, durante a permanência no hospital, ela fez diversas amizades, dentre elas, com uma voluntária de nome Macilea Castelo, que prestava serviço a uma Casa de Recuperação de Dependentes químicos e outros. Ela se entusiasmou, e com a saúde recuperada, passou a dar plantões na casa acima citada. Na condição de servir àqueles que tentavam se livrar da dependência, como o alcoolismo, drogas pesadas e outros, Maga Psicológica, ia tocando a vida dela, se sentindo útil ao próximo nesse novo contexto de vida, falava na "boca miúda", que se lembrava do filho, vitima de um severo vício. Doar serviço para comunidade despossuída de condições, e com dependentes abandonados pelos familiares, é uma atitude das mais meritórias. Entre os internos, um deles chamou-lhe atenção, pois se parecia com o filho dela. Essa transferência de afetividade é praticada em outras ocasiões, para mitigar sofrimentos ainda presentes. O irmão nímico (de alma), era um simpático afrodescendente cujo apelido era Pingola, e pelos anos 1960, gozava da amizade do Ricardo Ferreira Martins, mais conhecido por Kiko, amigo do Comandante Grego. O benfeitor do Pingola, num certo momento, Pingola foi agraciado com uma cadeira de engraxate na praça central, tendo como companheiros de profissão, o Senhor Augusto, que ambulava com uma só perna e o filho Expedito, mais a companhia do jovem Leonídio morador do Alto San Sebastian. Pingola mesmo tendo recebido, a cadeira de engraxate, roupas e alimentação do amigo do grego,chegou a praticar um ou dois furtos na casa do Kiko. Pingola inesperadamente sumiu, e anos mais tarde, se soube estar trabalhando como gari em Cachoeiro do Itapemirim. E tinha sido morto numa contenda, foi esfaqueado, vindo a óbito (como diz a corporação médica). Maga Psicológica, ao saber desse desfecho fatal com o Pingola, não resistiu e morreu de infarto, aos 87 anos.
12 de março de 2018
Teresa Fênix 43a.parte
Repetir o filme - Zorba o grego - no sofrido projetor, soava-lhe como uma eclesia dos valores helenos, e se sentia transportado num processo esotérico, imagético até a terra de Zeus, das deusas Atenas e Afrodite, a primeira da guerra, a outra do amor. O Capitão de longo curso, inúmeras vezes era convidado para frequentar cultos protestantes neopetencostais, e por último passou a receber convites para cultos de matrizes africanas. Se sentia inclinado a conhecer a mística oriunda da África. Contudo, não se sentia atraído na busca de um deus para se religar, religião. A curiosidade era o som agudizado da percussão, produzida pelos atabaques, a coreografia das danças, cânticos e a ritualística, que somente conhecia de documentários e livros. O Comandante era possuidor de uma sólida convicção agnóstica. No pensamento dele, nenhuma doutrina,seita,Um eterno aprendiz. religião, sociedade secreta ou crença popular, carregada de misticismo ou não, o levaria a professar quaisquer uma delas. Era um livre pensador. E nada mais.
27 de fevereiro de 2018
Teresa Fênix 42a. parte
O hábil timoneiro foi desafiado por mares violentos,imensos vagalhões, avariações nos mastros, velas rasgadas, toneis de água quebrados, ele superou os contratempos com sensibilidade e têmpera. Nos infortúnios ou lições de vida, a convivência entre crianças com necessidades especiais, era a mais doída compaixão. Resolvia equações da difícil ciência náutica, e ensinava a língua de Platão alegremente. Sabia das aventuras reveladas por Homero no livro Odisseia. Além dos 10 anos que lutou na guerra de Tróia, coabitou 1 ano com deusa Circe, e mais sete anos com Calipso e as ninfetas. Ulisses era a representação do homem grego: inteligente e arrojado. E se embaralhava no cipoal de pensamentos, quando se tratava do enigma do amor e mistérios inerentes. O que fazer? ou para onde não ir? Todos os marinheiros foram mortos pela maldição dos deuses adversos. Com tudo isso, se embaralhava no cipoal de pensamentos, quando se tratava do sentimento mais profundo. Não tem como cotejar. Disjuntivas frequentes, não lhe ofereciam espaços para a reflexão mais serena. Se sentia como o comandante holandês, que segundo a lenda, somente poderia ancorar de sete em sete anos, na busca de um amor, caso não o encontrasse retornava a singrar oceanos. O amor lhe parecia algo (in)tangível, mesmo atuando numa larga e sincera compreensão. Se mantinha nas atividades cotidianas e as vezes era assaltado por um desejo de retornar a Grécia. Mas entre uma atividade e outra assoviava trechos do quarto e último movimento da nona sinfonia de Beethoven. E o tempo ia adormecendo os pensamentos dele. Mas ele sabia que a qualquer momento essas reflexões retornariam. Era preciso tomar duras decisões. Assim Beethoven escreveu e musicou a parte do canto, da derradeira Sinfonia desse valoroso ícone da música erudita:
9ª Sinfonia (Opus 125)
Ó, amigos, não nesse tom!
