14 de dezembro de 2016

Evaristo Arns



Ele morreu ontem em São Paulo. Foi bispo da Igreja católica progressista. Estudou durante cinco anos na famosa Sorbonne em Paris, onde se doutorou em letras e línguas clássicas. Declarou que aprendeu mais com os pobres do que na Sorbonne. A igreja católica na sua organização possui cerca de 170 ordens religiosas, e Dom Evaristo Arns pertencia a Ordem dos Franciscanos. Ao receber o cargo de Arcebispo de São Paulo, vendeu o Palácio Episcopal destinado a ser residência dele, e construiu 1200 centros comunitários na periferia de São Paulo. Na ditadura militar enfrentou o general presidente de plantão nos anos 1970, de fala mansa, contudo com firmeza, reivindicou o fim da tortura e julgamento para os acusados. Era irmão da abnegada Zilda Arns, morta no terremoto do Haiti, em 2010. Foi amigo do Papa Paulo VI, e perdeu espaço,  quando a corrente dos progressistas católicos se enfraqueceram enquanto tendência nas hostes do  Vaticano. E por último foi o  idealizador do livro Brasil: Nunca Mais, que trata dos desaparecidos na ditadura militar que durou lamentavelmente  18 anos, de ausência de liberdade de expressão. Ele transcendeu o lado contemplativo da mística religiosa, e corajosamente se colocou ao lado dos oprimidos. Evaristo Arns, é a parte mais consequente  da história do Brasil.

10 de dezembro de 2016

África

 O mundo seria preto & branco sem a África. E a música seria oca, feito maracujá sem semente.  Como viver sem as composições de     Zé Keti(1921/1999) e  Thelonius Monk(1917/1982), representando respectivamente  o samba e o jazz? Instiga-me a citações como Bessie Smith(1894/1930 e Clementina de Jesus(1901/1987). Todo o caleidoscópio das canções:  alegria e melancolia, vem do continente africano. As etnias  são verdadeiras alegorias de cores variegadas e  remetidas ao espetáculo das Escolas de Sambas, Quase 400 anos de herança africana e indígena, ambas vivas, apesar do insensato poder público. Guardadas as recomendadas proporções, ao citar  Harvard, Oxford ou Manitoba, enquanto história da cultura popular, brasileira carregada de crenças, lendas e outros vetores para coadjuvar nas interpretações ontológicas(onde pouco sabemos), há um rico conhecimento depositado pelos atavismos indígenas/africanas, carecendo de pesquisa pura. Nada se sabe da África, a não ser parcialmente sobre a sofrida escravidão, inventada e mantida pelo homem, (ser perverso vestido de fraque e chapéu côco). O continente africano é denso, pois são trinta milhões de quilômetro quadrados. A diversidade cultural é incomparável, destaque para a arte mística e mítica, e seus cânones. Máscaras, estatuetas em terracota, tambores e tantos outros símbolos, são os fetiches da nação africana. As gravuras rupestres incrustadas nas maciços siderúrgicos, significa pista para  pesquisar a origem, os   costumes desse mágico, poético e colorido  território. A nós da terra brasilis, onde corre as hemácias africanas, ignoramos a  gênese do colonizado. Viemos do Benin, Angola e alhures. Oruku ni mi Africa(em iorubá: me chamo África). 

30 de novembro de 2016

Teresa Fênix (22a.parte)

Ulisses usinava pensamentos em progressões geométricas, até que viu uma revista na banca de jornal, cuja página aberta e no canto direito abaixo, o pequeno  anúncio:  teste vocacional gratuitamente. Falou consigo mesmo: vou me submeter. As mensagens do grego vieram na memória dele,  que sempre lhe dizia, ser importante ter  conhecimento da filosofia, para melhor indicar conceitos sobre a vida, e do mundo, que parece estar atravessando o Rubicão. Mesmo seguindo carreira profissional no campo das ciências exatas, reconhecer as crenças, lendas e os códices ontológicos que norteiam a humanidade. Absorver práticas holísticas, na interação  com as  diversas fases da estratificação social. Foi ao local indicado pelo anúncio e se inscreveu para se submeter  ao teste. Permaneceu durante um bom tempo, respondendo as perguntas. Após uma semana, foi lhe informado o resultado. Ele recebeu por escrito, e com ajuda de Maria Guadalupe, na leitura interpretativa na linguagem hispânica, indicou-lhe a   vocação recaindo para física, química e engenharia em geral. Ficou decepcionado, pois Ulisses torcia que o exame inclinasse parcialmente para o viés da área humana, pois estava gostando de ler "A República" de Platão, e planejava conhecer outros ícones da filosofia, estava embutida uma simplória   homenagem ao Comandante Pitacus Theodorakys.

