Ela chegou dentro do tempo previsto, na casa do ex-amante. José do Egito, antigo colono e meeiro da fazenda a recebeu gentilmente. Maga Psicológica de pronto disse da imperiosa e urgentemente necessidade, de se falar com dono da propriedade rural. Sob o alpendre da casa bem conservada, sentou-se e sentiu uma ligeira tonteira. Em seguida, o ouviu nítido e altissonante, vociferar: Não falo com essa muié ! Manda ela ir embora. Assim falou o pai do Chefe. José do Egito ao chegar na varanda encontrou Maga Psicológica caída e estrebuchada, se debatendo no assoalho. José do Egito, iniciado no candomblé, fez-lhe uma oração. O dono das terras, chegou e afirmou que ela tinha incorporado a Pomba Gira, e que pertencia a umbanda, e considerada veterana e temida feiticeira. O colono José do Egito, falou firmemente ao patrão, não era nenhuma entidade do sincretismo de matriz africana. Ela precisava de um médico. Gradativamente ela foi recobrando os sentidos mais elementares, e pediu água com açúcar. Disse ao José do Egito, que teve uma crise hipoglicêmica, causada por forte impacto emocional. E que de outras vezes o mesmo havia lhe acontecido. Maga Psicológica estava vivendo o drama de contar ou não, ao fazendeiro, sobre o risco de vida que correria, caso não desse dinheiro para o filho presidiário. Os internos possuem redes organizadas de comparsas para executarem com frieza os desafetos.
28 de fevereiro de 2017
19 de fevereiro de 2017
Teresa Fênix - 29a. parte
A jovem panamenha foi sozinha ao laboratório, para enfim tomar conhecimento do esperado resultado do teste da gravidez. Tensa, ainda em casa, tomou um forte ansiolítico e partiu para dirimir a dúvida, se estava esperando neném. O diagnóstico indicou que estava grávida. Então as comportas lacrimejantes abriram-se. Desnorteada, feliz e preocupada, estressadíssima foi atrás de Ulisses. Não o encontrou. Foi para a casa. Inventou uma coragem, e contou tudo para a mãe dela. E teve uma grata surpresa, pois a madre acolheu-a abraçando-lhe disse: bueno serei abuela.(*). Ambas choraram durante um bom tempo, até que o pai chegou, e tomou conhecimento do inédito fato, e juntos o trio se emocionou. Maria Guadalupe, falou aos pais sobre a promessa feita a santa mexicana, Virgem de Guadalupe, padroeira do México e da América Latina. A aparição se deu em 1531, e guadalupe na língua azteca significa perfeitíssima. Adiantou que teriam que viajar até ao México, antes do nascimento do bacuri(**). O clima era de festa. E os copos "shot glass" foram lavados e enxutos. Limão, sal na língua e tequila. Essa bebida é produzida pela agave-azul(planta, talvez prima do cactus) na cidade de Tequila, na região de Jalisco. O casal bebeu vários tragos, sem contudo ficarem borrachos(***).
* avó
** menino
*** bêbados
16 de fevereiro de 2017
Teresa Fênix (28a. parte)
Maga Psicológica se preparou para enfrentar o ex-amasio para atender o pedido do filho apenado. Fez uma pequena reunião de família, no sentido de alertar os parentes, caso lhe acontecesse algum atentado, informou que o maior suspeito seria o ex-amante. Alguns membros da família, por segurança, aconselharam-lhe a cancelar a viagem. Maga Psicológica não atendeu os familiares. E começou traçar o roteiro da aventura. O destino era secreto. Era necessário fazer diversas baldeações de busão. Em dois dias chegaria no lugarejo indicado pelo contador do cabouqueiro, num rasgo de boa vontade deu-lhe o endereço, mas exigiu silêncio absoluto. O périplo da Maga Psicológica chegou ao fim numa sexta-feira 13. Na beira de uma estrada vicinal, apeou junto a uma Venda de Secos e Molhados, notou na parede lateral do modesto estabelecimento, um velho almanaque, estampando uma propaganda do medicinal biotônico fontoura. No passado distante, esse remédio era ministrado para a juventude como fortificante, uma colher de sopa antes das refeições. Exposto estavam também, o anil, velho alvejante,fumo de rolo, calça brim-coringa, linguiças de porco penduradas, fubá grosso de moinho de pedra, sardinha salgada, arroz, feijão, rapadura e os fregueses contumazes chupitando uca curtida em losna(absinto) ou carqueja. Era uma casa sortida nas tradições brasileiras. Ela tocou o relógio do tempo, e veio a lembrança. Duas lágrimas rolaram. Restabelecida da emoção passageira, se informou como chegaria no lugar conhecido como Cotovelo. Distava sete léguas de onde se encontrava. Uma charrete a um preço justo, toda pintada de amarelo ovo, a levou na fazenda do irascível empresário de pedras cortadas no estilo paralelo e outros.
