Ouço numa tarde de verão, algumas interpretações de músicas altissonantes, a referência é para o virtuose das cordas - Rafael Rabelo - encapsulado no seu violão-alado, partiu inesperado e
precocemente, em direção a mais brilhante esfera celestial. Quem sabe está a
dedilhar para os astros, asteróides e extraterrenos ou não? O fato é que, nesse
instante imagético, místico e campesino, convivo com o calor tropical, mais
famoso nesse inicio de 2014, com árvores a produzir boas sombras,
e um riacho a correr suave, e
manso feito o sol poente, quer no Arpoador, quer no pico da siderúrgica Estrela
Dalva, uma das torres símbolo das montanhas imponentes, e enfeitadas pelas flores silvestres e cachoeiras. Lá do alto da Estrela Dalva
pode-se avistar o veleiro alteroso singrando o mar alto, permitindo-se rememorar os
barquinhos-de-papel, enquanto brinquedo
de criança, e empreende-se "outras viagens". E o olhar se perde, e se encontra, dessa vez entre a vegetação de um
açude, e se faz presente ( infortunadamente, fotografado somente pela retina) a ação transformadora da natureza, na insígnia do ninho semi-ovalado,
construído de varetas e forrado de folhas, com três ovos de tamanho médio, repousados e prometendo o nascimento das avezitas do Martin-pescador. O ninho desse pássaro
compõe o cinturão ciliar da pequena lagoa, e localiza-se somente há uma distância de um metro e meio, da água. A nidificação está na condição de - hóspede - da candiubá, arbusto
nativo da região sudeste. O Martim-pescador, veste uma plumagem
pluri-cromática, que são cores impressionistas, harmônicas e encantadoras. Imagine-se os
pequenos Martim, pela proximidade do espelho d’água, muito cedo serão treinados
a mergulharem, como - atividade primeira da sobrevivência - ao localizarem, como
suas “poderosas lentes” os cardumes encontrados nas inundações lacustres. Os vizinhos e compridos arvoredos, conhecidos popularmente como imbaúbas, - cecropia purpurascens - são testemunhas desse relato. Contudo, “vale o escrito".
1 de fevereiro de 2014
13 de janeiro de 2014
O sabiá-laranjeira
Ao se
apreciar o sabiá, e o seu mavioso cântico, a brasilidade remete: “ Minha terra tem palmeiras, onde canta o sabiá, as aves que
aqui gorjeiam, não gorjeiam como lá” é a abertura da consagrada poesia – Canção do Exílio – de Gonçalves Dias (Coimbra,1843). Mas o desejo (in)contido, é o de narrar sobre
o “Turdus
rufiventris” ou o sabiá-laranjeira, habitante das matas, caatingas, campos e cidades
ajardinadas. Em 2002, por decreto, o sabiá-laranjeira passou a ser oficialmente a ave símbolo do Brasil. Desde
1966, ela já ocupava como ave-símbolo, na
terra dos bandeirantes. De coloração geralmente parda, ou pardo-avermelhada, e
são por demais populares, pela beleza do
canto. Veste uma plumagem pardacenta no dorso, e ferrugínea no abdome. Há
algumas lendas sobre a mesma, como por exemplo: há quem afirme, que se o “bicho-homem” raptar o filhote e o confinar na gaiola, a
sabiá-laranjeira fêmea, ministra-lhe
um veneno, e o mata. A sabiá-mãe o prefere morto, do que enjaulado. Essa é a estória através da oralidade, passando para as futuras gerações. As crenças que povoam o imagético do
coletivo, ocorrem em quaisquer partes do mundo.
A fêmea é responsável pela construção do lar, ou seja do ninho. O formato são quase sempre
esféricos, e profundos. O material utilizado tem os seguintes componentes: raízes,
musgos, barro e outros. As paredes dos ninhos
são espessas, para melhor se protegerem.. São doze dias de
incubação, e os ovos são verde-azulados. A fêmea é pouco maior do que o macho,
que (en)canta no período reprodutivo, antes do amanhecer e ao anoitecer, para
atrair a fêmea, e demarcar o território. O canto do sabiá-laranjeira permanece até dois minutos, e vida útil dele, pode
atingir trinta anos. Na exposição de motivos enviadas ao então presidente, para torná-la a ave símbolo oficial do país, assim
argumentou o relator da matéria:
“ que o sabiá-laranjeira tem larga distribuição nacional, e porque é, dentre as aves, a mais inspiradora e, consequentemente a mais aclamada e decantada
pelo sentimento popular e cultural”. O cântico-dobrado dura cerca de dez longos segundos.Sabiá
vem do tupi sawi’a.