22 de novembro de 2016

Teresa Fênix ( 21a.parte)

Ulisses a cada dia vivido no Panamá, aumentava o afeto por Maria Gualupe em proporções geométricas. E de quebra passou a se interessar bastante pela cultura panamenha. Adotou o traje  das elegantes e confortáveis guayaberas. Às vezes ficava em  alfa para refletir o futuro. A mãe instável, pela convivência com Chefe, que sob  efeito da droga a espancava e privava-lhe a liberdade. Ainda menor, muitas dessas cenas foram presenciadas por Ulisses. O grego por quem nutria carinho paterno, não avançou no relacionamento com  Teresa Fênix. Mesmo abstraindo a gama de informações e conceitos consolidados, a egolatria dela não permitia que os corações se encontrassem. Ulisses se sentia fragilizado. Buscava uma vida alternativa, com traços qualitativos. Intuía na possibilidade de modificar o seu modus vivendi. Não imaginava as barreiras a serem enfrentadas num país estrangeiros. Uma delas é a pronúncia da  língua hispânica  na América Latina, por ser  falada muito rapidamente parece terem um ovo na boca, atrapalhando a inflexão dos fonemas(como comentou certa vez o escritor Artur da Távola, todavia reconheceu ser na Bolívia, o castelhano mejor hablado). Com tempo dominaria a linguagem do poeta chileno Pablo Neruda(1904/1973). A saída de se casar, talvez fosse a mais factível forma de permanecer naquele país, legalmente. Ulisses de então, era muito jovem. E sua mãe ao saber, talvez  viajasse até Ulisses para impedir a possível união.   Como bom enxadrista, se pôs a pensar.

21 de novembro de 2016

Teresa Fênix 20a.parte)

O Comandante Pitacus Theodorakys, tomou conhecimento que Teresa Fênix  passava por necessidade famélica, tal informação aconteceu, quando lhe foi apresentado ao cunhado dela, apelidado de Carlinhos da Nicinha, sabedor do affair havido com a Teresa Fênix. No diálogo, lamentou que o namoro do Comandante não foi à frente, pois de longe o admirava, por possuir amigos em comum, que o avaliam ter o Comandante, um bom conceito  da vida e do mundo. O cunhado falou ao grego, que Teresa Fênix tinha retornado ao antigo namorado. Carlinhos da Nicinha, adiantou que ela está a precisar do apoio familiar, e talvez de terapia psicanalítica(rejeitava médicos psiquiatras, segundo Teresa Fênix, eles a entupiam de remédios, causando-lhe sonolência  e raciocínio lento).  O grego era sabedor que em outras circunstâncias, o pai dela, foi inteiramente  relapso, deixava-lhe faltar alimentação. Existiu uma sinergia na  conversa com Carlinhos da Nicinha. O  cidadão de origem helênica sempre solidário,  a chamou pelo celular. E num breve diálogo, prometeu-lhe mandar uma cesta básica alimentar.  Ela  agradeceu. Não se importou quando ela disse ter passado uma noite, com o ex-namorado numa pousada na aprazível Iriri (balneário preferido do Comandante). Assim inquiriu o grego no silêncio da memória:  "a intenção dela foi provocar ciúme, ou a sensação de me sentir cornuto? Teria sido uma retaliação, pelo fato  não ter  pago o frete da mudança? E complementou: o  intento caiu na escuridão do espaço sideral. Nesse caso, me sinto Zorba, O grego"