Em vez disso, cantemos algo mais delicioso
Cantar e sons alegres
Alegre! Alegre!
Alegria, formosa centelha divina,
Filha do Elíseo,
Ébrios de fogo entramos
Em teu santuário celeste!
Tua magia volta a unir
O que o costume rigorosamente dividiu.
Todos os homens se irmanam
Ali onde teu doce voo se detém.
Quem já conseguiu o maior tesouro
De ser o amigo de um amigo;
Quem já conquistou uma mulher amável
Rejubile-se conosco!
Sim, mesmo que ele chama de uma alma
Sua própria alma em todo o mundo!
Mas aquele que falhou nisso
Que fique chorando sozinho!
Alegria bebem todos os seres
No seio da Natureza;
Todos os bons, todos os maus,
Seguem seu rastro de rosas.
Ela nos deu beijos e vinho e
Um amigo leal até a morte;
Deu força para a vida aos mais humildes
E ao querubim que se ergue diante de Deus!
Alegremente, como seus sóis voem
Através do esplêndido espaço celeste
Se expressem, irmãos, em seus caminhos,
Alegremente como o herói diante da vitória.
Abracem-se milhões!
Enviem este beijo para todo o mundo!
Irmãos, além do céu estrelado
Mora um Pai Amado.
Milhões, vocês estão ajoelhados diante Dele?
Mundo, você percebe seu Criador?
Procure-o mais acima do Céu estrelado!
Sobre as estrelas onde Ele mora!
9ª Sinfonia (Opus 125)
Ó, amigos, não nesse tom!
Em vez disso, cantemos algo mais delicioso
Cantar e sons alegres
Alegre! Alegre!
Alegria, formosa centelha divina,
Filha do Elíseo,
Ébrios de fogo entramos
Em teu santuário celeste!
Tua magia volta a unir
O que o costume rigorosamente dividiu.
Todos os homens se irmanam
Ali onde teu doce voo se detém.
Quem já conseguiu o maior tesouro
De ser o amigo de um amigo;
Quem já conquistou uma mulher amável
Rejubile-se conosco!
Sim, mesmo que ele chama de uma alma
Sua própria alma em todo o mundo!
Mas aquele que falhou nisso
Que fique chorando sozinho!
Alegria bebem todos os seres
No seio da Natureza;
Todos os bons, todos os maus,
Seguem seu rastro de rosas.
Ela nos deu beijos e vinho e
Um amigo leal até a morte;
Deu força para a vida aos mais humildes
E ao querubim que se ergue diante de Deus!
Alegremente, como seus sóis voem
Através do esplêndido espaço celeste
Se expressem, irmãos, em seus caminhos,
Alegremente como o herói diante da vitória.
Abracem-se milhões!
Enviem este beijo para todo o mundo!
Irmãos, além do céu estrelado
Mora um Pai Amado.
Milhões, vocês estão ajoelhados diante Dele?
Mundo, você percebe seu Criador?
Procure-o mais acima do Céu estrelado!
Sobre as estrelas onde Ele mora!