6 de janeiro de 2014
O beija-flor
Como se fosse
bailarino, com movimentos suaves, o colibri chupa o néctar das flores
indefesas. Velocíssimo nas manobras aéreas, sendo o único pássaro a engrenar a
"marcha-ré". Estaciona no ar feito um helicóptero, ou melhor, a
máquina voadora, é que foi baseada no princípio aerodinâmico das aves. O
"beijo" se dá através de um longo bico, igual a uma fina
agulha, que penetra nas cavidades
das flores, saciando-lhe a fome, ou a sede. De plumagem caleidoscópica - tom sobre tom - em diferentes cromagens, dependendo da
família. Elegantes, alguns parecem
estarem vestidos de fraques à inglesa. Eis a nominata dos
beija-flores: vermelho, garganta verde,
bico vermelho, barriga branca, rabo branco, gravata-vermelha, e tantos outros.
O colibri, é da família dos trochilidae, é considerado o menor pássaro do
planeta. E somente são encontrados no Novo Mundo. No estado ativo de
sua vida, o beija-flor fica quase permanente no ar, inclusive quando se
alimentam. Nos dias de chuva, ficam tristes, e não levantam vôo. O famoso pesquisador (pouco
valorizado) dessas encantadoras aves foi o cientista Augusto Ruschi. O beija-flor macho, usufrui de
num "dolce far niente”, pois não choca os
ovos, e muito menos alimenta
filhotes, e nem constrói os ninhos – que são horizontalizados - num
formato de uma sólida tigela. O material usado na construção do mesmo - sob a
batuta do beija-flor fêmea - são as teias de aranha, folhas e
xaxim. O colibri é eclético, pois se
adapta as condições rurais e urbanas. Algumas espécies dos beija-flores são polígamas. A fêmea do
“besourinho-cauda-larga”, poderá construir, com maestria a superposição de dois
e até três ninhos, e comandar esse território durante vários anos. Esse
espetacular fenômeno da natureza , só
ocorre no Nordeste do Brasil. Outro fato surreal, acontece com o “beija-flor
besourinho”, que poliniza a bananeira-do-mato ou ornamental, tendo o bico incrivelmente adaptado para essa
flor. No plano “romântico”, destaca-se a amorosa “beija-flor-ametista “,
que na ocasião apropriada, prepara e
executa a corte nupcial com esmero. Isso posto, poder-se-á
intuir que pelo fato do coração
do beija-flor, ser por demais intenso,
pois poderá apresentar seiscentas batidas por minuto, quiçá isso seja um facilitador performático na iniciação nupcial. A conferir.
| beija-flor ametista - foto duda menegassi |
4 de janeiro de 2014
A coruja
A coruja, mal compreendida, todavia desde a antiguidade já fazia sucesso. Era a ave da deusa
Atena ( Minerva) símbolo da inteligência
racional. Ela é notívaga, convive somente com a noite. Ela é tão somente lunar
, e percebe a luz da lua por reflexo. Talvez, seja por isso, que a coruja é tradicionalmente o atributo dos
adivinhos: simboliza o seu dom de clarividência, contudo é através dos signos,
por eles interpretados. “ A coruja , ave de Atena simboliza a reflexão que
domina as trevas”(BAGE, 108). Segundo a lenda a coruja é o avatar das noites e
da chuva. Em algumas línguas latinas, designa a coruja, como mulher bonita, e
ave de bom augúrio. As espécies de
corujas são diversas. Tive um bom amigo, um homem por demais inteligente, que possuía
algumas estatuetas de corujas, entre os
livros dele, e dizia-me, que a coruja é sabia, e o inspirava. Eis o seu nome: Artur
da Távola. Por aqui, na terra brasilis, dentre as strigiformes - nome científico da coruja - destaca-se a coruja-com- orelhas(foto). Elas vivem na orla das
matas e também nas cidades, e se alimentam de grandes insetos. Minimalista, aproveita os ninhos
abandonados de outras aves, e se estabelecem.
