10 de abril de 2017

Teresa Fênix - 34a. Parte

A futura mãe estava  a sorrir,  principalmente quando ouvia alguma referência sobre  a  gravidez.  A avó incumbiu-se de costurar à mão uma peça de recém nascido. A mãe dentro da cultura  sul-americana,  mergulhou nas águas abissais do desejo da filha única. E iniciou-se a aquisição  do enxoval, com o  mais apurado gosto. Na casa de Maria Guadalupe o tempo girava em torno do nascimento do neném. O futuro avô materno vaticinava dissimuladamente, se fosse homem, sugeria o nome dele. A mãe e a filha,  desconversavam sobre essa possibilidade. A compra do berço, pintura do quarto, viagem ao México, enfim agenda assoberbada. Ulisses ficou marginalizado diante do importante evento. Mesmo tendo sido coadjuvante,  o prestígio caiu. O foco das atenções foi alterado. Lembrou-se da crônica do Artur da Távola( 1936/2008), cujo texto, em alguns casos, o homem  é simplesmente o colocador de  semente, e só.  Ulisses assim se sentia. Todavia,  bem cedo aprendeu com o preceptor dele, o grego,  que o silêncio é sábio. Ulisses mudou-se para a casa da namorada. E sentia feliz pelo neném. Não era expectativa dele, ser pai tão rapidamente. Outro remetente num contexto próximo,   também no  espaço  e no  tempo, e personagens díspares, eis o curto diálogo: Como isso aconteceu? Você uma mulher experiente,  se deixou engravidar? Vc sempre afirmou,  não queria mais filhos. Pois é mãe de três adolescentes. Pensou por alguns segundos,  e sorridente  retrucou: ele é que  não soube brincar. Um aforismo popular,  à propósito.

26 de março de 2017

Teresa Fênix (33a. parte)

O marinheiro helênico  deu de ombros, diante da proposta estapafúrdia de Teresa Fênix. E seguiu em frente, dessa vez visitando uma instituição,  cuidadora de crianças e jovens  portadoras de necessidades especiais. Dentro do espaço da meninada,  ele se detinha mais no diálogo com aqueles acometidos pela Síndrome de Down(distúrbio genético causado pelo cromossomo 21 extra, conhecido como cromossomo do  amor. O resultado da pesquisa se deu em 1862, pelo cientista inglês John Langdon Down), era uma atitude isolada, era  da sua própria  lavra.  O comandante depois de algumas visitas se transformou em voluntário, prestando serviços de todos matizes. Conquistou a amizade dos  internos. Ensinava o que se supunha saber, ou seja, contando histórias  da navegação marítima. Trouxe de casa as fotografias das viagens transoceânicas, réplicas de diversas embarcações do passado e da atualidade, e inclusive do navio com o qual atravessou o acidentado e perigoso estreito de Magalhães. Eram tantos os questionamentos da petizada, alguns repetitivos. Mas ele não se importava com as perguntas reeditadas. E não percebia que  tempo passava celeremente. Intuiu que a solidariedade era um vetor importante de realização pessoal.  A memória do comandante viajava pelos mares navegados e a navegar. Os   flashes mentais iluminavam-lhes as recordações.  A propósito sobre lembranças e memórias, eis a narrativa:    Os vinhos generosos melhoram muito ao passarem pela linha, pela evaporação das partículas aquosas, assim também a recordação se purifica ao perder as partículas da memória, sem que por isso se desvaneça em fumo, como também não acontece aos vinhos generosos. Tal assertiva filosófica é do dinamarques   Soren  Kierkegaard (1813/1855) n'O banquete. 

12 de março de 2017

Teresa Fênix (32a. parte)