25 de fevereiro de 2018
Teresa Fênix 41a.parte
O destino do Chefe não estava escrito nas estrelas. Foi decretado pelo Exu Caveira, entidade mais carregada de maldade, no campo primitivo, chamado de vingança, sob o manto da barbárie. As religiões de matrizes africanas, são iguais a quaisquer outras místicas. Os cultos de todos os continentes defendem que na existência do bem, há a contrapartida do mal. Acrescento somente para ilustrar pois, na famosa ópera Il Trovatore de Giuseppe Verdi(1813/1901) no libreto eis o Ato 1: " O irmão mais moço do Conde de Luna desapareceu há muitos anos. Conta-se que uma feiticeira fez-lhe um feitiço antes de ser queimada, e que a filha dela raptou e matou a criança." Há a possibilidade que a morte do Chefe tenha sido encomendada pelo antigo empregado - José do Egito - que presenciou o assassinato do patrão dele. Se tal ocorreu, as mães e filhas de santo, babalorixá, cambono e o orixá mais graduado, e demais membros tenham acedido a proposta de trabalharem a morte do Chefe. Os alquidares foram lavados em água corrente de cachoeira, e preparados para receberem o bode preto sacrificado, para se processar o despacho na lua cheia no dia 17 de agosto, como recomenda a liturgia transmitida pelos sábios Obás. O Chefe foi vítima de um forte quebranto. Negava a se alimentar, e foi tomado de um profundo desânimo e dizia ouvir vozes do pai dele. Diante do quadro agravando-se em progressão geométrica, foi internado no hospital local e morreu em poucos dias, vítima da falência dos órgãos vitais. "Yo no creo en las brujas, pero que las hay, las hay ". (*)
(*) "Eu não creio nas bruxas, mas que elas existem, existem"
(*) "Eu não creio nas bruxas, mas que elas existem, existem"
21 de fevereiro de 2018
Teresa Fênix 40a. Parte
O comandante estava animado com as aulas de grego que oferecia graciosamente a um pequeno grupo de alunos. Contudo continuava a frequentar com assiduidade o Núcleo de Crianças portadoras da Síndrome de Down. O interesse pela mitologia grega era flagrante. A viagem marítima de Ulisses por cerca de dez anos petrificava os olhares dos pré-adolescentes, quando narrada por aquele professor. A Odisseia de Homero encantava os pequenos. Como um livro escrito há mais de quatro séculos a.C. poderia despertar tanto interesse na petizada? O herói Ulisses é o herói, é a própria Grécia, como Tchaicovsky foi para a Rússia, através da arte musical. Expressava originalmente a característica grega. Enfrenta ciclopes, motins, maremotos e todos os tipos de perigos mortais e os supera quando chega a Ítaca, onde é esperado por Penélope, astutamente fiel, que resistiu à corte dos brutais pretendentes, os quais foram todos mortos por Ulisses. Interpretar Ulisses na sua condição de humanizado por Homero, abre um leque interpretativo cujo o fio condutor indica molduras diferenciadas, por Dante, Platão, Joyce, Pound, Kazantzakis e.g. Enfim Ulisses é um marinheiro que carrega simbolismos subjetivos e outros nítidos, feitos a claridade solar.Ulisses foi em busca do absoluto.Talvez tivesse o famoso compositor Wagner se inspirado em Ulisses para compor a ópera "O navio fantasma" onde o binômio coragem/virilidade é a culminância.