20 de novembro de 2016

Teresa Fênix ( 19a.parte)

Por ser essa nação continental,  indígena e   afrodescendente, com hemácias lusitanas, e abaixo da linha equatorial, poder-se-á remeter a frase atribuída ao Maestro  Tom Jobim( 1927/1994): "O Brasil não é para principiantes". A burocracia existe pelos portugueses(que se sentem os melhores clones dos ingleses) quer para dar estabilidade ao manganos do serviço público, quer para evitarem o peculato. Quo simplicitor ordo, eo melior( quanto mais simples a ordem, tanto melhor). E praticando essas babaquices, surgem os despachantes, estelionatários et caterva. Nos presídios, os estelionatários, comumente de unhas feitas, cabelos bem cortados e trajados à moda esporte fino, são os mais simpáticos de todos os internos. Enquanto apenados, conseguem quase de imediato audiência com o diretor do presídio. Solícitos verbalizam os curricula vitae, e se disponibilizam para trabalharem nas instâncias, como a  biblioteca, escritório,gabinete dentário e outras  atividades laborais leves. Serviço braçal: neca de pitibiriba. Gentis, prestativos e falam suavemente. Professores que desenvolveram  didáticas para a freguesia da penitenciária. O Chefe localizou o mais sábio de todos os malandros. Foi ao Oráculo de Delfos da prisão. Era conhecido como Dotô Denis. Recebeu o Chefe no gabinete do dentista, onde era auxiliar, no dia da limpeza do consultório. Usou a cadeira e mesa  e despachou como profissional do crime como assim o era.  Acertaram que falsificaria o alvará de soltura, com papel timbrado e assinatura falseada do servidor maior do judiciário. Deveria entregar o documento durante as férias do  diretor. O preço do serviço foi caríssimo. Mas o Chefe pressionaria a mãe e o  pai (sempre) ausente.

6 de novembro de 2016

Teresa Fenix (18a.parte)

Naquele verão, os rios voadores (cursos de ares atmosféricos) vieram em grandes proporções, trazendo nuvens pesadas (cumulus nimbus) da região amazônica. Na época foram muitas centenas de  milímetros de chuva. A região onde se encontrava o Chefe, respingou muita água. As enchentes tornaram uma constante, e invadiram as galerias das águas pluviais e dos esgotamentos sanitários. Ambos subterrâneos. Todo o trabalho foi jogado por terra. A lama invadiu o túnel cavado pelos homens do Chefe. A depressão foi geral. O Chefe afirmou para os companheiros de cela,  que precisava de paz interior para maquinar nova estratégia de fuga. A prisão por si só, é uma antecâmara do inferno. Nada de  ressocializão. Há uma ausência de tudo. É a resposta que a sociedade encontrou para os criminosos.  Os dias são  lentos e entediados. Habitam-na mãos leves, e outras mãos manchadas de sangue. Nas prisões, a lei considera a fuga um direito do presidiário. Ou seja, a tentativa de fuga (não havendo intercorrência delituosa) no geral  não altera o tempo da reclusão. As motivações condenatórias são diversificadas. O estelionatário pode  ser possuidor(sem saber) da praxis metacognitiva, como método de pensar. Quase sempre é metido a ser autodidata e sedutor nas abordagens que se fizerem necessárias. Enfim, muitas das vezes os estelionatários  são por demais sagazes e velhacos. Sabedor das traquinagens desses embusteiros, o Chefe por ter uma cabeça multitarefa, vislumbrou mentalmente caminhos escusos para tentar evadir-se novamente do presídio. A cadeia não tem como não ser  um variado
 valhacouto.

4 de novembro de 2016

O passageiro que não bateu palmas.