O  marinheiro grego vivia o teatro shakespiriano, onde a (in)certeza dominava o pensamento, quanto a resolver ou não uma dependência de Teresa Fênix, fruto inexorável de uma monumental carência. Quem diria esse grego-filósofo se render aos encantos de uma nativa dos trópicos? A distância das afinidades aumentava a cada encontro furtivo. Mas a atração física preponderava ( ou outro sentimento, compensação ou comiseração). Era do conhecimento dele, esse comportamento,  são  complexidades do enigma amoroso, autênticas  dúvidas traidoras,  aliadas metálicas do medo de se  arriscar. E para agravar o momento, Teresa Fênix estava tendo  suporte financeiro  do  ex-namorado. O grego mediterrâneo não se sentiu confortável ao tomar conhecimento dessa novidade. Entrou em alfa. Meditou durante sete dias e sete noites. E não vislumbrou no imaginário, um porto seguro para ancorar o navio cheio de sofrimento, a lhe aturdir. Teresa Fênix numa manhã nublada, lhe procurou e após os cumprimentos de praxe,  convidou o Capitán dos sete mares,  a viajarem a uma praia deserta próximo a Marroquin (perto da histórica igreja N.S. das Neves, no município de Presidente Kennedy/ES,  construída em 1581 pelo puris, botocudos e escravos africanos, sob o chicote do jesuíta espanhol Padre Almada).   Nos primeiros instantes o  grego entrou em parafuso, e ficou furioso. 

3 de março de 2017

Teresa Fênix (31a. parte)

Na ausência de uma pousada na região, Maga Psicológica  pernoitou por favor,  na venda de Secos e Molhados, dormindo sobre sacos vazios de cereais. E pela manhã tomou o ônibus de volta. Cabisbaixa e meditabunda,  após  a total negativa do pai do Chefe  em recebê-la,  se sentiu arrependida e  também impotente. O arrependimento foi não ter dito a ele, que seria morto se não atendesse a reivindicação dos criminosos. E a impotência por não tê-lo peitado. Ela ainda mantinha no recôndito da alma, uma anêmica  esperança em reconquistar  aquele que foi um grande amor na vida dela. Enfim chegou ao destino final, cansada e tensa. Tocou as tarefas diárias de acordo com a rotina que a vida  lhe impunha. Após três semanas, Maga Psicológica recebeu uma ligação, na qual o interlocutor não se identificou, informando que o rico cabouqueiro tinha sido morto.  Maga se descompensou e desmaiou. A vizinha   socorreu levando-a ao hospital local. Em pouco tempo a notícia se alastrou e na boca da noite, o noticiário midiático comentou o homicídio. Foi um crime perverso, pois a vítima lutou  bravamente com o agressor.   A arma branca do crime foi uma  peixeira. Esfaqueado várias vezes, ele  sangrou  aos borbotões. Num ato terrorista o  homicida cortou-lhe a cabeça, à moda islâmica jihadista. Deixando no chão um pequeno amuleto de cor vermelha, podendo conter no interior do patuá uma oração, ou uma prática mística. Quando da ocorrência do assassinato,   José do Egito não estava ausente da propriedade. Um curioso fato ocorreu, semanas antes do crime:  convidado a participar de uma gira do Candomblé Kêtu(*), da tradição Iorubá -  José do Egito,  foi batizado como Sebastião Querino no Terreiro Ilê Axé Opô Afonja -  localizado na periferia soteropolitana. Para tomar novo rumo na vida e esquecer o passado, trocou  de nome quando se converteu a doutrina  kardecista. Nos grotões dos brasis, o expediente dos pseudônimos  é quase corriqueiro.     Contra a vontade, aceitou o convite. Durante a  sessão aconteceu a incorporação do Exú caveira,  entidade de má reputação entre os orixás. O espírito materializado avisou-lhe que o patrão dele iria morrer. Adiantou que foi um pedido forte  num terreiro baiano. José do Egito contou tudo  a  ele, contudo  em nada acreditou. 

(*) Pesquisa, O Negro no museu brasileiro - Ed. Bertrand Brasil, 2005 - Autor: Raul Lody

28 de fevereiro de 2017

Teresa Fênix ( 30a. parte)

Ela chegou dentro do tempo  previsto, na casa do ex-amante.  José do Egito, antigo colono  e meeiro da fazenda a recebeu gentilmente. Maga Psicológica  de pronto disse da imperiosa  e urgentemente necessidade,  de se  falar com dono da propriedade rural. Sob o alpendre da casa bem conservada, sentou-se e sentiu uma ligeira tonteira. Em seguida, o ouviu nítido  e  altissonante, vociferar: Não falo com essa muié !  Manda ela ir embora. Assim falou o pai do Chefe. José do Egito ao chegar na varanda encontrou Maga Psicológica caída e estrebuchada,  se debatendo no assoalho. José do Egito, iniciado no candomblé, fez-lhe uma oração. O dono das terras, chegou e afirmou que ela tinha incorporado a  Pomba Gira,  e que pertencia a umbanda, e considerada veterana e temida feiticeira. O colono José do Egito,  falou firmemente ao patrão,  não era  nenhuma entidade do sincretismo de matriz africana. Ela precisava de um médico. Gradativamente ela foi recobrando os sentidos mais elementares, e pediu água com açúcar. Disse ao José do Egito, que  teve uma crise  hipoglicêmica, causada por forte impacto emocional. E que de outras vezes o mesmo havia lhe  acontecido. Maga Psicológica estava vivendo o drama de contar ou não,  ao fazendeiro, sobre o risco de vida que correria, caso não  desse dinheiro para o filho presidiário. Os internos possuem redes organizadas de comparsas para executarem com frieza os desafetos.

