Nem sempre a orquestra de
pássaros se apresenta nas manhãs. Quando se ausenta, poderá ser pela chuva, ou o impedimento do maestro em comparecer para reger imagéticamente a - “ode a alegria” - último movimento da nona
sinfonia de Beethoven. Mais dessa vez as
tratativas foram cumpridas, com os sabiás das laranjeiras,
sanhaços, bem-te-vis e o mais recente filhote do
sabiá, debutando na orquestra das aves, que trauteava acordes matinais. Com o maestro presente a cantata dos pássaros em
alto e bom som, entoou cânticos alegres e cromáticos. E de repente, eis que surge o som tonitruante do sino secular da igreja, a perturbar a orquestra, que por pouco não desafinou. Por fim os acordes se harmonizaram. A chuva fina
do outono veio chegando sorrateiramente, e a passarada foi se dispersando ao recolhimento. O grande senhor, casado com lua, o poderoso dominador da luz e do calor, o sol desse mundo - olho e alma - se escondeu. E com a chuva, não há concerto. Estarei atento para escutar mais uma obra
musical, gestada pela mãe natureza.
24 de novembro de 2014
8 de novembro de 2014
A cigana e a mão esquerda
Compartia algumas vezes com Olimpio José de Abreu, a mesma mesa do bar que pertencia ao Hotel Argentina, que fica no Flamengo - Rio de Janeiro, e faziam companhia, Heitor Polo, George Pires Chaves, Moniz
Aragão pai do Jimmy, Vilmar Soter e outros.
Eram tertúlias de agradáveis diálogos.
Numa ocasião Olimpio contou-me que uma cigana quiromante abordou-lhe no Largo do Machado, e ofereceu-lhe
“serviços místicos” para ler a mão dele. Ele perguntou a “sacerdotisa da quiromancia “ se poderia ler a mão esquerda . A
quiromante respondeu-lhe, que a mão esquerda não se lê. Essa narrativa do amigo
foi armazenada no - arquivo implacável
da modesta memória desse cronista que lhes escreve – até que deparei-me com uma
cigana no mesmo Largo do Machado, reduto de um dos segmentos desses nômades, que interrompeu meus passos,
e de chofre disse-me: posso ler a sua mão? O relato do amigo Olímpio, como num apertar de uma tecla imaginária, veio-me a mente
a estória da “ sacerdotisa da quiromancia”. Disse a cigana que a mão esquerda
estava disponível para ser lida. Ela afirmou que não se lê a mão esquerda. Insisti
para saber a razão, em se negar ler mão canhota. Emudecida se afastou dando por encerrado o
diálogo. Perseverei indo atrás dela, para dirimir a dúvida, foi quando num sussurro quase inaudível, disse-me: a mão esquerda,
é a do diabo.
2 de novembro de 2014
A mística e seus apêndices
·
A Igreja católica historicamente sempre esteve aliada a classe dominante, destaque para o
período da Idade Média, onde as monarquias prevaleciam. A Inquisição promovida pelos católicos assassinou milhares de pessoas, em nome da manutenção do poder,
e na defesa de teses atrasadas. Numa breve pesquisa em nome do frei dominicano o espanhol - Tomas Torquemada - (1420/1498), descortinar-se-á o fato de ter lançado às fogueiras da Inquisição, cerca de 2200 (dois mil e duzentos) indivíduos entre judeus e muçulmanos. É a ponta de um " mega-iceberg". Em
1517 frei Martinho Lutero abre dissidência e cria o protestantismo, contrário a venda das indulgências que
“garantia” o reino dos céus e outras razões. Em 1789 explodia a Revolução
Francesa, contra a perversa monarquia e a Igreja Católica. A guilhotina foi amplamente usada contra a realeza, e outros segmentos, inclusive um dos líderes da revolução o advogado - Robespierre - foi decapitado. Em 1917 a Revolução
Bolchevique na Rússia baniu as religiões do território russo, e por fim a
Revolução da China em 1949, tomou idêntica
atitude e proibiu quaisquer atividades místico-religiosas nas terras de Confúcio. A história
é implacável, os fatos são julgados através do tempo. A proliferação de igrejas
neo-pentecostais ( evangelismo massivo) crescem em abundantes proporções geométricas. Antes eram as indulgências,
e no momento é a prática do exorcismo, e a pedofilia. E para finalizar, durante o golpe militar de 1964, o estamento religioso através da imponente CNBB - Conferência Nacional dos Bispos do Brasil - interferiu - politicamente correto - contra a ausência das liberdades democráticas na vigência da ditadura militar, alguns outros segmentos evangélicos acompanharam de roldão, o procedimento da igreja católica. Surgiu o mensalão, e seus atores foram condenados por corrupção, e a Igreja católica permaneceu emudecida. O escândalo da Petrobras promete ser o maior furto de verba pública do mundo, em valores e organização. Tal qual o passarinho, que na troca da plumagem não canta, a igreja católica continua emudecida, tanto quando permaneceu durante os trezentos anos da escravidão brasileira. Contrapõe (parte) da narrativa acima, o jesuíta Papa Francisco I, que deseja uma igreja pobre, para os pobres. Dever-se-ia buscar uma teologia transcendental, diante da divisão mundial de crenças divulgada pela ONU: 31% cristãos, 23% muçulmanos, 16% sem religião, 15% hindus, 7% budistas, 5% religiões étnicas, 1% judeus e outros. Onde está, ou é o centro?
1 de novembro de 2014
Carlos Drummond de Andrade

Pela genialidade e somente para compartir, Carlos Drummond de Andrade(1902/1987) - num exercício memorial - nasceu em 31 de outubro sob o signo da
constelação de Scorpion,
que alumia a imensidão do solitário espaço
sideral. Drummond era mineiro de Itabira. É considerado junto
com os imortais Manuel Bandeira e João Cabral de Melo Neto, os mais
importantes da escola da
poesia moderna brasileira. Ao se encontrar com Drummond pelas ruas mornas do Rio de Janeiro, indo para um compromisso, assim versejou para o poeta e imortal baiano Antonio Torres -:
"Como viver
sem conviver,
na praça
de convites?
Drummond escreveu para a sempre, pois sua obra é de
altíssima qualidade literária, com uma fina erudição conjugada com a
simplicidade mineira:
No meio do caminho
“ No meio do caminho tinha uma pedra/tinha uma pedra no meio
do caminho/ tinha uma pedra/no meio do caminho tinha uma pedra/nunca me
esquecerei desse acontecimento/na vida
das minha retinas tão fatigadas/nunca me esquecerei que no meio do caminho tinha
uma pedra/ tinha uma pedra no meio do caminho/no meio do caminho tinha uma
pedra "
27 de outubro de 2014
Nas areias do deserto

Ponte para atravessar
um cortejo fúnebre...
Da juventude na luta dos abássidas e outros bérberes,
mata-se...também a mãe (im)potente
Chora por aquele que
carregou nos braços
Uma perda para sempre e diferente,
Quem poderia intuir entrar pelo cano,
no longínquo mundo muçulmano?
A dor é geral
A dor nem sempre é igual.
Lamenta Kalil Gibran pelo sangue esvaído dos filhos
Nas areias quentes do
deserto,
Pelas causas, que por certo
Nessa contenda insana,
ausente o profeta Mohammad,
ouvidor do arcanjo
Gabriel,
em todas as récitas um eterno fiel
A dor não é igual,
a dor nem sempre é geral.
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