Cumulus nimbus, nuvens
plenas de água, que por fenômeno climatológico se soltam como chuva, e irrigam, fertilizam,
limpam e saciam a sede da humanidade. Dizem que a flora é a moldura da terra,
como se fosse a madeixa dela. A chuva goteja, pinga, filtra e inunda. Os
ribeirinhos correm velozmente para o rio maior, e diluem-se num outro, e se
misturam na água salgada, e nos sete mares perde o seu paladar original para sempre. Chove copiosamente, à cântaros, a canivetes na
terra dos índios puris, primos dos avá-canoeiros. Na chuva assim, os
passarinhos se ausentam, bem como o encantador beija-flor. Com a umidade, as asas molhadas ficam
pesadas, e comprometem a aerodinâmica dos voos. Os riachos golfam sem parar. Então o nível da água sobe, sorrateiramente. E invade a
cama, as roupas, os retratos da família, os livros de autoria de Jorge Amado, Jorge Luis Borges e Tchecov. Perdem-se memórias. Ela se repete, de quando em vez, até tornar-se igual o mal de Alzheimer. Jorge Alberto, índio aculturado, meu amigo, e contumaz frequentador da
Adega Pérola, ensinou que não há enchentes nas florestas, acontecem as cheias que fazem parte da fenomenologia regional.
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15 de dezembro de 2016
4 de novembro de 2016
O passageiro que não bateu palmas.
Na estação do metrô no Largo da Carioca, conhecido como Tabuleiro da Baiana há várias décadas, no confortável vagão desse trem subterrâneo, ar condicionado em pleno funcionamento, eis que surge um clarinetista e um guitarrista, carregando um amplificador portátil, para dar suporte sonoro a suave guitarra de base. Um breve anúncio com sotaque hispânico, indicava que tocariam. E quase todos os passageiros atentos, aguardando a apresentação dos artistas mambembes. Logo o instrumento de sopro deu início ao mavioso solo, me fazendo lembrar do livro "Solo de clarineta" de Érico Veríssimo(1905/1975). Próximo de mim, um sério passageiro não se movia. Não acompanhava o ritmo, quer com pé, quer com a mão desocupada. Sério permaneceu, e assim continuou. No You Tube a múscia Take five - um jazz melífluo:o sax alto é do autor, piano com o maestro Brubeck, J.Morelo na bateria e Eugene Wright no contra-baixo, com mais de vinte milhões de acessos. O desconhecido não mexeu sequer nenhum músculo da face. E no final não bateu palmas. Essa obra musical jazzística, foi gravada em 1959, é de autoria Paul Desmond, doador dos direitos autorais de todas as composições dele para a Cruz Vermelha. No término da apresentação, os simpáticos músicos passaram o chapéu. E a grande maioria colaborou. O passageiro sisudo, deu-lhes a maior contribuição aos artistas itinerantes(o mecenas de plantão contribuiu com cem reais). Há pessoas surpreendentes. A recomendação é não (pré e nem pós) julgá-las. Desci do metrô na Estação Botafogo, e no Bar do Hotel Argentina (sem o Nonato, garçom que servia ao Olimpio José de Abreu e outros amigos) depois de muitos anos abstêmio, pedi ao barman um cowboy do J.W. Black. O pensamento viajou pelos sete mares. De todos esses mares, um deles foi o bar onde me encontrava. E cantarolei baixinho Take five, lembrando-me do passageiro que não bateu palmas.
20 de agosto de 2016
Olimpíada Carioca
As competições deveriam ser tratadas com cerimônia, por serem consideradas instrumento de dominação das elites. Foram doze os Césares que utilizaram essa peça de marketing, conhecida como panis et circenses , ou pão e circo. Essa propaganda enganosa é utilizada até aos nossos dias. Os atores por ausência de politização se prestam como protagonistas na busca das luzes de neon, que poderá significar rios de euros...ou eclipsados por um pífio desempenho. Há também o agravante do dopping, que são poderosas drogas, absurdamente ministrados aos atletas para uma melhor performance. Os usuários considerados culpados, através de exames laboratoriais, tem os título cassados, e caem em desgraça na mídia. Durante a guerra fria (1945), patrocinada pela URSS, Cuba, EUA , Inglaterra e França,os blocos soviéticos e o americanos do norte disputavam as Olimpíadas como propaganda dos respectivos modelos político/econômicos adotados por eles. Era a contenda entre Adam Smith X Karl Marx. Nesta festa desportiva, saltam aos olhos, pelas imensas dificuldades enfrentadas, por alguns concorrentes brasileiros (e de outros continentes como a África e América hispânica), que na ausência de oportunidades, abraçam as alternativas apresentadas e se aprimoram nos treinamentos para alcançarem o podium. Uma minoria consegue sucesso, como se fosse uma mágica mística. Venceram os obstáculos, como a jovem de comunidade carente – a judoca dourada Rafaela Silva – da Cidade de Deus, na Zona Oeste do Rio de Janeiro, que está mais para a "cidade do diabo", quer pela violência, quer pelas precárias condições de vida, sem contar os tiroteios. Rafaela Silva é uma heroína, tal qual o jovem baiano Izaquias Queiroz de Ubaitaba, perto da paradisíaca praia de Itacaré, que transformou o sonho em realidade, ao conquistar três medalhas na modalidade - canoagem - nessa Olimpíada carioca e quase universal. O investimento na Olimpíada foi caríssimo (quarenta bilhões de reais, fora a possível taxa extra). Com o retorno financeiro, fruto do trade turístico, o resultado apurado jamais será contingenciado para o setor educacional, pois a educação não reverte em voto. É público e de larga notoriedade que o primeiro mundo se construiu, pelo braço forte do conhecimento, através das pesquisas tecnológicas desenvolvidas nas Universidades. Uma curiosidade: recentemente num plebiscito, a pequena e rica Suécia rejeitou sediar a Olimpíada. Porque? Abaixo da linha do Equador, quase tudo se opera com mais dificuldade. As conclusões mais percucientes são livres e imponderáveis.
