1 de fevereiro de 2014

"Vale o escrito"


Ouço numa tarde de verão, algumas  interpretações de músicas altissonantes, a referência é para o   virtuose das cordas -  Rafael Rabelo -   encapsulado no seu violão-alado,  partiu inesperado e precocemente, em direção a mais brilhante esfera celestial. Quem sabe está a dedilhar para os astros, asteróides e extraterrenos ou não? O fato é que, nesse instante imagético, místico e campesino, convivo com o calor tropical, mais famoso nesse inicio de 2014,  com  árvores a produzir boas sombras,  e um riacho  a correr suave, e manso feito o sol poente, quer no Arpoador, quer no pico da siderúrgica Estrela Dalva, uma das torres símbolo das montanhas imponentes, e enfeitadas pelas flores silvestres e cachoeiras. Lá do alto da Estrela Dalva pode-se avistar o veleiro alteroso singrando o mar alto, permitindo-se rememorar os barquinhos-de-papel, enquanto brinquedo  de criança, e  empreende-se "outras viagens".  E o olhar se perde, e se encontra,  dessa vez entre a vegetação de um açude,  e se faz presente ( infortunadamente,  fotografado somente pela retina)  a ação transformadora da natureza,  na insígnia do ninho semi-ovalado, construído de varetas  e forrado de folhas, com três ovos de tamanho médio, repousados e prometendo o nascimento das avezitas do  Martin-pescador. O ninho desse pássaro compõe o cinturão ciliar da pequena lagoa, e localiza-se somente há uma distância de um  metro e meio, da água. A nidificação está na condição de - hóspede - da  candiubá, arbusto nativo da região sudeste. O Martim-pescador, veste uma plumagem pluri-cromática, que são cores impressionistas, harmônicas e encantadoras. Imagine-se os pequenos Martim, pela proximidade do espelho d’água, muito cedo serão treinados a mergulharem, como - atividade primeira da sobrevivência -  ao localizarem, como suas “poderosas lentes” os cardumes encontrados nas  inundações lacustres. Os vizinhos  e compridos arvoredos, conhecidos popularmente como imbaúbas, - cecropia purpurascens -  são testemunhas desse relato. Contudo, “vale o escrito".

13 de janeiro de 2014

O sabiá-laranjeira



Ao se apreciar o sabiá, e o seu mavioso cântico, a brasilidade remete:  “ Minha terra tem  palmeiras, onde canta o sabiá, as aves que aqui gorjeiam, não gorjeiam como lá” é a abertura da consagrada  poesia – Canção do Exílio – de  Gonçalves Dias (Coimbra,1843).  Mas o desejo (in)contido, é o de narrar sobre o   Turdus rufiventris” ou o sabiá-laranjeira,  habitante  das matas, caatingas, campos e cidades ajardinadas.  Em 2002, por decreto,  o sabiá-laranjeira  passou a ser  oficialmente a ave símbolo do Brasil. Desde 1966, ela já ocupava como  ave-símbolo,  na terra dos bandeirantes. De coloração geralmente parda, ou pardo-avermelhada, e são por demais populares,  pela beleza do canto. Veste uma plumagem pardacenta no dorso, e ferrugínea no abdome. Há algumas lendas  sobre a mesma,  como por exemplo:  há quem afirme, que se o  “bicho-homem”   raptar o filhote e o confinar na gaiola, a sabiá-laranjeira fêmea,  ministra-lhe um  veneno,  e o mata. A sabiá-mãe o prefere morto,  do que enjaulado. Essa é a  estória através da oralidade,  passando para as futuras gerações.  As crenças que povoam o imagético do coletivo, ocorrem em  quaisquer partes do mundo.  A fêmea é responsável pela construção do lar, ou  seja do ninho. O formato são quase sempre esféricos, e profundos. O material utilizado tem os seguintes componentes: raízes, musgos, barro e outros. As paredes dos ninhos são espessas, para melhor se protegerem.. São doze dias de incubação, e os ovos são verde-azulados. A fêmea é pouco maior do que o macho, que (en)canta no período reprodutivo, antes do amanhecer e ao anoitecer, para atrair a fêmea, e demarcar o território.  O canto do sabiá-laranjeira permanece  até dois  minutos, e  vida útil dele,   pode atingir trinta anos. Na exposição de motivos enviadas ao então presidente, para torná-la a ave símbolo oficial do país,  assim argumentou  o relator  da matéria:  “ que o sabiá-laranjeira tem larga distribuição nacional, e porque é, dentre as aves, a mais inspiradora e, consequentemente a mais aclamada e decantada pelo sentimento popular e cultural”. O cântico-dobrado dura cerca de dez longos segundos.Sabiá vem do tupi sawi’a. 