18 de fevereiro de 2018
Teresa Fênix 39a. parte
A protagonista principal desapareceu, sem ao menos despedir dos vizinhos. E após um longo período de ausência, talvez mais de um ano, sendo que nesse lapso temporal, o grego em nenhum momento quis saber do destino dela. Melhor dizendo, Teresa Fênix não lhe fez falta. Segundo lhe contou uma nova vizinha, recém chegada da Crimeia, pertencente ao Condado de São Pedro do Itabapoana, ela foi submetida a um severo tratamento psiquiátrico, numa clínica no interior de São Paulo, que pertencia a Ordem dos Franciscanos. O comandante não desejava revê-la, mas isso era quase impossível, pois numa pequena cidade certamente a toparia inevitavelmente num supermercado ou na praça central. O Comandante continuou na rotina dele, sem apresentar nenhuma outra atividade, exceto em dar aula de grego para sete alunos, duas vezes por semana. E também se preparava para visitar as terras de Homero, pois existia uma pequena herança que lhe cabia por lei e por direito. Nas idas e vindas ao comércio local, a viu de longe e acompanhada do filho. Pela distância, notou-lhe que tinha ganho peso corporal. Esse olhar não caracterizava nenhum interesse. O fetiche derreteu-se. Foi um olhar pequeno, em todos os sentidos, (afinal de contas o Comandante era fruto do mimetismo cultural,ou era uma curiosidade tida como universal?) Não nutria o mais remoto sentimento afetivo. Para o grego o amor, mesmo com o aprendizado da rica mitologia helênica, é um sentimento de altíssima complexidade com trânsfugas, disjuntivas e aceitação. E assim se faz a (des)construção do amor, com suavidade, segundo o entendimento do experiente marinheiro dos sete mares.
20 de agosto de 2017
Teresa Fênix - 38a. Parte
A barra do Chefe começava a pesar por carregar a culpa de ter morto o pai, pelas mãos de um assassino frio e de aluguel, um ser desprezível que o Chefe contratou para a abjeta tarefa. As alucinações se intensificaram e os outros hóspedes começam a se incomodar com os gritos dele durante a madrugada, os quais perturbavam o sono dos demais, e as discussões desperadas se iniciaram. Os mais exigentes queriam que ele fosse para outra cela, e os mais serenos mitigavam o incômodo. O núcleo duro da facção criminosa da prisão se reuniu e decidiu transferir o Chefe para outro compartimento prisional. Foi lotado no gabinete dentário, um local para os peixes do Chefe dos carcereiros, pois o interno deveria manter o consultório limpo e na contrapartida, poderia dormir no consultório. É possível que tal prerrogativa passava ao largo da diretoria do presídio. Um oásis no deserto da criminalidade.Na época esse espaço era disputadíssimo e custava um bom dinheiro. O Chefe se sentiu prestigiado, mas os devaneios noturnos não cessaram. Sem se alimentar, estava se candidatando a uma anorexia. Fumava diariamente três a quatro maços de cigarro e estava magérrimo. A limpeza do consultório estava sendo negligenciada. As reclamações eram frequentes por parte do dentista.
12 de maio de 2017
Teresa Fênix - 37a. parte
O filho da vítima, mais conhecido como Chefe, cumpria pena, e recebeu a notícia do encomendado assassinato do pai dele, tal como arquitetou a morte do mesmo, ou seja com frieza, como um monstro das águas abissais. Ele se filiou a uma dessas facções criminosas em funcionamento nos presídios desse Brasil continental. E na estratificação do conjunto da sociedade penitenciária, o Chefe depois da morte paterna, passou a gozar de prestígio na hierarquia do crime, dito organizado. Há suspeita, de que não é possível o funcionamento dessa máfia, sem a colaboração dos servidores públicos, cuja contrapartida poderá ser o vil metal. O Chefe ao cometer o parricídio, bem próximo a dramaticidade de Édipo-rei de Sófocles (442 a.C), passou a ter mais respeito entre a população carcerária, quer dos internos, quer dos funcionários. Algumas semanas se passaram, e o Chefe começou a ter longos pesadelos. Acordava no meio na madrugada, aos gritos. Depois chorava convulsivamente. Nos sonhos densos, o protagonista principal era a imagem do pai sendo degolado, e o sangue esvaindo pela varanda na casa da fazenda. Era nesse espaço onde o Chefe brincava na infância, chutando uma pequena bola, um dos raríssimos presentes recebidos pelo pai. Em seguida entrou em deep depression(*), se negando a se alimentar.