20 de janeiro de 2016
Chico Buarque
Um poeta de altíssima sensibilidade. Inserido há muito na discografia
brasileira, pois pertence a quaisquer galerias da arte da literatura ou da
música popular. É assim que o vejo desde os festivais da música popular
brasileira. Sergio Buarque de Holanda, pai do poeta, com largo conhecimento da sociólogia brasileira, tendo lançado - Raízes do Brasil - livro obrigatório nas faculdades do ramo. No início da década de 1930, se aventurou como editor do
jornal "O Progresso" de Cachoeiro do Itapemirim no Espírito Santo. Isto posto, a ascendência
do compositor é de boa cepa intelectual. Chico Buarque foi exilado na Itália durante a ditadura
militar de 1964. Período de exceção que não deixou saudades. Diante do mar de corrupção que assola o país (em proporções e sofisticações jamais registradas)
nos últimos doze anos, o poeta tem defendido equivocadamente as teses do atual
governo, contra às evidências. No rastro dessas digressões, a posição do vate não macula a irretocável
obra artística e literária que legou ao povo brasileiro. A democracia
outorgar-lhe a garantia de pensar e agir como lhe aprouver. A história é
implacável.
16 de janeiro de 2016
O trovador Paulo Pinheiro Freitas
MIMOSO DO SUL
NAS ÁGUAS E ARRROIOS RESPLANDECENTES,
NUM MILAGRE DE LUZES E DE CORES.
PELAS MANHÃS SUBLIMES E RADIOSAS,
HÁ CRIANÇAS BRINCANDO NOS TEUS BOSQUES
E EM TEUS JARDINS VIVEM SORRINDO AS ROSAS
PARA A FESTA DE RÚTILAS ABELHAS
- AS ROSAS DESLUMBRANTES E VERMELHAS.
CIDADE DOS ARROIOS E DOS PÁSSAROS !
O autor nascido em Rio Novo do Sul(ES)., diplomou-se em 1924
na Faculdade Nacional de Direito no Rio de Janeiro, tendo percorrido diversas
cidades capixabas como servidor público, de alta retidão moral e ética. É membro da Academia Espiritossantense de Letras.
Eis mais uma trova desse grande vate:
Aquela formosa imagem
Que eu julgava estar bem perto
Foi apenas uma miragem
Nas areias do deserto
A vida é feita de dor
De tristeza e sofrimento
Tudo que vive de amor
Sempre termina em tormento
As quadrinhas mais bonitas
E perfeitas que componho
São pelos anjos escritas
E ditadas pelo sonho
Éolo
Éolo, deus do vento, deu a Ulisses um alforje que guardava todos
os ventos. O deus que lhe presenteou, alertou-o que o bornal jamais deveria ser
aberto. Na tumultuada viagem marítima que empreendia, era um indicativo para chegar
seguro ao destino, a cidade de Ítaca. Penélope mulher dele, esperava por dez longos anos, segundo a
narrativa épica do escritor Homero no livro - Odisseia - que viveu 500 a.C. Durante o trajeto, num cochilo de Ulisses,
os marinheiros curiosos - na expectativa de encontrarem ouro - no alforje, o abriu.
O mar se revoltou e Ulisses voltou à estaca zero. A curiosidade é uma anti-virtude,
mas é também uma grandeza, pois a pesquisa é coadjuvada pelo espírito curioso
do cientista. Alexandre Fleming (1881/1955) encontrou a penicilina, ao espirrar sobre uma lâmina. Esse revolucionário
antibiótico salva milhares de vidas. Outro
caso de curiosidade à moda marinheiros de Ulisses ocorreu-me quando ganhei um
trenzinho de corda, em um natal. Com trilhos, e quando
acionado soltava uma pequena fagulha pela chaminé por cima da casa de máquinas.
Utilizei demais o pequeno e inteligente brinquedo, pois a ferrovia e os trens são
parte do meu inconsciente. A minha felicidade
durou pouco, com chegada de um querido primo que alertou-me, pois estava a dar pouca corda no mecanismo. Meu primo ao
me corrigir a rodar a chave, quebrou o meu passatempo.
9 de janeiro de 2016
Trovões
Numa avaliação existencialista, a esperança pode até ser uma propaganda enganosa. Mas abrir mão dela é divorciar-se do mundo.
A vida é um prêmio. Sócrates (400 a.C) abriu mão dessa
premiação, pois havia o recurso no julgamento dele,
em pedir perdão ao Conselho de Sentença Grego. Se tivesse procedido assim, talvez teria se
livrado da morte. Não o fez. E dignou-se a
beber a cicuta. O sofrimento humano é mitigado através do circo, seitas, doutrinas, religiões e outras, calcado na expectativa de uma outra vida muito melhor. Há controvérsias. Por serem dogmáticas e sabujas, essas instâncias
místicas não enfrentam a realidade de frente. Historicamente se omitiram durante os
trezentos anos da escravidão no país, e nas demais nações escravagistas. Mas
essa matéria, não é bem recebida em alguns setores da sociedade. Esquecendo os descalabros
do passado, surgem nos vetores midiáticos, robustas notícias sobre corrupção pelos sete mares. Todas
capitaneadas - nos últimos doze anos - pelo brazilian government establishment.
Coexistir com esses fatos, é como assistir um filme de terror,
numa noite de tempestade com descargas atmosféricas, e sons tonitruantes.
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