19 de fevereiro de 2017

Teresa Fênix - 29a. parte

A jovem panamenha foi sozinha ao laboratório,  para enfim  tomar conhecimento  do esperado resultado do teste da gravidez. Tensa, ainda em casa, tomou um forte ansiolítico e partiu para dirimir a dúvida, se estava  esperando  neném. O diagnóstico indicou que estava grávida.  Então as comportas lacrimejantes abriram-se.  Desnorteada, feliz e preocupada,  estressadíssima  foi atrás de Ulisses. Não o encontrou. Foi para a casa. Inventou uma coragem,  e contou tudo para a mãe dela. E teve uma grata surpresa, pois a madre acolheu-a  abraçando-lhe disse: bueno serei abuela.(*). Ambas choraram durante um bom tempo, até que o pai chegou, e tomou conhecimento do inédito fato,  e juntos o trio se emocionou. Maria Guadalupe, falou aos pais sobre a promessa feita a santa mexicana, Virgem  de Guadalupe, padroeira do México e da América Latina. A aparição se deu em 1531, e guadalupe na língua azteca significa perfeitíssima. Adiantou que teriam que viajar até ao México, antes do nascimento do bacuri(**). O clima era de festa. E os copos "shot glass" foram lavados e enxutos. Limão, sal na língua e tequila. Essa bebida é  produzida pela  agave-azul(planta, talvez prima do cactus) na cidade de Tequila, na região de Jalisco.   O casal bebeu vários tragos, sem contudo ficarem borrachos(***)

* avó
** menino 
*** bêbados

16 de fevereiro de 2017

Teresa Fênix (28a. parte)

Maga Psicológica se preparou para enfrentar o ex-amasio  para atender o pedido do filho apenado. Fez uma pequena reunião de família, no sentido de alertar os parentes, caso lhe acontecesse algum atentado, informou que o maior suspeito seria o ex-amante.  Alguns membros da família, por segurança,  aconselharam-lhe a cancelar a viagem. Maga Psicológica não atendeu os familiares. E começou traçar o roteiro da aventura. O destino  era secreto. Era necessário fazer diversas baldeações de busão. Em dois dias chegaria no lugarejo indicado pelo contador do cabouqueiro,  num rasgo de boa vontade deu-lhe o endereço, mas  exigiu silêncio absoluto. O périplo da Maga Psicológica chegou ao fim numa sexta-feira 13. Na beira de uma estrada vicinal, apeou junto a uma Venda de Secos e Molhados, notou  na parede lateral do modesto estabelecimento, um velho almanaque, estampando uma  propaganda do medicinal  biotônico fontoura. No passado distante, esse remédio era ministrado para a juventude como fortificante,  uma colher de sopa antes das refeições. Exposto estavam também, o anil, velho alvejante,fumo de rolo, calça brim-coringa, linguiças de porco penduradas, fubá grosso de moinho de pedra, sardinha salgada, arroz, feijão, rapadura e os fregueses contumazes chupitando uca curtida em losna(absinto) ou carqueja. Era uma casa sortida nas tradições brasileiras.  Ela tocou o relógio do tempo, e veio a lembrança. Duas lágrimas rolaram. Restabelecida da emoção passageira,  se informou como chegaria no lugar conhecido como Cotovelo. Distava sete léguas de onde se encontrava. Uma charrete a um preço justo, toda pintada de amarelo ovo,  a levou na fazenda do irascível  empresário de pedras cortadas no estilo paralelo e outros.   