(*) profunda depressão
1 de maio de 2017
Teresa Fênix 36a.parte
O deadline para se esquecer os conflitos do afeto, pode ser zero. O comandante helênico recebeu uma (in)esperada ligação telefônica de Teresa Fênix. E nesse justo instante ao ouví-la pelo celular, o aborrecimento com Teresa Fênix estava cessado. O comandante não era um tipo prosaico. Possuía severas dúvidas. Baseado nos rudimentares conhecimentos da física, comungava da máxima: o tempo é uma ilusão. Nas digressões dele, o binômio decisão e tempo não se integravam nas equações existenciais que abraçava com imenso fervor. Por isso acolheria Teresa Fênix. Imaginava haver um denso fetiche nessa relação. Nesse telefonema disse-lhe que estava se caminhando a passos largos(literalmente) para a casa dele. O grego a esperava na porta do pequeno apartamento. Ela abriu os braços, e ato contínuo entrelaçou-a longamente. Em sussurros, segredou-lhe coisas da paixão do amor. O Comandante ficou lívido. E se sentiu um Humphrey Bogart no clássico filme - Casablanca - diante da sua Grace Kelly,(há quem afirme que se apaixonaram durante as filmagens, foram beijos de um casal verdadeiramente enamorados). Teresa Fênix e seu partner, jantaram durante duas noites seguidas. Com lampejos de dois pombinhos em lua de mel. Elaboraram projetos, e sonharam até uma viagem a Atenas e depois a ilha de Delos. O clima era de plena harmonia, até que Teresa Fênix foi a casa do pai, Zeca. Retornou depois de três dias. E voltou macambúzia. Não o chamou pelo celular, conforme havia lhe prometido. O grego ficou bolado com o silêncio dela. Imaginou o pior. E resolveu chamá-la pelo telefone. E o prenúncio dele se confirmou.
23 de abril de 2017
Teresa Fênix 35a. Parte
José do Egito, o antigo empregado do audacioso cabouqueiro, resolveu ministrar o funeral do patrão, seguindo a liturgia do candomblé(*). José do Egito mesmo tendo se afastado dos terreiros dos orixás, raciocinava que por ter sido mensageiro da fatal premonição, estava a prestar homenagem as entidades da mística afrodescendente, pela confiança esotérica nele depositada. Entre os yorubá, quando morre uma pessoa, o corpo é banhado, igual na tradição judaica. Se for mulher, o cabelo é devidamente penteado, e se for homem, o cabelo é inteiramente raspado. A condição de estar devidamente higienizado, é para ser bem recebido na morada dos ancestrais. Em algumas regiões da África, chumaços dos cabelos e pedaços das unhas dos pés do morto, são cortados e guardados para o 2° enterro, em sete ou mais dias. Em seguida o defunto é envolvido imediatamente numa mortalha branca. Acrescenta-se que ritual fúnebre do candomblé detém o conhecimento da conservação do corpo. Os alimentos e oferendas são depositadas numa cabaça aos pés do morto, como forma dele não sentir fome, durante a permanência entre os antepassados. Os ataques rufam, e os amigos e parentes dançam e também se alimentam, todavia até a barra da madrugada. A dança se encerra e o corpo é vestido em roupas pesadas e coloridas, e em procissão solene se dirigiram até a sepultura. Há o hábito de mandar recados para àqueles que partiram, que é a prova da crença no além, e no poder inconteste dos ancestrais. Vários dias decorridos após o funeral, se pratica outro rito conhecido como Fífa éégún Òkùú wo lé - Trazer de volta o espírito para casa. Um santuário é construído num canto residência, onde se realizam pedidos e oferendas, num diálogo da intimidade familiar. José do Egito cumpriu a obrigação que julgava correta dentro dos cânones orais repassados por várias gerações.
*) O Negro no museu brasileiro - autor: Raul Lody - Ed.Bertrand Brasil;
*) Òrun Àiyé - autor: José Beniste - Ed. Bertrand Brasil.
*) O Negro no museu brasileiro - autor: Raul Lody - Ed.Bertrand Brasil;
*) Òrun Àiyé - autor: José Beniste - Ed. Bertrand Brasil.