A outra, é a coruja-latideira, e por último, o caburezinho, “meio que canibal”, pois tem como hábito se
alimentar dos sanhaços( mesmo com toda a destreza
desse pássaro, é inevitavelmente capturado), e os pardais ( que vieram de Portugal, tanto quanto a
sífilis), rãs, lagartixas e pasmem: pequenas cobras. Acho que o caburezinho,
mesmo no diminutivo para mitigar o “canibalismo” dele, creio ser uma
sub-coruja. Com bico afiado, caburezinho, degola os passarinhos. Na infância, quando se ouvia a coruja piar, pela fidelidade à crença, os chinelos era virados, com o solado para cima. Por vezes a coruja se calava, outras não. A estética da coruja é a
elegância e o construtivo silêncio, fazem-na uma ave, cuja a origem se conecta ao mítico e ao místico, desde longevos séculos.
18 de dezembro de 2013
Rua da Serra ou Hill's Street III
Na última parte, da Rua da Serra, toquei Carlos Alberto, cantor romântico. Viajei pela década de 1960. Sucesso na ZYO-26 – Rádio Difusora de Mimoso do Sul, sob a locução de Hilton Abi-Rihan, ícone da radiodifusão brasileira. Hilton Abi-Rhian e o rádio brasileiro se confundem. Hilton, é parte integrante do rádio brasileiro, do Oiapoque ao Chui. Esse mesmo personagem midiático, foi frequentador assíduo do butiquim do João da Biquinha, tendo seu filho, o então jovem Clever como cantor. Outro amigo, era o Boa Alma – Ítalo Alves Ferreira, agraciado com o raríssimo premio Belfort Duarte, outorgado pelo Desporto Brasileiro - Chico Bucheiro, personagem ímpar nesse contexto lúdico e histórico, e o Ary de Souza Pinto, animador cultural dos melhores, com o seu açougue, a fornecer acepipes para acompanhar os aperitivos diários. Melhor dizendo segundo o "indelével" Boa Alma: acessórios de porco e outros. Ao derredor o sirio-libanes Teodoro Kalil, poderoso comprador de café, e em frente José Canarinho, barbeiro de categoria. O “point” era o butiquim acima citado, onde formaram o “regional” conhecido como - Prata da Casa – que tocava no local. João da Biquinha era o promoter de alta patente cultural, pois criou um time de futebol, gerenciava o Boi Pintadinho, isso tudo acontecia na Rua da Serra ou na Hill’s Street. A rua era alegre, pois o lúdico era uma constante. O Ari, proprietário do Açougue Nossa Senhora das Graças, era por demais participativo na comunidade. Nas horas vagas era um entusiasmado leiloeiro para ajudar as obras da Igreja de iSão José, e de quebra, colaborava com o Independente Atlético Clube, mesmo sendo sócio e torcedor do adversário Sport Club Ypiranga. Ele foi um autêntico desportista. Hilton conta uma curiosidade sobre o Chico, que ganhava a buchada dos bois, e a comercializava. Uma generosidade do Ary, daí o apelido de Chico Bucheiro. Chico em todas as vezes que bebia, após os primeiros tragos, chorava copiosamente. O Seu Antonio, de origem mineira, era cego e flamenguista roxo. Não era afeito a intimidades, pois se sabia que na cinta, um Smith Wesson do calibre 38. Ele possuía um movimento com boca e a língua, que parecia ter algum corpo estranho na boca. Através da oralidade, há quem afirme, que em certa ocasião, caiu na sua boca, (ou lançaram) quando cochilava, um punhado de trigo, e daí, ele desenvolveu esse trejeito, de pipocos bucais. A conferir. Em frente ao Ary, o “Mercadão” um imponente imóvel, que pelos traços arquitetônicos remetia a pujança econômica de uma época. A cultura de uma comunidade, está na sua semiologia, ou seja nos sinais, nos signos, quer através da linguagem, costumes, construções e sambaquis, e todas as demais “marcas”, que traduzem a história ou a historicidade de uma região. Se esses traços não forem preservados, e ou sinais de uma cultura, ela desaparecerá, e o condado ficará sem referência, e sem indicativos sócos e culturais, perderemos a identidade cultural. Salve a Rua da Serra, e os seus históricos fundadores.
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