O canto do sabiá-laranjeira é lindo. Mas há quem prefira vê-lo assim, com a boca cheia para ficar quieto. Foto: Cláudio Timm/Flickr

6 de janeiro de 2014

O beija-flor



Como se fosse bailarino, com movimentos suaves, o colibri chupa o néctar das flores indefesas. Velocíssimo nas manobras aéreas, sendo o único pássaro a engrenar a "marcha-ré". Estaciona no ar feito um helicóptero, ou melhor, a máquina voadora, é que foi  baseada no princípio aerodinâmico das aves. O "beijo" se dá através de um  longo bico, igual a uma fina  agulha, que  penetra   nas cavidades das flores, saciando-lhe a fome, ou a sede.  De plumagem caleidoscópica  - tom sobre tom -  em diferentes cromagens, dependendo da família. Elegantes, alguns parecem  estarem vestidos de fraques à inglesa. Eis a nominata dos beija-flores:  vermelho, garganta verde, bico vermelho, barriga branca, rabo branco, gravata-vermelha, e tantos outros. O colibri, é da família dos trochilidae, é considerado o menor pássaro do planeta. E somente são encontrados no Novo Mundo.  No estado ativo de sua vida, o beija-flor fica quase permanente no ar, inclusive quando se alimentam. Nos dias de chuva, ficam tristes, e não levantam vôo.  O famoso  pesquisador (pouco valorizado) dessas encantadoras aves foi o cientista Augusto Ruschi.  O beija-flor macho,  usufrui de  num "dolce far niente”, pois não choca os  ovos, e muito menos alimenta  filhotes, e nem constrói os ninhos – que são horizontalizados - num formato de uma sólida tigela. O material usado na construção do mesmo - sob a batuta do beija-flor fêmea -   são as teias de aranha, folhas e xaxim.  O colibri é eclético, pois se adapta as condições rurais e urbanas. Algumas espécies  dos beija-flores são polígamas. A fêmea do “besourinho-cauda-larga”, poderá construir, com maestria a superposição de dois e até três ninhos, e comandar  esse território durante vários anos. Esse espetacular fenômeno  da natureza , só ocorre no Nordeste do Brasil. Outro fato surreal, acontece com o “beija-flor besourinho”, que poliniza a bananeira-do-mato ou ornamental,  tendo o bico incrivelmente adaptado para essa flor. No plano “romântico”, destaca-se a amorosa “beija-flor-ametista “, que  na ocasião apropriada, prepara e executa  a corte nupcial com esmero. Isso posto,  poder-se-á  intuir que pelo fato do  coração do beija-flor,  ser por demais intenso, pois poderá apresentar seiscentas batidas por minuto, quiçá isso seja  um facilitador performático na iniciação  nupcial. A conferir.







 beija-flor ametista - foto duda menegassi


4 de janeiro de 2014

A coruja




A coruja, mal compreendida, todavia desde  a antiguidade já fazia sucesso. Era a ave da deusa  Atena ( Minerva) símbolo da inteligência racional. Ela é notívaga, convive somente com a noite. Ela é tão somente lunar , e percebe a luz da lua por reflexo. Talvez, seja por isso, que  a coruja é tradicionalmente o atributo dos adivinhos: simboliza o seu dom de   clarividência, contudo é através dos signos, por eles interpretados. “ A coruja , ave de Atena simboliza a reflexão que domina as trevas”(BAGE, 108). Segundo a lenda a coruja é o avatar das noites e da chuva. Em algumas línguas latinas, designa a coruja, como mulher bonita, e ave de bom augúrio.  As espécies de corujas são diversas.  Tive um bom amigo,  um homem por demais inteligente, que possuía algumas  estatuetas de corujas, entre os livros dele, e dizia-me, que a coruja é sabia, e o inspirava. Eis o seu nome:  Artur da Távola. Por aqui, na terra brasilis, dentre as strigiformes - nome científico da coruja - destaca-se a coruja-com- orelhas(foto). Elas vivem na orla das matas e também nas cidades, e se alimentam de grandes insetos.  Minimalista, aproveita os ninhos abandonados  de outras aves, e se estabelecem. A outra, é a coruja-latideira, e por último, o caburezinho, “meio  que canibal”, pois tem como hábito se alimentar dos sanhaços( mesmo com toda  a destreza desse pássaro, é inevitavelmente capturado), e os pardais ( que vieram de Portugal, tanto quanto a sífilis), rãs, lagartixas e pasmem:  pequenas cobras. Acho que o caburezinho, mesmo no diminutivo para mitigar o “canibalismo” dele, creio ser uma sub-coruja. Com bico afiado, caburezinho, degola os passarinhos. Na infância, quando se ouvia a coruja piar, pela fidelidade à crença, os chinelos era virados, com o solado para cima. Por vezes a coruja se calava, outras não. A estética da  coruja é a elegância  e o construtivo silêncio,  fazem-na uma ave,  cuja a origem  se conecta ao mítico e ao místico, desde  longevos séculos.