10 de abril de 2017
Teresa Fênix - 34a. Parte
A futura mãe estava a sorrir, principalmente quando ouvia alguma referência sobre a gravidez. A avó incumbiu-se de costurar à mão uma peça de recém nascido. A mãe dentro da cultura sul-americana, mergulhou nas águas abissais do desejo da filha única. E iniciou-se a aquisição do enxoval, com o mais apurado gosto. Na casa de Maria Guadalupe o tempo girava em torno do nascimento do neném. O futuro avô materno vaticinava dissimuladamente, se fosse homem, sugeria o nome dele. A mãe e a filha, desconversavam sobre essa possibilidade. A compra do berço, pintura do quarto, viagem ao México, enfim agenda assoberbada. Ulisses ficou marginalizado diante do importante evento. Mesmo tendo sido coadjuvante, o prestígio caiu. O foco das atenções foi alterado. Lembrou-se da crônica do Artur da Távola( 1936/2008), cujo texto, em alguns casos, o homem é simplesmente o colocador de semente, e só. Ulisses assim se sentia. Todavia, bem cedo aprendeu com o preceptor dele, o grego, que o silêncio é sábio. Ulisses mudou-se para a casa da namorada. E sentia feliz pelo neném. Não era expectativa dele, ser pai tão rapidamente. Outro remetente num contexto próximo, também no espaço e no tempo, e personagens díspares, eis o curto diálogo: Como isso aconteceu? Você uma mulher experiente, se deixou engravidar? Vc sempre afirmou, não queria mais filhos. Pois é mãe de três adolescentes. Pensou por alguns segundos, e sorridente retrucou: ele é que não soube brincar. Um aforismo popular, à propósito.
26 de março de 2017
Teresa Fênix (33a. parte)
O marinheiro helênico deu de ombros, diante da proposta estapafúrdia de Teresa Fênix. E seguiu em frente, dessa vez visitando uma instituição, cuidadora de crianças e jovens portadoras de necessidades especiais. Dentro do espaço da meninada, ele se detinha mais no diálogo com aqueles acometidos pela Síndrome de Down(distúrbio genético causado pelo cromossomo 21 extra, conhecido como cromossomo do amor. O resultado da pesquisa se deu em 1862, pelo cientista inglês John Langdon Down), era uma atitude isolada, era da sua própria lavra. O comandante depois de algumas visitas se transformou em voluntário, prestando serviços de todos matizes. Conquistou a amizade dos internos. Ensinava o que se supunha saber, ou seja, contando histórias da navegação marítima. Trouxe de casa as fotografias das viagens transoceânicas, réplicas de diversas embarcações do passado e da atualidade, e inclusive do navio com o qual atravessou o acidentado e perigoso estreito de Magalhães. Eram tantos os questionamentos da petizada, alguns repetitivos. Mas ele não se importava com as perguntas reeditadas. E não percebia que tempo passava celeremente. Intuiu que a solidariedade era um vetor importante de realização pessoal. A memória do comandante viajava pelos mares navegados e a navegar. Os flashes mentais iluminavam-lhes as recordações. A propósito sobre lembranças e memórias, eis a narrativa: Os vinhos generosos melhoram muito ao passarem pela linha, pela evaporação das partículas aquosas, assim também a recordação se purifica ao perder as partículas da memória, sem que por isso se desvaneça em fumo, como também não acontece aos vinhos generosos. Tal assertiva filosófica é do dinamarques Soren Kierkegaard (1813/1855) n'O banquete.
12 de março de 2017
Teresa Fênix (32a. parte)
O marinheiro grego vivia o teatro shakespiriano, onde a (in)certeza dominava o pensamento, quanto a resolver ou não uma dependência de Teresa Fênix, fruto inexorável de uma monumental carência. Quem diria esse grego-filósofo se render aos encantos de uma nativa dos trópicos? A distância das afinidades aumentava a cada encontro furtivo. Mas a atração física preponderava ( ou outro sentimento, compensação ou comiseração). Era do conhecimento dele, esse comportamento, são complexidades do enigma amoroso, autênticas dúvidas traidoras, aliadas metálicas do medo de se arriscar. E para agravar o momento, Teresa Fênix estava tendo suporte financeiro do ex-namorado. O grego mediterrâneo não se sentiu confortável ao tomar conhecimento dessa novidade. Entrou em alfa. Meditou durante sete dias e sete noites. E não vislumbrou no imaginário, um porto seguro para ancorar o navio cheio de sofrimento, a lhe aturdir. Teresa Fênix numa manhã nublada, lhe procurou e após os cumprimentos de praxe, convidou o Capitán dos sete mares, a viajarem a uma praia deserta próximo a Marroquin (perto da histórica igreja N.S. das Neves, no município de Presidente Kennedy/ES, construída em 1581 pelo puris, botocudos e escravos africanos, sob o chicote do jesuíta espanhol Padre Almada). Nos primeiros instantes o grego entrou em parafuso, e ficou furioso.