Na estação do metrô no Largo da Carioca, conhecido como Tabuleiro da Baiana há várias décadas,  no confortável vagão desse trem subterrâneo, ar condicionado em pleno funcionamento, eis que surge um clarinetista e um  guitarrista, carregando um amplificador portátil, para dar suporte sonoro a suave guitarra de base. Um breve anúncio com sotaque hispânico, indicava que  tocariam. E quase todos os passageiros atentos, aguardando a apresentação dos artistas mambembes.   Logo o instrumento de sopro deu início ao mavioso solo, me fazendo lembrar do livro "Solo de clarineta" de Érico Veríssimo(1905/1975). Próximo de mim, um sério  passageiro não se movia. Não acompanhava o ritmo, quer com pé, quer com a mão desocupada. Sério permaneceu, e assim continuou.  No You Tube  a múscia Take five - um jazz melífluo:o sax alto é do autor, piano com o maestro Brubeck, J.Morelo na bateria e Eugene Wright no contra-baixo,  com mais de vinte milhões de acessos.  O desconhecido não mexeu sequer nenhum músculo da face. E no final  não bateu palmas. Essa obra musical jazzística, foi gravada em 1959, é de autoria Paul Desmond, doador dos direitos autorais de todas as composições dele para a Cruz Vermelha. No término da apresentação, os simpáticos  músicos passaram o chapéu. E a grande maioria colaborou. O passageiro sisudo, deu-lhes a maior contribuição aos artistas itinerantes(o mecenas de plantão contribuiu com  cem reais). Há pessoas surpreendentes. A recomendação é não (pré e nem pós) julgá-las. Desci do metrô na Estação Botafogo, e no Bar do Hotel Argentina (sem o Nonato, garçom que servia ao Olimpio José de Abreu e outros amigos) depois de muitos anos abstêmio, pedi ao barman um cowboy do J.W. Black. O pensamento viajou pelos sete mares. De todos esses  mares, um deles foi o bar onde me encontrava. E cantarolei baixinho Take five,  lembrando-me do passageiro que não bateu palmas. 

3 de novembro de 2016

Teresa Fênix ( 17a.parte)

Ulisses refletiu durante um bom tempo, se deveria pedir  socorro financeiro  ao Comandante grego. E decidiu arriscar a receber um não. Enviou pela mãe  o pedido. Ela lhe respondeu que não pediria  ao ex-namorado. Teresa Fênix demonstrou uma nítida má vontade, feito a claridade solar. Ulisses tomou coragem,  reuniu  parcas economias e ligou para o Comandante grego. Ao receber o pedido, adiantou a Ulisses, não ter no momento a verba  pedida. Mas correria  atrás para socorrer o jovem, estando ele num país amigo, mas distante do lar doce lar. Ulisses relatou a namorada dele, as dificuldades em conseguir permanecer no Panamá. Resolveu se divertir, visitando lugares turísticos, degustando comidinhas panamenhas (o que lhe fez ganhar alguns quilos) ouvindo e dançando merengue(ritmo animado- primo do mambo - tocado no Caribe). Se surpreendeu ao ouvir Roberto Carlos cantando em castelhano ( há quem afirme que  o rei do cancioneiro do ritmo rock/bolero, tenha nascido em Santo Antonio do Muqui, extremo sul do espiritossantense, a conferir - é o bordão usado pelo jornalista sergipano - Ancelmo Gois). Isso mitigava a saudade de casa.O calor panamenho é respeitável. E o relevo  geográfico  da capital, é plano, facilitando a mobilidade. Depois de dois longos dias, foi agraciado com a notícia positiva do Comandante. Exultante resolveu comemorar levando-a para um lanche noturno num local da moda.O professor de Ulisses o admirava sobremaneira. Ulisses matutava projetos arrojados, ao ponto de não mais voltar ao Brasil.