27 de janeiro de 2017

Teresa Fênix 27a.parte

Maga Psicológica estava diante da difícil  tarefa  patrocinada pelo filho, que  se encontrava preso, e na última visita incumbiu-lhe de  arrancar dinheiro do pai. O genitor    considerava o Chefe, como  filho de uma  aventura,  como sempre falava nas vendas da zona rural, após  beber vários  cipós-grau, cabendo a secular frase em latim: In vino veritas(*). Jamais exerceu a responsabilidade paterna. Tratava  os empregados e desconhecidos  com grosseria, e total ausência de uma razoável educação. Era um indivíduo truculento. Se portava como um coronel da República Velha(1889/1930), pois usava arma de fogo (sem autorização) e dois asseclas lhe davam segurança. Acessar o pai do Chefe era uma missão desconfortável, pois ele sempre negou peremptoriamente a receber a mãe do filho dele. Na pequena cidade próxima das atividades empresariais, havia um medroso e subserviente técnico em contabilidade, o qual cuidava dos interesses do rico cabouqueiro. Se lhe perguntassem, nada informava sobre esse importante freguês. Maga Psicológica foi ao técnico contábil, cujo apelido era  Zé Champruca e expôs a dramaturgia na qual estava a coexistir. O guarda-livro ficou temeroso, quanto a ameaça de morte  ao rentável cliente. Zé Champuca coçou a cabeça nervosamente. Foi ao banheiro e retornou em bicas, suando frio. O pânico lhe tomou conta, pois se lembrou de um caso semelhante, quando o tio desse profissional contábil, foi executado (no interior das Minas Gerais, num arraial conhecido como Conceição do Mato Fora) a mando  do filho(que cumpria pena por homicídio doloso) e primo de Zé Champruca, numa  infortunada tentativa de extorsão 

(*)No vinho está a verdade.

15 de janeiro de 2017

Teresa Fênix - 26a.parte

Maria Guadalupe meditava dia e noite, como poderia abordar aos pais dela,  a proposta de Ulisses de se casar  intempestivamente. com parcos argumentos. Mas não desistia em buscar uma saída pelo impasse.  A mãe bastante rígida nos conceitos ibéricos, herdados, sob a ótica da moral hispânica (aliás nada recomendável em termos históricos). Resolveu  falar ao pai dela, pois era  uma melhor escuta. Enquanto tempo voava numa velocidade supersônica, Maria Guadalupe não conseguia estudar ou ver televisão,  durante a passagem desse vulcão de grandes proporções. Decidiu ganhar tempo(nem tanto), para alinhar os pensamentos. Passaram-se alguns dias, e faltava-lhe coragem para estabelecer o embaraçoso diálogo paterno. Eis que de repente, algo de estranho aconteceu. Observou que na data quase costumeira, não  se menstruou. Poderia estar grávida? Avaliou consigo, o absurdo possível. Alados em formação de ataque: um vulcão e um tsunami. A possibilidade de estar grávida invadia-lhe a alma. Era o fim do mundo, pensava Maria Guadalupe.  Necessário seria exame laboratorial para se confirmar ou não a suspeição da  gravidez. Consultou-se a um médico particular, pagando-lhe com a mesada recebida, e  em seguida submeteu-se ao exame adequado. Pela ansiedade da jovem Maria Guadalupe, o resultado sairia em dois longos dias de expectativa.

31 de dezembro de 2016

Teresa Fênix - 25a.parte

O Chefe mandou recado para a mãe, que o visitasse com urgência. O mensageiro agudizou a   importância da presença da  Maga Psicológica, e passou-lhe uma imensa agonia, provocando-lhe uma   extra-sístole, pois era portadora de uma severa  cardiopatia. Maga Psicológica tomou os remédios costumeiros, e depois de um intervalo se sentiu mais confortável. Numa manhã ensolarada, de sombrinha estampada, com passos curtos, foi a rodoviária, e comprou passagem e embarcou num daqueles ônibus sem ar condicionado, mas aguentou firme até chegar ao destino. Ao chegar no presídio, a costumeira  fila estava longa demais. Diante do desconforto, abordou a agente penitenciária e invocou a mais recente idade de 60 anos, e questionou  a fila especial para idosos. Foi imediatamente atendida. No encontro com o Chefe, o diálogo foi rápido e objetivo por parte do filho-meliante. Disse secamente a mãe, estar precisando  de muito dinheiro com urgência. E que ela procurasse o pai dele. Caso ele se negasse a atender o pleito, fez-lhe  ameaça, dizendo a Maga Psicológica,  que o pai estaria correndo risco de vida. Uma tragédia anunciada, ou não.  Maga Psicológica ficou atônita, e a sensação de ter perdido  a ponta da corda. Apoplética, deu início ao  um choro convulsivo, em seguida caminhando trôpegamente foi embora,  e sequer despediu-se do rebento. A mãe do Chefe de ascendência  teutônica, possuía no  DNA,  vestígios que incitavam-na a lutar, mesmo sabendo das intempéries pesadas a serem enfrentadas. 