27 de janeiro de 2017
Teresa Fênix 27a.parte
Maga Psicológica estava diante da difícil tarefa patrocinada pelo filho, que se encontrava preso, e na última visita incumbiu-lhe de arrancar dinheiro do pai. O genitor considerava o Chefe, como filho de uma aventura, como sempre falava nas vendas da zona rural, após beber vários cipós-grau, cabendo a secular frase em latim: In vino veritas(*). Jamais exerceu a responsabilidade paterna. Tratava os empregados e desconhecidos com grosseria, e total ausência de uma razoável educação. Era um indivíduo truculento. Se portava como um coronel da República Velha(1889/1930), pois usava arma de fogo (sem autorização) e dois asseclas lhe davam segurança. Acessar o pai do Chefe era uma missão desconfortável, pois ele sempre negou peremptoriamente a receber a mãe do filho dele. Na pequena cidade próxima das atividades empresariais, havia um medroso e subserviente técnico em contabilidade, o qual cuidava dos interesses do rico cabouqueiro. Se lhe perguntassem, nada informava sobre esse importante freguês. Maga Psicológica foi ao técnico contábil, cujo apelido era Zé Champruca e expôs a dramaturgia na qual estava a coexistir. O guarda-livro ficou temeroso, quanto a ameaça de morte ao rentável cliente. Zé Champuca coçou a cabeça nervosamente. Foi ao banheiro e retornou em bicas, suando frio. O pânico lhe tomou conta, pois se lembrou de um caso semelhante, quando o tio desse profissional contábil, foi executado (no interior das Minas Gerais, num arraial conhecido como Conceição do Mato Fora) a mando do filho(que cumpria pena por homicídio doloso) e primo de Zé Champruca, numa infortunada tentativa de extorsão
(*)No vinho está a verdade.
(*)No vinho está a verdade.
15 de janeiro de 2017
Teresa Fênix - 26a.parte
Maria Guadalupe meditava dia e noite, como poderia abordar aos pais dela, a proposta de Ulisses de se casar intempestivamente. com parcos argumentos. Mas não desistia em buscar uma saída pelo impasse. A mãe bastante rígida nos conceitos ibéricos, herdados, sob a ótica da moral hispânica (aliás nada recomendável em termos históricos). Resolveu falar ao pai dela, pois era uma melhor escuta. Enquanto tempo voava numa velocidade supersônica, Maria Guadalupe não conseguia estudar ou ver televisão, durante a passagem desse vulcão de grandes proporções. Decidiu ganhar tempo(nem tanto), para alinhar os pensamentos. Passaram-se alguns dias, e faltava-lhe coragem para estabelecer o embaraçoso diálogo paterno. Eis que de repente, algo de estranho aconteceu. Observou que na data quase costumeira, não se menstruou. Poderia estar grávida? Avaliou consigo, o absurdo possível. Alados em formação de ataque: um vulcão e um tsunami. A possibilidade de estar grávida invadia-lhe a alma. Era o fim do mundo, pensava Maria Guadalupe. Necessário seria exame laboratorial para se confirmar ou não a suspeição da gravidez. Consultou-se a um médico particular, pagando-lhe com a mesada recebida, e em seguida submeteu-se ao exame adequado. Pela ansiedade da jovem Maria Guadalupe, o resultado sairia em dois longos dias de expectativa.