26 de outubro de 2016

Teresa Fênix (16a parte)

Teresa Fênix estabeleceu grave discussão com o namorado grego, por conta do aumento da frequência dos  cultos religiosos durante o dia, acompanhado de  cantorias e falatórios. Isso o incomodava, bem como os vizinhos da cabeça de porco. Ele não podia ler, e refletir sobre textos de Kant ou Deleuze. O resultado do conflito foi a mudança  imediata de casa. Teresa Fênix repentinamente contratou o frete de um  pequeno caminhão diesel. Resolveu  morar num bairro conhecido como Vai e Volta. O topônimo era sugestivo. A volta dela não era a expectativa do ex-namorado  Dois dias se seguiram, quando o dono do caminhão da mudança bateu na porta de Theodorakys Pitacus, para cobrar o frete. Ele não pagou. O cobrador atendia pelo apelido de Tônza. Discutiram asperamente, e quase se atracaram. O timoneiro  grego abatido pelo vexame promovido por Teresa Fênix, e munido de um passaporte diplomático da ONU - Organizações das Nações Unidas -  partiu para a Delegacia de Polícia local. E relatou a autoridade de plantão o fato ocorrido entre ele e o Tônza. O comandante de Longo Curso (porque navegou ou sabe empreender viagens transoceânicas) estava no cadastro de reserva para operações especiais da ONU. Dava-lhe essa competência por ter atravessado duas vezes o dificílimo Estreito de Magalhães, sem acontecer sequer um  incidente naval. Todos os comandantes que atravessam-no, são registrados numa organização internacional. A polícia marcou a data para acareação dos envolvidos, incluindo  Teresa Fênix. Nas contradições que quaisquer seres humanos podem se envolver, Theodorakys Pitacus, se arrependeu de não ter quitado o serviço do frete, diante da aporrinhação causada por conta de uma pecúnia de baixo valor. Mesmo tendo a nítida consciência de mais um pequeno  golpe de Teresa Fênix.

22 de outubro de 2016

Teresa Fênix (Parte 15)

Ulisses declarou amor incondicional a Maria Guadalupe, nesse dia, estavam tomando sorvete no centro da capital,  para abrandar o perverso verão panamenho. Sem rodeios se disse apaixonado por ela. Maria Guadalupe não  esperava  a atitude eruptiva e romântica de Ulisses. Ela permaneceu calada por alguns minutos. Ele expectava algum gestual da recente namorada. Tipo, uma concordância ou não. O tempo para ela se manifestar,  lhe parecia longo demais. Ela deu-lhe um beijo e disse-lhe: estoy enamorada también. Ulisses começou a ver estrelas e constelações. Em três dias  deveria viajar para o Brasil. Ele não queria retornar, pelo menos no tempo exigido de acordo com as regras do prêmio. Se não viajasse dentro da exigência contratual, deveria pagar do próprio bolso o custo da passagem e hospedagem, e revalidar o visto de permanência. Eis a questão. Ele se dirigiu a legação diplomática brasileira. E estava fechada. Era feriado no Brasil. Só lhe restava 72 horas para resolver o imbroglio da prorrogação por trinta dias, menos o tempo despendido oficialmente no Panamá. E no outro dia retornou a Embaixada, que estava fechada, pois dessa vez era feriado panamenho. Tenso e desorientado, inexoravelmente,    precisaria de dinheiro. A quem solicitar essa grana? A mãe Teresa Fênix? Mais fácil ver um gnomo brotando na terra, do que a mãe dele concordar com a dilatação da estada, ou enviar grana(quase sempre sem dinheiro). No último dia pela manhã foi a Embaixada (havia o risco de não conseguir  o visto, e ser deportado), e foi recebido por um funcionário do Itamaraty, com aparência sonolenta e mal humorada. O servidor público brasileiro informou que o visto de permanência é com o Departamento de Estado, no setor Imigração. Tomou um táxi e no setor indicado deu entrada em formulário oficial o pedido.  Ulisses depois de esperar cerca de uma hora, recebeu a boa notícia do servidor panamenho: o visto seria concedido ainda naquele mesmo dia na parte da tarde. Faltava o dinheiro para bancar a passagem e hospedagem. Conversou com a namorada, que ligou para casa, e os pais dela concordaram  hospedá-lo pelos dias permitidos. A pendência do dinheiro para comprar a passagem continuava. 