Retrato de uma coruja





18 de dezembro de 2013

Rua da Serra ou Hill's Street III


Na última  parte, da Rua da Serra, toquei  Carlos Alberto, cantor romântico. Viajei pela década de 1960. Sucesso na ZYO-26 – Rádio Difusora de Mimoso do Sul, sob a locução de Hilton Abi-Rihan, ícone da radiodifusão brasileira. Hilton Abi-Rhian e o rádio brasileiro se confundem. Hilton, é parte integrante do rádio brasileiro,  do Oiapoque ao Chui.  Esse mesmo personagem midiático,  foi frequentador assíduo do butiquim do João da Biquinha, tendo seu filho, o então jovem Clever como cantor.  Outro amigo, era o  Boa Alma – Ítalo Alves Ferreira, agraciado com o raríssimo premio Belfort Duarte, outorgado pelo Desporto Brasileiro  - Chico Bucheiro, personagem  ímpar nesse contexto lúdico e histórico, e  o  Ary de Souza Pinto, animador cultural dos melhores, com o seu açougue, a fornecer acepipes para acompanhar os aperitivos diários. Melhor dizendo segundo o "indelével"  Boa Alma: acessórios de porco e outros. Ao derredor o sirio-libanes Teodoro Kalil, poderoso comprador de café, e em frente José Canarinho, barbeiro de categoria. O “point” era o butiquim acima citado, onde formaram o “regional” conhecido como - Prata da Casa – que tocava no local. João da Biquinha era o promoter de alta patente cultural, pois criou um time de futebol, gerenciava o Boi Pintadinho, isso tudo acontecia na Rua da Serra ou na Hill’s Street. A rua  era alegre, pois o lúdico era uma constante. O Ari, proprietário do Açougue Nossa Senhora das Graças, era por demais participativo na comunidade. Nas horas vagas era um entusiasmado leiloeiro para ajudar as obras da Igreja de iSão José, e  de quebra, colaborava com o Independente Atlético Clube, mesmo sendo sócio e torcedor do adversário  Sport Club Ypiranga.  Ele  foi um autêntico desportista. Hilton conta uma curiosidade sobre o  Chico, que ganhava a buchada dos bois, e a comercializava. Uma generosidade do Ary, daí o apelido de Chico Bucheiro. Chico em todas as vezes que  bebia, após os  primeiros tragos, chorava copiosamente.  O  Seu Antonio, de origem mineira,  era cego e flamenguista roxo. Não era afeito a intimidades, pois se sabia  que na cinta,  um Smith Wesson do calibre 38. Ele possuía um movimento com boca e a língua, que parecia ter algum corpo estranho  na boca. Através da oralidade, há quem afirme, que em certa ocasião, caiu na sua boca,  (ou lançaram) quando cochilava, um punhado de trigo,  e daí, ele desenvolveu esse trejeito, de pipocos bucais. A conferir. Em frente ao Ary, o “Mercadão”   um imponente imóvel, que pelos traços arquitetônicos  remetia a pujança econômica de uma época. A cultura de uma comunidade, está na sua semiologia, ou seja nos sinais, nos signos, quer através da linguagem, costumes, construções e sambaquis,  e todas as demais “marcas”, que traduzem a história ou a historicidade de uma região. Se esses traços não forem preservados, e ou sinais de uma cultura, ela desaparecerá, e o condado ficará sem referência, e sem indicativos sócos e culturais,  perderemos a identidade cultural. Salve a Rua da Serra, e os seus históricos fundadores.