3 de março de 2017
Teresa Fênix (31a. parte)
Na ausência de uma pousada na região, Maga Psicológica pernoitou por favor, na venda de Secos e Molhados, dormindo sobre sacos vazios de cereais. E pela manhã tomou o ônibus de volta. Cabisbaixa e meditabunda, após a total negativa do pai do Chefe em recebê-la, se sentiu arrependida e também impotente. O arrependimento foi não ter dito a ele, que seria morto se não atendesse a reivindicação dos criminosos. E a impotência por não tê-lo peitado. Ela ainda mantinha no recôndito da alma, uma anêmica esperança em reconquistar aquele que foi um grande amor na vida dela. Enfim chegou ao destino final, cansada e tensa. Tocou as tarefas diárias de acordo com a rotina que a vida lhe impunha. Após três semanas, Maga Psicológica recebeu uma ligação, na qual o interlocutor não se identificou, informando que o rico cabouqueiro tinha sido morto. Maga se descompensou e desmaiou. A vizinha socorreu levando-a ao hospital local. Em pouco tempo a notícia se alastrou e na boca da noite, o noticiário midiático comentou o homicídio. Foi um crime perverso, pois a vítima lutou bravamente com o agressor. A arma branca do crime foi uma peixeira. Esfaqueado várias vezes, ele sangrou aos borbotões. Num ato terrorista o homicida cortou-lhe a cabeça, à moda islâmica jihadista. Deixando no chão um pequeno amuleto de cor vermelha, podendo conter no interior do patuá uma oração, ou uma prática mística. Quando da ocorrência do assassinato, José do Egito não estava ausente da propriedade. Um curioso fato ocorreu, semanas antes do crime: convidado a participar de uma gira do Candomblé Kêtu(*), da tradição Iorubá - José do Egito, foi batizado como Sebastião Querino no Terreiro Ilê Axé Opô Afonja - localizado na periferia soteropolitana. Para tomar novo rumo na vida e esquecer o passado, trocou de nome quando se converteu a doutrina kardecista. Nos grotões dos brasis, o expediente dos pseudônimos é quase corriqueiro. Contra a vontade, aceitou o convite. Durante a sessão aconteceu a incorporação do Exú caveira, entidade de má reputação entre os orixás. O espírito materializado avisou-lhe que o patrão dele iria morrer. Adiantou que foi um pedido forte num terreiro baiano. José do Egito contou tudo a ele, contudo em nada acreditou.
(*) Pesquisa, O Negro no museu brasileiro - Ed. Bertrand Brasil, 2005 - Autor: Raul Lody
(*) Pesquisa, O Negro no museu brasileiro - Ed. Bertrand Brasil, 2005 - Autor: Raul Lody
28 de fevereiro de 2017
Teresa Fênix ( 30a. parte)
Ela chegou dentro do tempo previsto, na casa do ex-amante. José do Egito, antigo colono e meeiro da fazenda a recebeu gentilmente. Maga Psicológica de pronto disse da imperiosa e urgentemente necessidade, de se falar com dono da propriedade rural. Sob o alpendre da casa bem conservada, sentou-se e sentiu uma ligeira tonteira. Em seguida, o ouviu nítido e altissonante, vociferar: Não falo com essa muié ! Manda ela ir embora. Assim falou o pai do Chefe. José do Egito ao chegar na varanda encontrou Maga Psicológica caída e estrebuchada, se debatendo no assoalho. José do Egito, iniciado no candomblé, fez-lhe uma oração. O dono das terras, chegou e afirmou que ela tinha incorporado a Pomba Gira, e que pertencia a umbanda, e considerada veterana e temida feiticeira. O colono José do Egito, falou firmemente ao patrão, não era nenhuma entidade do sincretismo de matriz africana. Ela precisava de um médico. Gradativamente ela foi recobrando os sentidos mais elementares, e pediu água com açúcar. Disse ao José do Egito, que teve uma crise hipoglicêmica, causada por forte impacto emocional. E que de outras vezes o mesmo havia lhe acontecido. Maga Psicológica estava vivendo o drama de contar ou não, ao fazendeiro, sobre o risco de vida que correria, caso não desse dinheiro para o filho presidiário. Os internos possuem redes organizadas de comparsas para executarem com frieza os desafetos.