16 de outubro de 2016

Mimoso do Sul(sede) e sua difícil identidade cultural




Pesquisar, escarafunchar a identidade cultural de uma comunidade não é das mais fáceis tarefas. É mister ser percuciente e paciente. No caso específico, na região o “grande mapa da mina” se encontra no livro do historiador Grinalson Medina – Páginas da nossa terra o qual é edição única. É similar ao legendário Pergaminho do Mar Morto da Ordem dos Templários. Se o marco zero foi o Porto fluvial da Vila da Limeira(onde estudou o médico sanitarista e  premiado José Coelho dos Santos) conhecida também  como  Cachoeira do Inferno, refletindo em Ponte do Itabapoana, que foi a primeira sede de Mimoso do Sul, permito-me  remeter a existência então Coletoria Federal ou o longevo Bloco do Marujo, que no passado encantou os  carnavais de Ponte do Itabapaoana. Nada  mais a acrescentar até a data atual, como viés cultural mais denso. Aproximadamente trezentos anos depois o primeiro posseiro se instala em 1837 em São Pedro do Itabapoana que se consolidou e vicejou galgando a  status Vila, até a tomada pelas armas em 02/11/1930. Daí o declínio  da Vila, com a larga diáspora em direção aos centros urbanos mais desenvolvidos. A vida cultural sãopedrense  é interrompida. Os ícones fundadores de São Pedro, e seus familiares são compulsoriamente expulsos. Retiraram o chão desses munícipes. O caldo cultural não foi “incorporado” pelos estrangeiros de origem itálica e nem pelos filhos deles. Em 1930 a sede se transfere pela imposição dos fuzis, para o então distrito de Mimoso. O município progride com os cafezais abundantes, e bons preços de mercado. A construção da via férrea(1896), provocou transmigrações difusas. Não se permitiu consolidar uma cultura com franjas atávicas, que se transformasse num processo cultural permanente. No distrito d Conceição do Muqui há suaves confirmações  culturais  quando a comunidade se organiza bissextamente nas atividades simbolizadas pela culinária, dança e coral ítalosanmarinenses. No outro festejado distrito de Santo Annio do Muqui (a mais eficaz preservação da tradição da região)  desde As Pastorinhas de inspiração místico-religiosa, passando pelo Jaguará, reverenciado pela cabeça de  burro estilizada, Saci Perêre, de domínio nacional,  juaboi,  pai joão e  mãe maria e o  morcegão, o  chupa-sangue dos bovinos, dança italosanmarinense,  e outras manifestações, onde se amálgama as etnias indígena-luso-afrodescendente e por último a etnia ítalosanmarinense   Em Mimoso do Sul (sede) abre-se exceção para as Folias de Reis, que resistem bravamente, em torno de oito agremiações. Mimoso do Sul, foi brilhante no setor educacional, tendo a escola pública local,  orgulho daqueles que usufruíram do ensino  de altíssima qualidade, em diversas décadas passadas. Pode ser um fio condutor, poder-se-á  ser aprofundado.  Tal como   herança do povo de origem  sírio e libanesa, desde a gastronomia até os rituais religiosos, de indicativo maronita. Descortinar e alimentar as culturas ora vigentes, como o caxambu, primo do jongo (de onde se origina o samba) preservado na   Serrinha em Madureira(RJ), poderá  se empreender um garimpo, quiçá poder-se-á despertar o  inconsciente coletivo regional. Ao olhar os  extremos  d'Os Pontões,  poderá encontrar nos céus conceiçuenses  o corajoso e competente Comandante Lott praticando wingsuit, e na estrela mais brilhante são os olhos esverdeados do Comandante Brito. As festas juninas no passado foram marcadas no idioma de Rosseau. Partes das músicas eram orquestradas, e as outras da Bossa-Nova e da Música Popular Brasileira também. O Rio de Janeiro, a segunda cidade de todos nós, tem no samba a maior riqueza cultural brasileira. Parafraseando o poeta mangueirense Nelson Sargento: o samba agoniza mas não morre. E Dona América distrito ao lado do Rio de Janeiro, há suspeitas de ter sido um quilombola. O poder público ignora  a dar prioridade investigativa ontológica, pois lhe falta cultura historicista. Abaixo da linha do Equador, a via crucis  é barra pesada.