22 de dezembro de 2016

Teresa Fênix (24a.Parte)


Teresa Fênix introjetou o drama entre o primeiro amor, e a outra realidade exógena, pelo menos, enquanto o Chefe estivesse internado no presídio. Nessa  dicotomia, ia balebando entre o céu e o inferno, ambos terrestres. Na busca da sobrevivência, contava com ajuda bissexta do  pai, para dar-lhe suporte mínimo, considerando as crônicas dificuldades. Nas ruas mornas da pequena cidade, todos se conheciam de vista, pelo menos. Teresa Fênix usava uma bicicleta doada pelo grego. Numa dessas incursões, encontrou o Comandante, e aproveitando a coincidência pediu-lhe  cesta básica. Diante do pedido (irritado, perguntou a si mesmo: o que fazer?) e  lembrou  como chegou até a mesma cidade de Teresa Fênix. E o fato transitou nos mecanismos cerebrais da memória. Eis o relato: em 1933, o vapor mercante de bandeira grega, incendiou-se na costa do Espírito Santo. Sobreviveram 27 tripulantes, dentre eles o pai de Theodorakys Pitacus, que era o comandante do vapor cujo  nome estava registrado na Capitania dos Portos, como Konstanti. Theodorakys Pitacus tal qual o pai, se matriculou na  Escola de Marinha Mercante em Atenas. Como oficial, singrou os sete mares, e por curiosidade quis conhecer onde o ex-Primeiro Oficial do Konstanti, primo do pai dele, tinha morado. Havia a informação que teria lecionado  química, numa escola pública no extremo sul,  do cambaleante estado do Espírito Santo. Theodorakys Pitacus resolveu sentar praça, na pequena cidade, até que ventos fortes o conduzissem    para outros mares.  Talvez por ser errante (in)consciente, poder-se-ia  remeter  ao Comandante holandês da ópera Navio Fantasma adaptada por  Richard Wagner(1813/1883) ao navegante grego. Segundo a lenda, o marujo holandês estava  condenado a navegar, todavia a cada 7 anos, poderia ancorar na costa para tentar encontrar o amor dele, caso contrário, voltava aos oceanos. O timoneiro grego talvez estivesse a coexistir com  uma dualidade, na busca de uma vida familiar, ou desafiar os limites da existência humana.

18 de dezembro de 2016

Os curumins sofrem



Príncipe da poesia brasileira, essa titulação,  foi  outorgada pela ABL – Academia Brasileira de Letras - ao poeta Olavo Bilac(1865/1918). No poema “Língua Portuguesa”, de autoria bilaquiana, eis os seguintes versos iniciais: A última flor do Lácio, inculta e bela/És a um tempo, esplendor e sepultura”. O continente americano do sul, acrescentando-se o Caribe e suas ilhas, sem contar o México,  foram todos estuprados  pelos espanhóis. O único a falar português, herança do colonizador, além da sífilis, e que foram  iguais aos hispânicos, é o Brasil do índio Tibiriça. Esse é o mesmo Portugal, velho sabujo dos ingleses. A igreja católica muito mais pecadora do que santa, com  os seus jesuítas, no início da colonização do do Brasil de Ary Barroso(1903/1964), tentaram uma improvisada  e positiva  pedagogia lingüistica através de um sincretismo semântico, com a linguagem tupi e o idioma do colonizador. A metodologia fluiu com sucesso. E a comunicação foi facilitada entre os índios e os ibéricos. Até que a coroa lusitana, tomou conhecimento e proibiu com fuzilamento os infringentes. Se história tivesse sido outra, talvez Olavo Bilac tivesse escrito assim: És a um tempo esplendor e belezura, ou nada disso..contudo, jamais a  lúgubre sepultura, ou  é?  E com certeza teríamos uma linguagem mais popular, com menos normas e regras. E os conflitos lusófonos,  não existiriam com o conservador Portugal. Agora não tem mais jeito, os curumins sofrem.