31 de dezembro de 2016
Teresa Fênix - 25a.parte
O Chefe mandou recado para a mãe, que o visitasse com urgência. O mensageiro agudizou a importância da presença da Maga Psicológica, e passou-lhe uma imensa agonia, provocando-lhe uma extra-sístole, pois era portadora de uma severa cardiopatia. Maga Psicológica tomou os remédios costumeiros, e depois de um intervalo se sentiu mais confortável. Numa manhã ensolarada, de sombrinha estampada, com passos curtos, foi a rodoviária, e comprou passagem e embarcou num daqueles ônibus sem ar condicionado, mas aguentou firme até chegar ao destino. Ao chegar no presídio, a costumeira fila estava longa demais. Diante do desconforto, abordou a agente penitenciária e invocou a mais recente idade de 60 anos, e questionou a fila especial para idosos. Foi imediatamente atendida. No encontro com o Chefe, o diálogo foi rápido e objetivo por parte do filho-meliante. Disse secamente a mãe, estar precisando de muito dinheiro com urgência. E que ela procurasse o pai dele. Caso ele se negasse a atender o pleito, fez-lhe ameaça, dizendo a Maga Psicológica, que o pai estaria correndo risco de vida. Uma tragédia anunciada, ou não. Maga Psicológica ficou atônita, e a sensação de ter perdido a ponta da corda. Apoplética, deu início ao um choro convulsivo, em seguida caminhando trôpegamente foi embora, e sequer despediu-se do rebento. A mãe do Chefe de ascendência teutônica, possuía no DNA, vestígios que incitavam-na a lutar, mesmo sabendo das intempéries pesadas a serem enfrentadas.
22 de dezembro de 2016
Teresa Fênix (24a.Parte)
Teresa
Fênix introjetou o drama entre o primeiro amor, e a outra realidade exógena, pelo menos, enquanto o Chefe estivesse internado no presídio. Nessa dicotomia, ia balebando
entre o céu e o inferno, ambos terrestres. Na busca da sobrevivência,
contava com ajuda bissexta do pai, para dar-lhe suporte mínimo,
considerando as crônicas dificuldades. Nas ruas mornas da pequena cidade, todos se conheciam de vista, pelo menos. Teresa Fênix usava uma
bicicleta doada pelo grego. Numa dessas incursões, encontrou
o Comandante, e aproveitando a coincidência pediu-lhe cesta básica. Diante do pedido (irritado, perguntou a si mesmo: o que fazer?) e lembrou como chegou até a mesma cidade de Teresa Fênix. E o fato
transitou nos mecanismos cerebrais da memória. Eis o relato: em
1933, o vapor mercante de bandeira grega, incendiou-se na costa do Espírito
Santo. Sobreviveram 27 tripulantes, dentre eles o pai de Theodorakys Pitacus, que
era o comandante do vapor cujo nome
estava registrado na Capitania dos Portos, como Konstanti. Theodorakys Pitacus tal qual o pai, se matriculou na Escola de Marinha Mercante
em Atenas. Como oficial, singrou os sete mares, e por curiosidade quis conhecer onde o
ex-Primeiro Oficial do Konstanti, primo do pai dele, tinha morado. Havia a informação que teria lecionado
química, numa escola pública no extremo sul, do cambaleante estado do Espírito Santo. Theodorakys Pitacus resolveu sentar praça, na pequena cidade, até que ventos fortes o conduzissem para outros mares. Talvez por ser errante (in)consciente, poder-se-ia remeter ao Comandante holandês da ópera Navio Fantasma adaptada por Richard Wagner(1813/1883) ao navegante grego. Segundo a lenda, o marujo holandês estava condenado a navegar, todavia a cada 7 anos, poderia ancorar na costa para tentar encontrar o amor dele, caso contrário, voltava aos oceanos. O timoneiro grego talvez estivesse a coexistir com uma dualidade, na busca de uma vida familiar, ou desafiar os limites da existência humana.
18 de dezembro de 2016
Os curumins sofrem
Príncipe da poesia brasileira, essa titulação, foi outorgada pela ABL –
Academia Brasileira de Letras - ao poeta Olavo Bilac(1865/1918). No poema “Língua
Portuguesa”, de autoria bilaquiana,
eis os seguintes versos iniciais: A última flor do Lácio, inculta e bela/És a
um tempo, esplendor e sepultura”. O continente americano do sul, acrescentando-se
o Caribe e suas ilhas, sem contar o México, foram todos estuprados pelos espanhóis. O único a falar português,
herança do colonizador, além da sífilis, e que foram iguais aos hispânicos, é o Brasil do índio
Tibiriça. Esse é o mesmo Portugal, velho sabujo dos ingleses. A igreja católica muito mais pecadora do que
santa, com os seus jesuítas, no
início da colonização do do Brasil de Ary Barroso(1903/1964), tentaram uma
improvisada e positiva pedagogia lingüistica através de um sincretismo semântico, com a linguagem
tupi e o idioma do colonizador. A metodologia fluiu com sucesso. E a
comunicação foi facilitada entre os índios e os ibéricos. Até que a coroa
lusitana, tomou conhecimento e proibiu com fuzilamento os infringentes. Se
história tivesse sido outra, talvez Olavo Bilac tivesse escrito assim: És a um
tempo esplendor e belezura, ou nada disso..contudo, jamais a lúgubre sepultura, ou é? E com certeza teríamos uma linguagem mais
popular, com menos normas e regras. E os conflitos lusófonos, não existiriam com o conservador Portugal. Agora
não tem mais jeito, os curumins sofrem.