19 de fevereiro de 2017
Teresa Fênix - 29a. parte
A jovem panamenha foi sozinha ao laboratório, para enfim tomar conhecimento do esperado resultado do teste da gravidez. Tensa, ainda em casa, tomou um forte ansiolítico e partiu para dirimir a dúvida, se estava esperando neném. O diagnóstico indicou que estava grávida. Então as comportas lacrimejantes abriram-se. Desnorteada, feliz e preocupada, estressadíssima foi atrás de Ulisses. Não o encontrou. Foi para a casa. Inventou uma coragem, e contou tudo para a mãe dela. E teve uma grata surpresa, pois a madre acolheu-a abraçando-lhe disse: bueno serei abuela.(*). Ambas choraram durante um bom tempo, até que o pai chegou, e tomou conhecimento do inédito fato, e juntos o trio se emocionou. Maria Guadalupe, falou aos pais sobre a promessa feita a santa mexicana, Virgem de Guadalupe, padroeira do México e da América Latina. A aparição se deu em 1531, e guadalupe na língua azteca significa perfeitíssima. Adiantou que teriam que viajar até ao México, antes do nascimento do bacuri(**). O clima era de festa. E os copos "shot glass" foram lavados e enxutos. Limão, sal na língua e tequila. Essa bebida é produzida pela agave-azul(planta, talvez prima do cactus) na cidade de Tequila, na região de Jalisco. O casal bebeu vários tragos, sem contudo ficarem borrachos(***).
* avó
** menino
*** bêbados
16 de fevereiro de 2017
Teresa Fênix (28a. parte)
Maga Psicológica se preparou para enfrentar o ex-amasio para atender o pedido do filho apenado. Fez uma pequena reunião de família, no sentido de alertar os parentes, caso lhe acontecesse algum atentado, informou que o maior suspeito seria o ex-amante. Alguns membros da família, por segurança, aconselharam-lhe a cancelar a viagem. Maga Psicológica não atendeu os familiares. E começou traçar o roteiro da aventura. O destino era secreto. Era necessário fazer diversas baldeações de busão. Em dois dias chegaria no lugarejo indicado pelo contador do cabouqueiro, num rasgo de boa vontade deu-lhe o endereço, mas exigiu silêncio absoluto. O périplo da Maga Psicológica chegou ao fim numa sexta-feira 13. Na beira de uma estrada vicinal, apeou junto a uma Venda de Secos e Molhados, notou na parede lateral do modesto estabelecimento, um velho almanaque, estampando uma propaganda do medicinal biotônico fontoura. No passado distante, esse remédio era ministrado para a juventude como fortificante, uma colher de sopa antes das refeições. Exposto estavam também, o anil, velho alvejante,fumo de rolo, calça brim-coringa, linguiças de porco penduradas, fubá grosso de moinho de pedra, sardinha salgada, arroz, feijão, rapadura e os fregueses contumazes chupitando uca curtida em losna(absinto) ou carqueja. Era uma casa sortida nas tradições brasileiras. Ela tocou o relógio do tempo, e veio a lembrança. Duas lágrimas rolaram. Restabelecida da emoção passageira, se informou como chegaria no lugar conhecido como Cotovelo. Distava sete léguas de onde se encontrava. Uma charrete a um preço justo, toda pintada de amarelo ovo, a levou na fazenda do irascível empresário de pedras cortadas no estilo paralelo e outros.
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