9 de outubro de 2016

Teresa Fênix Parte 14

A mãe de Ulisses passou a dar mais atenção aos assuntos referentes, aos deveres escolares de casa. Passou a estudar em parceria com o filho. O resultado desse esforço demorou a vir. Após alguns meses, o menor passou a apresentar boletins com boas notas.  Na disciplina matemática, o desempenho do Ulisses era modelar. Sempre conquistava a nota máxima. Talvez haja um rasgo genético, pois o pai de Ulisses, sempre apresentava boas notas nas chamadas ciências exatas. . O grego fazia a parte dele, narrando as tragédias gregas para Ulisses, e com  olhar petrificado  ouvia a saga individual de Édipo rei (Freud (1856/1939) se valeu de algumas tragédias de Sófocles para interpretar algumas complexidades da psiquê). Fazia questionamentos estonteantes ao  mestre de plantão. O interesse pela história helênica era uma constante. Pois sempre estava a solicitar ao grego, mais informações sobre a terra dele. Que a cada dia que se passava, desanimava-o em manter o relacionamento com Teresa Fênix. Theodorakis  receava que se rompesse o relacionamento, talvez viesse proibir o contato com o pequeno Ulisses. Carpe diem (aproveite o dia), dizia o grego em latim para Ulisses quando usava por demais os games do computador. Para que serve a história? Questionou de chofre ao Capitão da Marinha Mercante grega. Respondeu  ao Ulisses que há várias teorias para explicar a história como ciência. A tarefa do historiador é contar o passado da humanidade. Revelar como era a vida naquele espaço de tempo, e todos os desdobramentos. E desenhar o seu desenvolvimento desde o passado mais antigo possível, até aos dias atuais. Ulisses bebia as palavras do mestre. Falou ao Ulisses que a Grécia dentro do seu período mais criativo se deve a três mil anos a.C. até ao século II d.C. Por ser banhado pelo Mediterrâneo ( médio), e  exibia o velho mapa-mundi  localizando o país. Repassava conhecimento pacientemente ao  aluno,  tão holístico quanto possível. Poder-se-á  dizer que a Grécia é uma civilização mediterrânea.

3 de outubro de 2016

Lordes e senadores



O novo prefeito da maior cidade da América do Sul, disputou e conquistou a vitória no  primeiro turno, nas eleições municipais(2016) de São Paulo, capital. Nas entrevistas afirma que não é político, mesmo tendo sido eleito por uma agremiação política. Diz ser um gestor, e reafirma sistematicamente que não é político. Polis em grego é cidade, político é o gerente da cidade, é o síndico, prefeito, governador, presidente e/ou primeiro ministro. No sistema democrático (governo do povo e para o povo) fazem parte do sistema político o  Executivo, Judiciário e o  Legislativo,  que é a casa criadora das leis, votadas nas câmaras dos vereadores e deputados federais e as assembleias estaduais e o senado federal. Os personagens que ocupam esses espaços são votados periodicamente. Não há  alternativa  exceto nas ditaduras civis ou militares. Existem duas modalidades de governo: presidencialismo e o  parlamentarismo, que é muito comum na Europa. O preconceito em relação a classe política, se me permitem, cabe ressaltar que todos os parlamentares veem da sociedade. Se tal ocorre, o parlamento é o espelho dessa mesma sociedade. O Brasil infortunadamente  não é um país com altos índices de politização. Contudo deve-se continuar votando livremente. Aliás, abaixo da linha do Equador tudo é mais complicado. Os ingleses dizem que os primeiros 500 anos, são os mais difíceis para se estabelecer o estado de direito em um país. E o Brasil nesse  nesse contexto  é dente de leite.  Depois da Segunda Grande Guerra Mundial (1945) a Europa foi arrasada. A Alemanha  mais severamente destruída(como  se esperava). A reconstrução do Velho Continente se deveu aos parlamentos, onde atuam os deputados, lordes e senadores. 