17 de dezembro de 2016

Teresa Fênix - 23a. parte

Ulisses entrou em alfa, mergulhando numa reflexão para sair da sinuca de bico, na qual se encontrava. Combinou com a namorada que precisava da clausura do  quarto do hotel, para pensar. Tão logo se sentiu seguro da decisão, imediatamente foi a casa de Maria Guadalupe. Fez um longo relato sobre a vida dele, e confidenciou fatos a panamenha que guardava à sete chaves. E meio sem jeito, com tamanha timidez disse que a amava, e não desejava voltar ao Brasil(por tempo indeterminado). E de súbito, propôs-lhe se casarem. Ela quase desmaiou. Não sabia se ria ou se chorava. Atônita, adiantou-lhe que os pais dela não concordariam, pelo tempo tão exíguo de conhecimento. Ulisses tenso, disse-lhe que o casamento resolveria a permanência no Panamá. Ele se desesperava na possibilidade da família dela, levantar a menor suspeita que  estivesse se comportando como oportunista. Afirmou a namorada, ser o tempo o grande aliado dele. Maria Guadalupe, tomou a decisão de lutar para a aceitação daquela decisão intempestiva, contudo sincera. Resolveram comemorar o acontecimento, degustando um galeto no Fry Chicken. Maria Guadalupe sorria, e de repente, séria. A dúvida invadia-lhe o raciocínio, se a família  concordaria ou não.

15 de dezembro de 2016

Adega Pérola



Cumulus nimbus, nuvens  plenas de água, que por fenômeno climatológico  se soltam como chuva, e irrigam, fertilizam, limpam e saciam a sede da humanidade. Dizem que a flora é a moldura da terra, como se fosse a madeixa dela. A chuva goteja, pinga, filtra e inunda. Os ribeirinhos correm velozmente para o rio maior, e diluem-se num outro, e se misturam na água salgada, e nos sete mares  perde o seu paladar original para sempre.  Chove copiosamente, à cântaros, a canivetes na terra dos índios puris, primos dos avá-canoeiros. Na chuva assim, os passarinhos se ausentam, bem como o encantador beija-flor.  Com a umidade, as asas molhadas ficam pesadas, e comprometem a aerodinâmica dos voos. Os riachos golfam sem parar. Então o nível da água sobe, sorrateiramente. E  invade  a cama, as roupas, os retratos da família,  os livros de autoria de  Jorge Amado, Jorge Luis Borges e Tchecov. Perdem-se  memórias. Ela se repete, de quando em vez, até  tornar-se igual o mal de Alzheimer. Jorge Alberto, índio aculturado, meu amigo, e contumaz frequentador da Adega Pérola, ensinou que não há enchentes nas florestas, acontecem as cheias que fazem parte da fenomenologia regional.

14 de dezembro de 2016

Evaristo Arns



Ele morreu ontem em São Paulo. Foi bispo da Igreja católica progressista. Estudou durante cinco anos na famosa Sorbonne em Paris, onde se doutorou em letras e línguas clássicas. Declarou que aprendeu mais com os pobres do que na Sorbonne. A igreja católica na sua organização possui cerca de 170 ordens religiosas, e Dom Evaristo Arns pertencia a Ordem dos Franciscanos. Ao receber o cargo de Arcebispo de São Paulo, vendeu o Palácio Episcopal destinado a ser residência dele, e construiu 1200 centros comunitários na periferia de São Paulo. Na ditadura militar enfrentou o general presidente de plantão nos anos 1970, de fala mansa, contudo com firmeza, reivindicou o fim da tortura e julgamento para os acusados. Era irmão da abnegada Zilda Arns, morta no terremoto do Haiti, em 2010. Foi amigo do Papa Paulo VI, e perdeu espaço,  quando a corrente dos progressistas católicos se enfraqueceram enquanto tendência nas hostes do  Vaticano. E por último foi o  idealizador do livro Brasil: Nunca Mais, que trata dos desaparecidos na ditadura militar que durou lamentavelmente  18 anos, de ausência de liberdade de expressão. Ele transcendeu o lado contemplativo da mística religiosa, e corajosamente se colocou ao lado dos oprimidos. Evaristo Arns, é a parte mais consequente  da história do Brasil.