17 de dezembro de 2016
Teresa Fênix - 23a. parte
Ulisses entrou em alfa, mergulhando numa reflexão para sair da sinuca de bico, na qual se encontrava. Combinou com a namorada que precisava da clausura do quarto do hotel, para pensar. Tão logo se sentiu seguro da decisão, imediatamente foi a casa de Maria Guadalupe. Fez um longo relato sobre a vida dele, e confidenciou fatos a panamenha que guardava à sete chaves. E meio sem jeito, com tamanha timidez disse que a amava, e não desejava voltar ao Brasil(por tempo indeterminado). E de súbito, propôs-lhe se casarem. Ela quase desmaiou. Não sabia se ria ou se chorava. Atônita, adiantou-lhe que os pais dela não concordariam, pelo tempo tão exíguo de conhecimento. Ulisses tenso, disse-lhe que o casamento resolveria a permanência no Panamá. Ele se desesperava na possibilidade da família dela, levantar a menor suspeita que estivesse se comportando como oportunista. Afirmou a namorada, ser o tempo o grande aliado dele. Maria Guadalupe, tomou a decisão de lutar para a aceitação daquela decisão intempestiva, contudo sincera. Resolveram comemorar o acontecimento, degustando um galeto no Fry Chicken. Maria Guadalupe sorria, e de repente, séria. A dúvida invadia-lhe o raciocínio, se a família concordaria ou não.
15 de dezembro de 2016
Adega Pérola
Cumulus nimbus, nuvens
plenas de água, que por fenômeno climatológico se soltam como chuva, e irrigam, fertilizam,
limpam e saciam a sede da humanidade. Dizem que a flora é a moldura da terra,
como se fosse a madeixa dela. A chuva goteja, pinga, filtra e inunda. Os
ribeirinhos correm velozmente para o rio maior, e diluem-se num outro, e se
misturam na água salgada, e nos sete mares perde o seu paladar original para sempre. Chove copiosamente, à cântaros, a canivetes na
terra dos índios puris, primos dos avá-canoeiros. Na chuva assim, os
passarinhos se ausentam, bem como o encantador beija-flor. Com a umidade, as asas molhadas ficam
pesadas, e comprometem a aerodinâmica dos voos. Os riachos golfam sem parar. Então o nível da água sobe, sorrateiramente. E invade a
cama, as roupas, os retratos da família, os livros de autoria de Jorge Amado, Jorge Luis Borges e Tchecov. Perdem-se memórias. Ela se repete, de quando em vez, até tornar-se igual o mal de Alzheimer. Jorge Alberto, índio aculturado, meu amigo, e contumaz frequentador da
Adega Pérola, ensinou que não há enchentes nas florestas, acontecem as cheias que fazem parte da fenomenologia regional.
14 de dezembro de 2016
Evaristo Arns
Ele morreu ontem em São Paulo. Foi bispo da
Igreja católica progressista. Estudou durante cinco anos na famosa Sorbonne em Paris,
onde se doutorou em letras e línguas clássicas. Declarou que aprendeu mais com os
pobres do que na Sorbonne. A igreja católica na sua organização possui cerca de
170 ordens religiosas, e Dom Evaristo Arns pertencia a Ordem dos Franciscanos.
Ao receber o cargo de Arcebispo de São Paulo, vendeu o Palácio Episcopal destinado a ser residência
dele, e construiu 1200 centros comunitários na periferia de São Paulo. Na ditadura militar
enfrentou o general presidente de plantão nos anos 1970, de fala mansa, contudo com firmeza, reivindicou o fim da tortura e julgamento para os
acusados. Era irmão da abnegada Zilda Arns, morta no terremoto do Haiti, em
2010. Foi amigo do Papa Paulo VI, e perdeu espaço, quando a corrente dos progressistas católicos
se enfraqueceram enquanto tendência nas hostes do Vaticano. E por último foi o idealizador do livro Brasil: Nunca Mais, que
trata dos desaparecidos na ditadura militar que durou lamentavelmente 18 anos, de ausência de liberdade de
expressão. Ele transcendeu o lado contemplativo da mística religiosa, e
corajosamente se colocou ao lado dos oprimidos. Evaristo Arns, é a parte mais consequente
da história do Brasil.
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