9 de setembro de 2016

Teresa Fênix (sexta parte B)



Os dias modorrentos  iam se  passando. E a perturbação cotidiana  da Maga Psicológica, discutindo sempre  em voz alta nos corredores do modestíssimo prédio onde moravam Ulisses, Teresa Fênix e o grego. Esse pequeno conglomerado, tinha similaridade com as hospedarias cariocas,  nominadas como cabeça de porco. Por último Maga Psicológica denunciou Teresa Fênix ao Conselho Tutelar, por negligenciar no estudo de Ulisses, o qual estava apresentando notas baixas em português, história e geografia. Na compensação,  em matemática era nota máxima. Os mecanismos superiores mentais,  diante das disjuntivas existenciais não impedia o raciocínio cartesiano.  A alcaguete foi à  fundo no expediente do denuncismo, tendo sido necessário se constituir um advogado. Zeca tão logo soube do caso, solidário, acompanhou a filha dele ao Conselho Tutelar, nos primeiros dias primaveris.  A atendente era graduada pelo Serviço Social, solícita deu  início a anamnese social e psico-antropológica dirigida a mãe e ao filho. E no final, a conclusão da técnica não viu nada que acolhesse a delação. Recomendou a genitora de Ulisses, que a aula particular nem sempre  é suficiente. Se faz necessário a mãe ser coadjuvante do filho na tarefa da  pesquisa e dos trabalhos escolares.  Mais uma vez a Maga Psicológica deu com os burros n'água.

Teresa Fênix (13a.parte)

Teresa Fênix mantinha o relacionamento com Pitacus Theodorakys, todavia as contendas verbais aumentavam a cada dia. O grego era ateu, e ela participava numa dessas igrejas de inspiração neo-pentencostal, cuja prática do dízimo é compulsório. E semanalmente havia o exorcismo. Nesses dias  uma infernal gritaria,  saindo pelas pequenas e poderosas caixas de sonoras, talvez, com mais cem decibéis, ecoando  na vizinhança. Um flagrante desrespeito. O diabo infalivelmente retornava de 7 em 7 dias. (O companheiro dela achava que essa religião, remetia ao tempo das Inquisições comandadas pelo Santo Ofício).  Tereza Fênix tentou mudar-se para o apto do capitão de longo curso, mas foi rechaçada. O desnível cultural era tão nítido quanto a claridade solar. Eis o mistério do amor.O grego  gostava por demais de Ulisses, pois o via promissor pela inteligência demonstrada nos mínimos detalhes (sem deixar de ser criança). Teresa passou a contrair pequenas despesas,  no somatório pesava no bolso, da vida modesta do Pitacus Theodorakys. A casa dela estava sempre visitada pelos ditos evangélicos, quer nas orações (acompanhada de fartos lanches), quer em conversas inócuas, segundo pensava o namorado dela. Teresa Fênix ganhou alguns quilos, diante da vida sem atividade física. Sedentária se negava a caminhar ou entrar para uma fitness. Aguardava a benevolência  financeira do namorado, para se submeter a uma intervenção cirúrgica.

Teresa Fênix (12a. parte)

O Chefe em plena atividade,  cavava o túnel  com 17 colaboradores, em diversos horários estratégicos, para não levantar quaisquer suspeitas. Os pepinos eram frequentes, desde uma tubulação abandonada, até os terrenos pantanosos. Haviam discussões de cobrança, tipo, de quem ralava mais, e os morcegadores. Essas práticas nas disputas individuais,  irritava bastante  o Chefe. A tarefa avançava, apesar das barreiras. O Chefe em dado momento animou o grupo de detentos, afirmando estarem próximos do objetivo. Aconteceu o inusitado, numa das costumeiras visitas aos internos: o agente penitenciário encontrou um martelete, na bolsa de uma mulher.   Ela era esposa de um dos membros da construção do túnel da fuga. Ameaçado de morte, o servidor público arregou, e entubou  o fato. O grupo de condenados ficou  grilado, e aumentaram as  medidas de segurança. O Chefe discorria um decálogo diariamente, contendo atitudes proibidas de serem tomadas. A tarefa continuou, dessa vez intensificada, por contas das chuvas do verão que se avizinhavam.